segunda-feira, 30 de setembro de 2019

Eugênia Anna Santos

Eugênia Anna Santos
Mae Aninha.jpg
Nascimento13 de julho de 1869
Salvador
Morte3 de janeiro de 1938 (68 anos)
Salvador
CargoIyalorixá do Ilê Axé Opô Afonjá
Eugênia Anna Santos, Mãe Aninha, Ọbá Biyi[1], (Salvador13 de julho de 1869 — Salvador, 3 de janeiro de 1938Iyalorixá, fundadora do terreiro de candomblé Ilê Axé Opô Afonjá em Salvador e no Rio de Janeiro.Eugênia Anna Santos[2] nasceu no dia 13 de Julho de 1869, às dez horas da manhã, na rua dos Mares 76, em SalvadorBahia. Filha de afro-brasileiros da nação Gurunsi (ou Grunci)[3]: Sérgio José dos Santos (chamado, em gurunsi, Aniió) e Leonídia Maria da Conceição Santos (chamada, em gurunsi, Azambrió). Não há informação sobre os avós paternos e maternos. Seu registro de nascimento fora efetuado pela própria Eugênia Anna Santos, no cartório do subdistrito do Paço, rua do Tingui 97, CEP 40040-380, Salvador, Bahia, no dia 7 de junho de 1937.[4]
Foi iniciada na nação de Ketu em 1884, aproximadamente, pela iyalorixá Marcelina da Silva,[5] Obá Tossi, na rua dos Capitães, residência de Maria Júlia Figueiredo,[6] Omonikê. Maria Bibiana do Espírito Santo, Mãe Senhora, Oxum Muiwà, conta que depois da morte de Marcelina da SilvaEugênia Anna Santos, fez santo Afonjá no Engenho Velho,[7] com Tia TeófilaBamboxê[8] e Tio Joaquim.[9] Indagada sobre essa segunda feitura no santo, Maria Bibiana do Espírito Santo afirmou que “isso tinha que ser feito, porque Xangô deu dois nomes na terra de Tapa, Ogodô e Afonjá”.
Fundou o Ilê Axé Opô Afonjá no Rio de Janeiro em 1895 e em Salvador em 1910. Em 1936, reinaugurou o Ilê Iyá,[10] instituiu o Corpo de Obás de Xangô (Ministros de Xangô) com Martiniano Eliseu do Bonfim,[11][12] lançou a pedra fundamental no novo barracão Ilê N'Lá e fundou a Sociedade Cruz Santa, no Ilê Axé Opô Afonjá em Salvador. Em 1937, participou do II Congresso Afro-Brasileiro em Salvador, a convite do escritor e etnólogo Edison Carneiro. Influenciou Getúlio Vargas, na promulgação do Decreto-Lei 1.202, no qual ficava proibido o embargo sobre o exercício da religião do candomblé no Brasil - contou com a ajuda de Oswaldo Aranha, seu filho-de-santo e chefe da Casa Civil e do Ogan Jorge Manuel da Rocha.
Começou a mostrar-se doente em junho de 1936. Seu último barco, com suas últimas filhas-de-santo, saiu no dia 13 de dezembro de 1937. No dia 3 de janeiro de 1938, às quinze horas, ela faleceu - vítima de arteriosclerose, conforme atestado apresentado por seu médico Dr.Rafael Menezes, na casa de Iyá no Ilê Axé Opô Afonjá. Às dezenove horas, o corpo foi transportado, em carro mortuário, do Ilê Axé Opô Afonjá para a Igreja de Nossa Senhora do Rosário dos Pretos, no centro histórico de Salvador, Pelourinho, onde ficou exposto até as quinze horas do dia seguinte, quando saiu o cortejo fúnebre. No dia 4 de janeiro de 1938 foi sepultada no Cemitério da Quinta dos Lázaros, Irmandade de São Benedito, com todas as formalidades de praxe do candomblé e da religião católica. Então, seguiu-se o axexê no Ilê Axé Opô Afonjá.
Em 3 de janeiro de 1945, foi realizada a obrigação de Aku (ou obrigação dos sete anos), o último dos compromissos da Sociedade para que a sua Iyá Obá Biyi obtivesse luzes e descanso eterno. Eugênia Anna Santos repousa num mausoléu, oferecido pela Sociedade Cruz Santa Opô Afonjá, no Cemitério da Quinta dos Lázaros, Irmandade de São Benedito, Salvador, Bahia.
Eugênia Anna Santos por Deoscóredes Maximiliano dos Santos, Mestre Didi
É imprescindível citar como fonte para o artigo do perfil biográfico de Eugênia Anna Santos o livro "História de Um Terreiro Nagô" de Deoscóredes Maximiliano dos Santos, Mestre Didi, porque ele compartilhou da vida dela, como agente direto e também espectador, e registrou, nesse livro, o dia-a-dia do Ilê Axé Opô Afonjá desde sua fundação. Para maiores detalhes sobre a importância desse livro para o estudo da biografia de Eugênia Anna Santos, ler o artigo do livro História de Um Terreiro Nagô. Nesse documento, Mestre Didi escreve o nome de Mãe Aninha como "Eugênia Anna dos Santos" e a filiação como nome do pai "Sérgio dos Santos (Aniyó)" e da mãe como "Lucinda Maria da Conceição' (Azambriyó)". Essas informações são diferentes das registradas na certidão de nascimento.
1. Iniciação Religiosa
Segundo Marcos Santana,[13] as possibilidades de pesquisa sobre os processos de iniciação de Eugênia Anna Santos "ainda não foram esgotadas". Em seu livro Mãe Aninha de Afonjá: um mito afro-baiano, escreve:[14]
"(...) é de aceitação universal que a jovem Eugênia Anna Santos teria sido iniciada na nação de Ketu em 1884, aproximadamente, pela insigne Iyalorixá Marcelina da Silva, Obá Tossi, na rua dos Capitães,[15] residência de Maria Júlia Figueiredo, Omonikê."
Maria Salete Joaquim cita Mãe Stella:[16]
"Para se tornar mãe-de-santo tem que nascer, é uma escolha do Orixá. Ser mãe-de-santo é dom, porque a pessoa tem que ser dotada para exercer o cargo. Se a pessoa não for dotada ela pode saber o máximo, mas nunca será Mãe."
Os pais de Eugênia Anna Santos imprimiram-lhe um sentido religioso profundo, advindo das antigas tradições gurunsi.[17] Segundo Agenor Miranda Rocha, Pai Agenor:[14]
"Foi iniciada ainda criança para Iá Grimborá,[18] divindade da nação Grunci, de seus pais africanos"
Mãe Stella, em seu livro Meu Tempo é Agora escreve:[1]
"A Iyálòriṣa era descendente de africanos Grunci. Foi iniciada no culto aos Oriṣá Yoruba, popularmente chamado KETU, cultuando, também, as divindades familiares, grunci. Construiu uma casa para Iyá, Oriṣá Obinrin correspondente à Yemọja dos Yoruba. Outras divindades grunci são cultuadas na casa de Iyá; um culto à parte, diferenciado."
"(...) Mãe Aninha era de Şàngó, filha-de-santo de Iyá Marcelina - Ǫba Tosin, do Candomblé do Engenho Velho, o Aşę Iyá Naso Oká."
Dentro do Ilê Axé Opô Afonjá de Salvador existe naquele espaço sagrado a casa de Iyá - Yemonja dos Yorubás, de Grunci, local onde Mãe Aninha faleceu na presença de algumas de suas filhas de santo, dentre elas a Mãe Preta do Brasil, Senhora de Oxum. Mãe Agripina a Iyalorixá que substituiu Mãe Aninha no Opô Afonjá do Rio de Janeiro, tinha o desejo de trazer os assentamento de Iyá para a casa carioca, a todo pedido de Mãe Agripina, a Matriarca Iyá Obá Biyí dispensava atenção, no entanto, não tomava a providência sem consulta ao Orixá, e recebeu de Iyá-Yemonjá que somente sairia de onde estava para a casa que estava sendo construída em São Gonçalo, ou seja, no Opô Afonjá de Salvador. O antropólogo e professor emérito da Universidade Federal da Bahia (UFBA), Vivaldo da Costa Lima, em seu texto Candomblés da Bahia na década de 30 escreve:[19]
"Utilizo aqui as informações que me foram confiadas pela ialorixá Senhora, Maria Bibiana do Espírito Santo, filha-de-santo de Aninha e bisneta-de-sangue de Marcelina Obatossi: – “Depois da morte de minha vó Marcelina é que minha mãe fez santo no Engenho Velho. Fez Afonjá, com minha tia Teófila, Bamboxê e Joaquim”. Indagada sobre essa segunda feitura no santo, Senhora me respondeu que “isso tinha que ser feito, porque Xangô deu dois nomes na terra de Tapa, Ogodô e Afonjá”. Senhora me disse ainda que o ajibonã de sua mãe-de-santo “foi homem, não foi mulher – Pedro do Cabeça, marido da finada Tia Tiana, Oloxun, mãe-de-santo de Popó, que morava na rua das Campelas."
Deoscóredes Maximiliano dos Santos, Mestre Didi, em seu livro História de Um Terreiro Nagô, escreve:[12]
"Fez Xangô à Rua dos Capitães, em casa de Maria Júlia Figueiredo (filha de Iyanassô), que chefiava a casa, junto com Marcelina da Silva (Obá Tossi) e tio Rodolpho Martins de Andrade (Bamboxê), conhecido também como Êssa Obotikô. O Xangô de Aninha deu-lhe o nome de Obá Biyi."
"Passados alguns anos, quando chegou o tempo determinado e Aninha completou os sete anos de iniciada, foram feitas novas obrigações, conforme determinação dos orixás, de modo que ela obtivesse poderes suficientes para exercer o cargo de uma das zeladoras do culto afro da Bahia, ou seja, para que fosse Iyalorixá do tradicional Axé de Ketu, de acordo com a história, ficando conhecida como Iyá Obá Biyi.
Eis por que, mesmo sendo descendente da nação Grunci, fez Xangô Ogodô e Afonjá na nação Ketu."
Resumo do percurso religioso de Mãe Aninha:[12]
DataLocal
não disponívelCasa Branca do Engenho Velho
não disponívelRoça do Camarão (Rio Vermelho) [12][20]
não disponívelSanta Cruz (Rio Vermelho)
não disponívelRua dos Capitães[21]
1903Corriachito
1907Ladeira da Praça
1910Ladeira do Pelourinho, 77[22]
2. Comerciante no Pelourinho
Tinha como atividade civil o comércio de quitutes, artesanato e produtos rituais africanos, com estabelecimento na Ladeira da Praça, no Pelourinho. Foi uma empreendedora muito bem sucedida. Segundo Marcos Santana:[14]
"Diversos relatos dão conta de que Mãe Aninha era uma comerciante bem sucedida que ajudava os mais necessitados amparando-os e encaminhando-os para trabalhar na sua residência. Essa posição social iria refletir na aquisição em 1909, das terras no alto de São Gonçalo para a criação definitiva do Axé de Xangô Afonjá."
Deoscóredes Maximiliano dos Santos, Mestre Didi, em seu livro História de Um Terreiro Nagô, descreve:[12]
"(...) Iyá Obá Biyi voltou a Salvador, para sua casa, à Ladeira do Pelourinho, onde tinha uma quitanda bem sortida de todos os ingredientes africanos e brasileiros para seu próprio uso e para vender também às pessoas que precisavam e procuravam comprar em suas mãos, para os devidos fins, nos respectivos terreiros de seitas africanas."
Mãe Stella comenta:[14]
"A casa de Aninha da Ladeira da Praça era um verdadeiro pensionato gratuito, onde as protegidas ajudavam na confecção de doces muito bem aceitos naquele tempo".
O sociólogo e doutor pela Universidade de Chicago Donald Pierson escreve:[23]
"(...) Possui na cidade uma pequena loja onde vende vários artigos, inclusive usados nos rituais de culto; e sabendo os membros do mundo afro-brasileiro que esses artigos devem ser legítimos, uma vez que são vendidos por ela, a loja faz bom negócio." "Outra moda, que no século XIX serviu para marcar a alta classe daqueles (de qualquer sexo) que a adotassem era deixar que as unhas do indicador e polegar crescessem até bem compridas... e cortá-las em ponta aguda. Hoje em dia, ao passo que os brancos, na Bahia, não mais seguem essa moda, vêm-se, ocasionalmente, pessoas de destaque entre os negros - por exemplo, Mãe Aninha do candomblé de São Gonçalo - usando unhas excessivamente compridas."
Resumo dos endereços residenciais de Mãe Aninha:[12]
DataLocal
não disponívelRua dos Capitães[21]
1903Corriachito
1907Ladeira da Praça[24]
1910Ladeira do Pelourinho, 77[24]
3. Ialorixá no Ilê Axé Opô Afonjá
Eugenia Anna Santos, comprou a roça de São Gonçalo do Retiro em 1909 e lá fundou o Ilê Axé Opô Afonjá. Deoscóredes Maximiliano dos Santos, Mestre Didi, em seu livro História de Um Terreiro Nagô, escreve:[12]
"(...) Aninha Iyá Obá Biyi residia na Ladeira do Pelourinho n.77, junto à Igreja de Nossa Senhora do Rosário, onde tinha posição de destaque, não só nas irmandades ali existentes como também na Igreja da Barroquinha. Foi quando, por ordem do seu eledá Xangô, comprou uma roça no alto de São Gonçalo do Retiro, onde organizou seu terreiro, fazendo uma grande casa para todos os orixás e as pessoas velhas que a acompanhavam, e realizando logo a inauguração do novo terreiro, denominado "Axé Opô Afonjá", com a iniciação de Agripina Souza, filha de Xangô. Agripina veio a ser a Iyalorixá do Axé Opô Afonjá do Rio de Janeiro, situado e funcionando em Coelho da Rocha, Axé que lhe foi dado pela velha Aninha e que é uma espécie de sucursal carioca do Axé Opô Afonjá, casa matriz de onde ele nasceu. No dia 27 de agosto de 1911, já com tudo mais ou menos organizado, foi feita a iniciação de Vevélha, filha de Oxun, e, em 7 de setembro, de Inezinha, filha de Oxalá, e de Faustina, filha de lansan. A essa altura, lyá Obá Biyi já havia iniciado por suas próprias mãos 23 pessoas (sem contar as que foram iniciadas em casas particulares, e outras dentro do Axé, cujos nomes não chegaram ao conhecimento público por motivo ignorado) e mais 20 homens, como Alabê, Axogun, Ogan, etc. Existia também grande quantidade de pessoas sem postos na casa mas que tomavam parte e acompanhavam todo o ritual do Axé. Daí, Iyá Obá Biyi, com sua boa vontade, seu espírito batalhador e a ajuda de todos que a acompanhavam, continuou a construir o Axé, fazendo casas nos assentos já existentes para Exu, para Oxalá, esta com um quarto para as Ayabá, para a Iemanjá denominada Ilê lyá, onde Mãe Aninha adorava Iyá n'ilê Grunci (a mãe da terra dos grunci, na África), outra para Obaluaiyê, além da de Oxossi e da casa de Ilê Ibó Akú (casa de veneração aos mortos), que ficou situada perto da casa de Obaluaiyê, pelos lados de baixo da roça."
Em 1921, Eugenia Anna Santos foi para a casa de José Theodório Pimentel, Balé Xangô,[25] em Itaparica. Mãe Aninha era muito amiga da família Pimentel. José Theodório Pimentel ajudava Mãe Aninha desde os tempos da Ladeira da Praça. Essa viagem foi muito importante porque é a evidência de que Mãe Aninha fez a ponte entre o Ilê Axé Opô Afonjá em Salvador e o culto aos Eguns em Itaparica e nessa casa fez a iniciação tanto de Mãe Senhora quanto de Mãe Ondina, filhas do mesmo barco,[26] suas sucessoras no Ilê Axé Opô Afonjá. Deoscóredes Maximiliano dos Santos, Mestre Didi, em seu livro História de Um Terreiro Nagô, escreve:[12]
"Em 1921, Iyá Obú Biyi , Aninha, foi para a casa de José Theodório Pimentel (Balé Xangô), em Itaparica, fazer a iniciação da filha do dono da casa, Ondina Valéria Pimentel, filha de Oxalá - mais tarde, Iyá Kekerê do Axé; de Senhora, filha de Xangô; de Filhinha, de Oxun; de Túlia, de Iemanjá, e de Vivi, de Obaluaiyê. Tirou esse barco de iyawôs com a ajuda de sua irmã lesse-orixá Fortunata de Oxossi (Dagan), mãe legítima de Silvânia, filha de Airá, a Iyámorô do Axé Opô Afonjá."
Mãe Aninha estava cercada de pessoas de sua confiança e sabia delegar. Em 1934, Mãe Senhora também já demonstrava grande espírito de liderança, conforme segue o relato de Deoscóredes Maximiliano dos Santos, Mestre Didi, em seu livro História de Um Terreiro Nagô:[12]
"Mesmo na ausência de Aninha, prosperava o Axé, dirigido por pessoas de sua confiança. Assim, em 1934, por ocasião das festas de ano das Águas de Oxalá, estando Iyá Obá Biyi no Rio, foi feita a remodelação de um barracão de palha que havia em frente a casa de Oxalá, e Senhora, a então Osi Dagan, mandou construir uma casa para Oxun, seu cledá, ao lado da casa de Oxossi, para que os festejos fossem realizados conforme o calendário.
Em junho de 1935 , Eugenia Anna Santos voltou do Rio de Janeiro para Salvador. Mandou desmanchar o barracão de palha em frente a casa de Oxalá para construir outro bem maior, mais acima, ao lado da atual porteira de acesso ao terreiro. Conforme Vivaldo da Costa Lima, na ausência de Mãe Aninha, chefiaram o terreiro sua irmã-de-santo Fortunata, a dagã do terreiro, Silvana, sua filha, a iámorô e Mãe Senhora, de Oxum, a ossidagã. Dirigiam elas as obrigações anuais; cuidavam dos filhos da casa; atendiam ao serviço diário dos santos, pois que certas obrigações, como a iniciação ou feitura do santo só poderiam ser feitas com a participação pessoal de Mãe Aninha.
No dia 29 de junho de 1936, instituiu o Corpo de Obá (ou Ministros de Xangô), tradição só conservada na Bahia no Ilê Axé Opô Afonjá. Mestre Didi comenta:[12]
"O restabelecimento da antiga tradição dos Obás de Xangô veio dar ainda maior prestígio ao Opô Afonjá e demonstrar as qualidades e conhecimentos da Iyalorixá Aninha Iyá Obá Biyi."
No dia 8 de novembro de 1936, Mãe Aninha, Obá Biyi, fundou a Sociedade Cruz Santa no Ilê Axé Opô Afonjá.
Mãe Stella escreve sobre os tempos de Mãe Aninha:[1]
"Iyá Oba Biyi era muito zelosa com coisas de hierarquia e awo. Tinha um grupo de filhas-de-santo mais velhas, e umas tantas quantas senhoras idosas, as Àgba, responsáveis pela educação direta das filhas-de-santo. Depois da iniciação, mãe Aninha as deixava aos cuidados das velhas senhoras. Tia Catú-Ayrá Tolá, filha-de-santo de mãe Aninha, na força de seus noventa e dois anos, nos conta muitas histórias. Ai da filha-de-santo que resolvesse passar por cima da hierarquia, indo queixar-se diretamente à Mãe-de-Santo! Não tinha nem graça... O grupo de Àgba, a que me referi, tinha de educar as iniciadas. Se estas não se comportassem muito bem, a culpa era atribuída à incompetência das mestras. O professor responde pelos discípulos, não é assim mesmo? Daí o zelo das mais velhas em transmitir conhecimentos que tinham recebido de seus mais velhos, aos mais moços. Ninguém ia querer receber uma advertência da Mãe-de-Santo, tendo a satisfação de mostrar que davam conta do recado, sabiam das coisas! Se a Iyalòrisa entregava seu filho a uma Ojúbòna, para tomar conta, é que confiava naquela pessoa, sentindo-se, até, desmoralizada em caso de falhas da mãe-pequena do Iyawó. Por tal motivo, procurou preencher seu Egbé com os cargos inerentes a um Ase. Sendo ela mestra maior, orientou a todos com sua força de caráter e disciplina."
Marcos Santana oferece uma proposta de como estaria formada a hierarquia do Ilê Axé Opô Afonjá em 1938:[14]
  1. Iyalorixá - Obá Biyi
  2. Iyá Kekerê - Iwin Tonã
  3. Iyá Dagã - Odé Gidê
  4. Iyá Morô - Ayirá Bayi
  5. Ossi Dagã - Oxum Muiywá
  6. Otun Dagã - Maria Otun de Ossanhe[27]
  7. Ajimuda - Ojeladê
  8. Balé Xangô - Bamboxê, Essa Obiticô / José Teodoro Pimentel
  9. Êssa Oburô - Obá Sañya / Tio Joaquim
  10. Assobá - Bopê Oiá
  11. Iyá Egbé - Airá Tola
  12. Oganlá - Ajagun Tundê
  13. Olopondá - Vevelha
  14. Sobaloju - Obá Kayodê
Segundo Vivaldo da Costa Lima, Mãe Aninha participava com devoção dos ritos e sacramentos da igreja católica - atitude dominante nas antigas mães-de-santo da Bahia: era Priora das Irmandades do Senhor Bom Jesus dos Martírios e de Nossa Senhora do Rosário, Provedora Perpétua de Nossa Senhora da Boa Morte, da Barroquinha, e Irmã Remida da Irmandade de São Benedito, nas Quintas.[19]
4. Últimos dias
Deoscóredes Maximiliano dos Santos, Mestre Didi, participou dos eventos narrados e conta em seu livro 'História de Um Terreiro Nagô':[12]
"No dia 6 de junho, Mãe Aninha fez a iniciação de José, de Ogun; Cantulina, de Airá; Eutrópia, de Oxun. Adoecendo, teve que parar um pouco para descansar, deixando algumas iyawôs para quando melhorasse - o que não aconteceu. (...)
Quando a morte se aproximou de Iyá Obá Biyi, às nove horas do dia 3 de janeiro de 1938, às nove horas, foi imediatamente reconhecida. Mãe Aninha, devido a seus profundos conhecimentos, estava ciente de seu fim e já tinha até a roupa preparada para o seu enterro. Chamou então seu neto, Didi, o Assobá, o Obá Aré Miguel de Sant'Anna, e a Ossi Dagan Senhora. Imediatamente eles chegaram e se apresentaram ao lado da cama onde ela se encontrava, em um dos quartos da casa que atualmente é de Ossãin.
Iyá Obá Biyi, já com a fala confusa, disse: "Obá Aré: Obá Abiodun fica como presidente da Sociedade, e você eu quero que fique ao lado de Ossi Dagan, lessé orixá" (aos pés do orixá). Logo em seguida, virou a língua e falou, em iorubá, algumas coisas que nenhum deles entendeu. Então ela disse: "Não sabem o que perderam". E pediu que a levassem para a casa de Iyá, onde, depois de ter feito alguns preceitos com o auxílio de suas filhas que, em sua maior parte, lá estavam, além de alguns Obás e Ogans, perdeu a fala e veio a falecer às 15 horas, na presença de seu médico que chegou a tempo de vê-la dar o último suspiro.
Às 19 horas, depois de terem sido tomadas as providências necessárias, o corpo de Iyá Obá Biyi foi transportado, em carro mortuário, do Axé Opô Afonjá para a Igreja de Nossa Senhora do Rosário, onde ficou exposto até às 15 horas do dia seguinte, quando saiu o enterro.
À saída do carro mortuário acompanhado de oito ônibus, não se podia passar no Pelourinho, tal a quantidade de automóveis e a mult idão de gente que acompanhava. Só em um dos livros de presença colocados na entrada da Igreja, havia registro de mais de oitocentas assinaturas.
Trazido para o carro mortuário, o caixão foi quase que arrebatado pelo povo, que fez questão de conduzi-lo nas mãos até o cemitério das Quintas, seguido do carro mortuário, dos ônibus super lotados, dos automóveis e de um número incalculável de pessoas a pé, interrompendo o trânsito por uma hora e quarenta e cinco minutos, segundo os jornais da época.
Na subida da Ladeira das Quintas, o caixão foi entregue aos Obás, Ogans e filhos da casa, para que prestassem as obrigações que tinham por dever para com a Iyalorixá morta. Ossi Dagan (Senhora) colocou-se à frente, saudou Xangô e, rogando a Deus pelo descanso eterno para sua Iyalorixá, iniciou a cerimônia.
Iniciaram-se as cantigas de preceito. As pessoas que carregavam o caixão andavam um pouco, depois davam três passos para trás, três para a frente, e assim sucessivamente, até chegarem ao portão das Quintas, onde entregaram o caixão para aqueles que o haviam retirado da Igreja. Então encaminharam-se todos, no mais profundo silêncio, para o cemitério da Irmandade de São Benedito, onde foi feito o sepultamento, fazendo-se ouvir, na despedida à Mãe Aninha,
Ajimudá (Martiniano Elizeu do Bonfim), e muitos outros oradores."
Vivaldo da Costa Lima, em seu texto Candomblés da Bahia na década de 30, escreve:[19]
"O jornal o Estado da Bahia de 5 de janeiro publicou sobre o mesmo uma ampla matéria, em cinco colunas e com três fotografias. Segundo a mesma, mais de duas mil pessoas compareceram e acompanharam, a pé, o cortejo, até as Quintas; o comércio das imediações da Igreja do Rosário, no Taboão e na Baixa dos Sapateiros, cerrou suas portas em homenagem a Aninha, muito querida e respeitada na área e dela moradora, por longos anos, em casa vizinha à Igreja onde foi velado o seu corpo. Diz, ainda a reportagem, que o Cônego Assis Curvelo, na capela do cemitério, fez a encomendação do corpo, seguindo-se o sepultamento em cova recém-aberta". Falaram, na ocasião, vários oradores, entre estes o Sr. Álvaro MacDowell de Oliveira, em nome da União das Seitas Afro-Brasileiras da Bahia, o escritor Édison Carneiro, além de representantes do Centro Cruz Santa e da Irmandade do Rosário. Por fim, terminada a cerimônia, duas marinettis levaram grande número de amigos de Aninha para São Gonçalo, a fim de tomar parte nas cerimônias fúnebres preparatórias do axexê da querida mãe-de-santo". Devendo-se assinalar, aqui, o fato de entre os oradores, por ocasião do seu sepultamento, haver também estado o velho amigo e irmão Martiniano do Bonfim."
Mãe Stella comenta sua experiência:[1]
"(...) Deixou o Asé em 1938, juntando-se a outros dignos ancestrais, levando consigo muito conhecimento que não teve tempo de passar. Quando faleceu, deixou um barco de Iyáwó novíssimo; mal tinham acabado de dar o nome. Deve ter sido horrível! A cidade do Salvador parou com o falecimento de Iyá Obá Biyi."
"Lembro-me de minha tia, muito séria, conversando com o titio sobre a perda de uma jóia rara da Bahia. Nesse dia 3 de janeiro de 1938, vi titia chorar... Tinha doze anos. Tia Menininha (Archanja) era Sobálóju do terreiro de mãe Aninha."
Segundo depoimento de Mãe Cici, que ouviu uma história, no axexê de Mãe Aninha apareceram alguns eguns.[28]
"Tinha um grande barracão, de taipa e palha de dendê. Então, quando teve o axexê de Mãe Aninha, o povo da parte de egun foi fazer. Aí o egun dela saiu e chamaram pra pegar o carneiro. Aquilo foi um assombro pro povo. Eles nunca tinham visto uma coisa daquela. Quem viu, me contou, uma criatura que era mais velha do que eu dez anos. Ela era pequena e pulava na ponta do pé pra poder enxergar. O povo todo gritando, no desespero, quando viu aquela figura pegar o carneiro, trazer e desaparecer no mato."

Realizações[editar | editar código-fonte]

Segue abaixo uma introdução das principais realizações de Eugênia Anna Santos, Mãe Aninha, Obá Biyi, enquanto Iyalorixá do Ilê Axé Opô Afonjá. Segundo Marcos Santana:
"1936 pode ser considerado o ano das grandes realizações de Obá Biyi na Roça de São Gonçalo. Após o longo período no Rio de Janeiro ela, ao retornar a Salvador, cumpre uma agenda típica de grandes políticos e estadistas. As metas do seu projeto de vida e da sua vocação fundadora se concretizam seguindo uma meta-pré-estabelecida."[14]
1. Fundação do Ilê Axé Opô Afonjá - Saúde, Rio de Janeiro - RJ, 1895[29]
(em construção) Notas:
  • 1886: Primeira visita de Mãe Aninha
  • 1895: Mãe Aninha vem ao Rio com Bamboxê e Tio Joaquim e funda uma casa de santo no bairro da Saúde
  • 1935: Mãe Aninha encarrega Mãe Agripina para cuidar do Afonjá no RJ
  • 1944: localizado na rua bela em sao cristovao, Mãe Agripina transfere o Afonjá para Coelho da Rocha, São João do Meriti - RJ
2. Fundação do Ilê Axé Opô Afonjá - São Gonçalo, Salvador - BA, 1910
O terreiro de candomblé Ilê Axé Opô Afonjá foi criado em 1910 por Eugênia Anna Santos, Mãe Aninha, Obá Biyi, em Salvador, Bahia. Ela adquiriu a roça de São Gonçalo, de aproximadamente trinta e nove mil m², onde está situado o terreiro, em 1909. O local é distante do centro histórico de Salvador - Pelourinho - onde Mãe Aninha tinha residência civil na época. São Gonçalo era conhecido pelos sítios de laranjais e pelos diversos quilombos.[14] Donald Pierson detalha as direções de acesso ao terreiro:
"Para se chegar à seita de uma conhecida mãe de santo, toma-se o bonde da Calçada para a periferia da cidade, passando-se por laranjais e pastos crescidos, até o matadouro, onde se desce: sobe-se depois por uma estrada íngreme, ladeada por plantas chamadas "nativos" (que dizem ser originárias da África), uricuris e outros coqueiros, até que depois de andar mais dois quilômetros, se chega a um cume que domina um verde vale, donde se pode ver a cidade, bem ao longe. Uma brisa fresca sopra do mar e tempera o calor do sol tropical. Entre palmeiras esparsas aninham-se várias casas, algumas elegantemente pintadas de branco, amarelo, verde e azul."[23]
3. Reinauguração do Ilê Iyá - São Gonçalo, Salvador - BA, 1936
Em pesquisa. Aguardando livro Bahia de Todos os Santos de Jorge Amado, relançamento da Companhia das Letras, em Maio de 2010. Há no livro um relato dele, com a descrição desse evento.
Deoscóredes Maximiliano dos Santos, Mestre Didi, conta um pouco:[12]
"Ainda em 1936, a Iyalorixá Iyá Obá Biyi - Aninha - participou do II Congresso Afro-Brasileiro, realizado em Salvador, enviando uma comunicação sobre culinária litúrgica baiana. Os congressistas foram festejados no Axé, por ocasião da remodelação da casa de Iyá, numa cerimônia que a todos impressionou, pela pureza e formosura do ritual.
4. Lançamento da pedra fundamental do novo barracão, Ilê N'Lá - São Gonçalo, Salvador - BA, 1936
Deoscóredes Maximiliano dos Santos, Mestre Didi, escreve:[12]
"Em 1936, como resultado do esforço e da orientação de Iyá Obá Biyi, levantaram a primeira pedra para a construção do atual barracão, numa festa que contou com a presença de todos da casa e das autoridades da época."
5. Instituição do Corpo de Obá - São Gonçalo, Salvador - BA, 1936
Eugênia Anna Santos, Mãe Aninha, Obá Biyi, introduziu o Corpo de Obá, ou Ministros de Xangô, no Ilê Axé Opô Afonjá no dia 29 de junho de 1936 - ato inédito num terreiro de candomblé, na América. Foi auxiliada diretamente por Martiniano Eliseu do Bonfim, Ajimuda do Ilê Axé Opô Afonjá.[14] Descreve Donald Pierson, num depoimento recolhido de Mãe Aninha a ele:[23]
"(...) Minha seita é nagô puro, como o Engenho Velho. Tenho ressuscitado grande parte da tradição africana que mesmo o Engenho Velho tinha esquecido. Têm mãe de santo aí para os doze ministros de Xangô? Não! Mas eu tenho."
Escreve Mãe Stella:[1]
"Com dignidade, auxiliada pelo Babalawo Martiniano Eliseu Bonfim, elo de ligação do Opó Afǫnjá com a Nigéria, introduziu no Novo Mundo o Corpo de Ọba, os Ministros de Ṣàngó, responsáveis pelas coisas civis da Roça.
(...) seis da direita (ǫtún) e seis da esquerda (òsi). Os Ǫba da direita têm direito a voz e voto; os da esquerda, a voz.
Aos Ǫba foi entregue o destino civil do Aşę e, também, religioso. Eles são os Ministros de Ṣàngó, seus representantes.
Ressalto que os Ǫba da direita também têm o direito de pegar o Şere de Ṣàngó, em atos realizados no Barracão, em louvação ao referido Orişa.
Os Ǫba são especialmente chamados de "pai" pelos filhos de Ṣàngó. Como Ministros de Rei, sentam-se ao lado da Iyálòrişa, a qual representa Ṣàngó, conforme os títulos ocupados. Trocam o "jùba" com Iyálaşę e demais autoridades religiosas, recebendo pedidos de bençãos, por parte do Ęgbę. São os representantes de direito da Sociedade Civil, incumbindo-lhes a tarefa de, junto à Iyá e Conselho Administrativo, conduzir os bons caminhos do Aşę, zelando, também, pela manutenção das tradições da Casa."
A denominação dos Obá se dá conforme segue:[1]
  • Os Obá da direita são: Kakanfò, Téla, Abiǫdun, Àrę, Àrolu e Ǫdǫfun.
  • Os Obá da esquerda são: Ǫnaşǫkun, Aręssá, Eleryin, Oni Koyi, Olugbǫn e Şòrun.
6. Fundação da Sociedade Cruz Santa - São Gonçalo, Salvador - BA, 1936
Eugênia Anna Santos, Mãe Aninha, Obá Biyi, fundou a Sociedade Cruz Santa no Ilê Axé Opô Afonjá no dia 8 de novembro de 1936, dia da festa dedicada a Oxum.[14] Escreve Mãe Stella:[1]
"(...) Em 1936 criou a Sociedade Cruz Santa do Opó Afǫnjá, preservando, assim, a continuidade de nossa casa, evitando eventuais possíveis incidentes de sucessão, pós sua morte."
Deoscóredes Maximiliano dos Santos, Mestre Didi, conta:[12]
"Foi organizada então a sociedade civil com o nome de Sociedade Beneficente Cruz Santa Opô Afonjá, tendo como presidente de honra o Sr. Martiniano Elizeu do Bonfim (Ajimudá), e a primeira diretoria como se segue: Presidente Arkelao de Abreu (Obá Abiodun), Vice-Presidente Miguel A. de Sant'Anna (Obá Aré), Secretário Tibúrcio Muniz (Ogan Ilê Ogun), Tesoureiro Jacinto Souza (Obá Odófin)."
7. Participação no II Congresso Afro-Brasileiro - Salvador - BA, 1937
Eugenia Anna Santos, Mãe Aninha, Obá Biyi, participou do II Congresso Afro-Brasileiro, organizado por Edison Carneiro, com o apoio de Arthur Ramos e Áydano do Couto Ferraz, quando apresentou o assunto Notas sobre comestíveis africanos - 25 receitas sobre culinária ritual (sendo 24 com nome iorubá, sem tratar dos processos de preparo ritual)[14], publicado no livro de Edison Carneiro "O Negro no Brasil" (Rio de Janeiro, Civilização Brasileira, 1940).
O primeiro Congresso Afro-Brasileiro foi realizado na cidade do Recife, em Pernambuco no ano de 1934, sob a liderança de Gilberto Freyre e tendo também como um dos idealizadores o poeta brasileiro Solano Trindade que além de poeta e folclorista era militante ativista que participou da fundação da Frente Negra Pernambucana, Centro de Cultura Afro-Brasileiro, Teatro Experimental do Negro. Waldir Freitas Oliveira, professor, escritor e membro da Academia de Letras da Bahia, comenta sobre o segundo Congresso Afro-Brasileiro:[30]
"(...) Naquela reunião pretenderam, de uma certa forma, mostrar aos pernambucanos que haviam realizado em Recife, em 1934, liderados por Gilberto Freyre, o I Congresso Afro-Brasileiro. Nós, em Salvador, tínhamos idéias próprias sobre o problema do negro. Isso porque não concordávamos, integralmente, com a concepção de Gilberto Freyre sobre a formação social do Brasil e com a sua teoria sobre relações raciais. Naquele encontro houve a tentativa da criação em Salvador de um núcleo de pesquisas dedicadas ao estudo da escravidão. Mas esse objetivo não foi adiante porque, com a insurreição comunista de 1935, Édison Carneiro esteve ameaçado de ser preso. E também porque, logo em seguida, veio o Estado Novo. Desse modo, aconteceu uma paralisação nessas atividades e ficamos, por algum tempo, sem estudos africanistas na Bahia. Mesmo assim, em 1937, Édison Carneiro publicou seu livro de estréia Negros bantus, editado no Rio de Janeiro."
Deoscóredes Maximiliano dos Santos, Mestre Didi, conta:[12]
"Ainda em 1936, a Iyalorixá Iyá Obá Biyi - Aninha - participou do II Congresso Afro-Brasileiro, realizado em Salvador, enviando uma comunicação sobre culinária litúrgica baiana. Os congressistas foram festejados no Axé, por ocasião da remodelação da casa de Iyá, numa cerimônia que a todos impressionou, pela pureza e formosura do ritual."
Segundo Vivaldo da Costa Lima[31]:
Ela havia voltado do Rio, um pouco adoentada, e nunca mais recuperou inteiramente a saúde. Mas fez uma festa, lá em São Gonçalo, no dia 14 de Janeiro, quando o terreiro está fechado. O noticiário do congresso diz que essa festa foi a melhor que houve durante o congresso. É bom que evoquem esses fatos, 50 anos depois de ocorridos: isso tudo aconteceu em 1937, quando uma mãe de santo tradicionalista e rigorosa não hesitou em organizar uma festa em seu terreiro, fora do calendário ritual, para uma finalidade que ela considerou, e o Xangô da casa com certeza confirmou, necessária a um propósito válido. Não houve, nesse caso, qualquer concessão indevida, nenhuma quebra de normas, mas o pleno exercício da capacidade de decidir. Dentro da coerência e dos princípios, e do ritmo da casa, como costumava dizer a ialorixá Senhora, Aninha cumpria o prometido a Carneiro e preparou depois, um pequeno trabalho sobre culinária africana, muito interessante, que está publicado no Negro no Brasil. Um trabalho sinóptico, extremamente despojado, mas suas receitas revelam claramente, no campo da comida ritual, o que significava para o povo de santo a reserva nas 'coisas de fundamento', porque Aninha apenas descreve 25 qualidades das comidas, todas com os nomes nagôs, menos uma, a "farofa", descritas - as que o foram - com extrema simplicidade, com breves referências ao ingrediente básico utilizado, mas nenhuma informação, no entanto, sobre a maneira de fazer e menos ainda ao seu possível emprego ritual no candomblé.
8. Promulgação do Decreto-Lei 1.202 - Rio de Janeiro - RJ, 1939
O Decreto-Lei número 1.202, publicado em 8 de Abril de 1939, dispõe sobre a administração dos Estados e dos Municípios, ou seja, descreve qual a competência de cada esfera do Estado e da Administração Pública.[32] No artigo 33, parágrafo 3, lê-se: "É vedado ao Estado e ao Município: Estabelecer, subvencionar ou embargar o exercício de cultos religiosos;".
Esse fato é de suma importância porque, na época de Mãe Aninha, o exercício livre da religião do candomblé sofria de preconceito e perseguição policial. Embora o Decreto-Lei tenha sido publicado somente em 1939, consta que Mãe Aninha teria tido um encontro com o presidente Getúlio Vargas em data anterior, pois ela era sua conselheira espiritual, e Getúlio, no período da ditadura, com ela se cuidava espiritualmente. O encontro da Iyalorixá com o Presidente, para tratativas sobre a Lei, aconteceu no Palácio do Catete, Rio de Janeiro, e foi promovido pelo chefe da Casa Civil, Oswaldo Aranha, que era filho-de-santo de Mãe Aninha, e do Ogan Jorge Manuel da Rocha.
Escreve Mãe Stella:[1]
"Foi a responsável pela liberação do culto afro-brasileiro, bastante perseguido, nos primórdios do século, pela polícia. Candomblé era coisa de negros ignorantes, prática fetichista, a vergonha da Bahia - diziam. Ǫba Biyi não hesitou: no Rio de Janeiro, onde residia na época, foi ter com Getúlio Vargas, obtendo a liberdade para a prática da religião dos Orişa, pelo Decreto n.1202. A entrevista com o Presidente foi conseguida graças à ajuda de Oswaldo Aranha, então chefe da Casa Civil, amigo de mãe Aninha, e esforços do Ogan Jorge Manuel da Rocha."

Maria Bibiana do Espírito Santo

Maria Bibiana do Espírito Santo, Mãe Senhora, Oxum Muiwà, (Salvador31 de março de 1890 - Salvador, 22 de fevereiro de 1967) foi a terceira Iyalorixá do Ilê Axé Opô Afonjá em Salvador, Bahia.Maria Bibiana do Espírito Santo nasceu no dia 31 de março de 1890[1], filha de Félix do Espírito Santo e Claudiana do Espírito Santo, na Ladeira da Praça em Salvador, Bahia. Tinha uma irmã chamada Felícia do Espírito Santo.
Mãe Senhora é descendente da nobre família africana Asipá, originária de Oyó na Nigéria e Ketu no Benim. Sua mãe, Claudiana do Espírito Santo era filha de Madalena. Madalena era filha da Sra. Marcelina da Silva, Oba Tossi, uma das fundadoras da primeira casa de candomblé no Brasil: o Ilê Axé Airá Intilè, ou Candomblé da Barroquinha, depois Casa Branca do Engenho Velho, em Salvador.
Foi iniciada na nação de Ketu em 4 de novembro de 1907, pela ialorixá Eugênia Anna Santos, Mãe Aninha, em sua casa na Ladeira da praça, no Pelourinho, centro histórico de Salvador. Mãe Aninha lhe entregou a cuia (contendo a faca, a tesoura e a navalha) no ritual de iniciação.[2] A navalha fora de sua avó, Marcelina da Silva, Obá Tossi. A linhagem familiar é que permitiu a Mãe Senhora, ainda criança, a receber os símbolos do direito ao mais alto posto do candomblé. Mãe Aninha não queria iniciar Mãe Senhora tão jovem - pois sabia como é pesada a disciplina do sacerdócio - mas teve uma visão na qual Marcelina da Silva, Obá Tossi, ordenava-lhe o contrário. Segundo consta, os primeiros banhos rituais de Mãe Senhora, ainda menina, foram tomados no Ilê Axé Airá Intilè, em Salvador.[3]
Casou-se com Arsênio dos Santos. No dia 2 de dezembro de 1917, nasceu seu filho único, Deoscóredes Maximiniano dos Santos, Mestre Didi.
Foi Iyalorixá do Ilê Axé Opô Afonjá em Salvador no período de 1942 a 1967, consolidou-se uma das maiores líderes religiosas da história do Brasil.
Faleceu na madrugada do dia 22 de janeiro de 1967, na casa de Oxalá do Ilê Axé Opô Afonjá em Salvador, Bahia, vítima de um súbito AVC (acidente vascular cerebral).
1. Comerciante no Mercado Modelo e na festa do Ribeira
Mãe Senhora tinha uma barraca na rampa do antigo Mercado Modelo que chamava de “A Vencedora”, mais como forma de entretenimento do que de subsistência. Tinha o hábito de chegar ao mercado entre 8 e 9 horas da manhã para vender frutas que o pessoal do Opô Afonjá apanhava na roça: manga, araçá, tamarindo, mangabada etc. Quem ajudava era Celina de Jesus, Cosme, Valdeck. Sua neta, Inaicyra, filha de Mestre Didi, lembra com saudade que gostava muito de comer os bolinhos manauês e das bolachinhas de goma que ela fazia e as vezes vendia por lá. Entre 2 e 3 horas da tarde, já estava de volta em casa, com suas compras: rabada, fígado, o que mais tivesse bonito e fresco na ocasião. Foi também no Mercado Modelo que Camafeu de Oxóssi fez a aproximação de Jorge Amado com Mãe Senhora. Jorge Amado costumava frequentar muito a barraca de Camafeu.[4] Mãe Senhora costumava vender na festa do Ribeira, no bairro de mesmo nome, em um ponto que era dela (e não uma barraca como no Mercado Modelo), quando vendia cocada e doces diversos. Esse ponto ela passou depois para uma senhora de nome Epifânia, sua filha-de-santo. Quando estava por lá, Mãe Senhora tinha o hábito de ir a Missa da Igreja de Nossa Senhora da Penha.[4] Segundo relato de sua neta, Nídia Maria do Santos, filha mais velha de mestre Didi, Mãe Senhora não tinha o hábito de estar com suas contas e roupas de obrigação fora do Opô Àfonjá, quando dessas visitas ao antigo Mercado Modelo e na festa do Ribeira.[4]
2. Ialorixá no Ilê Axé Opô Afonjá
No dia 25 de Dezembro de 1937, Mãe Stella conta que conheceu Mãe Aninha e Mãe Senhora (Ossi Dagã), numa visita com seus familiares ao Ilê Axé Opô Afonjá: “Esse espaço era uma fazenda com pouquíssimas casas, muita vegetação, muitas árvores e muito mistério - sem água corrente nem luz elétrica, mas era tudo lindo! No decorrer da visita, escutei muitas vezes mãe Aninha, a quem eu chamava de tia, solicitar a presença da ossi dagã para as funções as mais variadas. Dava pra notar que era um pessoa de extrema confiança e que se dedicava carinhosamente, com respeito e sem medo, às funções que lhe eram impostas. A ossi dagã era uma figura que emanava simpatia e segurança. Corpo rechonchudo, seios fartos, olhos grandes, lindo riso, pouca estatura, pernas curtas - fazia tudo com a mão esquerda. Era uma deusa de ébano! Voltei para casa com a imagem de tia Aninha, imponente e misteriosa, que com um gesto meio mágico tirou uma fruta - uma maçã vermelha - de uma grande gamela que estava no altar de Xangô, e me entregou. Achei ótimo, esnobei meus irmãos, ainda mais quando me disseram: - Só você ganhou a fruta do pé do Santo... Não me saía da cabeça a imagem da ossi dagã. Só falava nela e, então, fui informada de que ossi dagã era o cargo que ela ocupava no Axé. Um ano depois, voltei com minha tia Arcanja, a Sobalojú do Opô Afonjá, e Joaninha, companheira de todas as horas. Tia Aninha já tinha falecido e a ossi dagã reinava como Ialorixá do Axé Opô Afonjá. Desse tempo em diante, o destino do Candomblé de São Gonçalo ficou a cargo de mãe Senhora, o que ocorreu após o afastamento de mãe Bada, a sucessora imediata de mãe Aninha.”[4]
Como Vivaldo da Costa Lima explica, na época do falecimento de Mãe Aninha, a direção do Ilê Axé Opô Afonjá foi dividida entre a antiga dagã da casa e a ossi dagã (Mãe Senhora), que passou a usar o título de ialaxé. Com o falecimento de Mãe Badá, Olufan Deiyi, em 1941, a ialaxé continuou à frente do terreiro até que, em 1945, após sete anos da morte de Mãe Aninha, foi realizada a cerimônia de Acu e Mãe Senhora passou a ser chamada de ialorixá, a ser de fato e direito, a mãe-de-santo do terreiro.[5]
Mãe Stella lembra que o período de Mãe Badá “foi curto, pois a idade avançada e a doença abreviaram seu tempo no Àiyé. Partiu para o Orun levando consigo muita força misteriosa e valiosos conhecimentos. Passado o tempo regulamentar, o destino do Àxé ficou sob a orientação de Mãe Senhora. Com pulso forte e doçura de Olósun, por mais de trinta anos se dedicou ao Opó Àfonjá. Mãe Senhora tinha total dedicação a Sàngó e o consultava para as mínimas coisas. Ele era seu orientador e confidente. Vibrava nas festividades dedicadas ao senhor Àfonjá.”
Mestre Didi conta que “com o título de Iyalaxé Opô Afonjá (mãe da força espiritual que mantém o Axé Opô Afonjá), dirigindo os destinos do terreiro, ao lado de uma senhora filha de africanos, muito amiga de Iyá Obá Biyi, de nome Maria da Purificação Lopes, ou Badá Olufan Deiyi. As duas puseram o Axé a funcionar, e no dia 26 de junho de 1939 deu-se a inauguração da nova casa de veneração aos mortos, construída para as obrigações da finada Aninha, junto ao cruzeiro. Fizeram a iniciação das seguintes pessoas: Honorina, filha de Ossãin; José e Hilda, ambos de Xangô; Senhorazinha e Dacruz, ambas de Oxun; e Isabel, de lansan. Três dias depois, Fortunata e Antonieta, ambas de Obaluaiyê; Dulcinha e Benzinha, ambas de lemanjá. Entrou também, mais três dias após, Stela, de Oxossi. No mesmo ano, foi feita uma casa para Ogun, e reiniciaram-se obras do novo barracão e a construção da casa de Xangô.”[3]
Segundo o Sr. Agenor Miranda, Mãe Senhora “foi a verdadeira continuadora de mãe Aninha (...) Quando a conheci, Senhora já era uma mocinha, era uma verdadeira rainha. Sabia ser dócil e meiga mas, também, sabia impor respeito, quando necessário fosse. Todos respeitavam muito Senhora. Eu era muito amigo dela e ela minha amiga, mas eu sempre a respeitei muito porque os antigos sempre tinham em mente a hierarquia e ela era mais velha do que eu. Ela era minha irmã, porque fomos feitos por Aninha, mas quando eu a conheci, ela já era feita e já tinha um cargo dado por minha mãe Aninha, dentro do Axé.”[4]
Mãe Stella ainda conta que Mãe Senhora “falava muito sobre hierarquia, dando ênfase à autoridade de Mãe Aninha. Segundo minha mãe, aquela falava pouco no dia-a-dia com os Filhos-de-Santo, deixando a tarefa para a Dagan do Igbé, dona Fortunata de Ode, que por sinal fora Ojubona de minha mãe. Era assim responsável pelos Àbúrò da Casa. Ao assumir o posto de Iyálorisa, além de outras inovações que serviram para o engrandecimento da Casa, Mãe Senhora criou os sub-cargos de Otun e Òsi para o Corpo de Oba. Cada Oba passou a ter, então, seus auxiliares - um Otun e um Òsi. Oba Odofin teria, por exemplo, um Otun-Oba Odofin e um Òsi-Oba Odofin. A formação do Corpo de Oba passou assim, de doze para trinta e seis componentes, ela colocou no lugar de Dagan (pois Dona Fortunata falecera), a sua Omo-Orísa Antonieta. E como Otun e Òsi-Dagan, respectivamente, Georgete e Didi. Outros oyè foram preenchidos. Eu era Kólabá, sucedendo Matilde. Além disso, Mãe Senhora confirmou muitos Ogá e Oba. A vaidade de minha mãe incentivava as Filhas a se arrumarem com esmero. E como a velha era exigente com coisas de Barracão! Não tinha esta de saia mal passada; anágua murcha... Eu (Teté, como carinhosamente era chamada por ela), Haydée e Moacir éramos os acompanhantes de Mãe Senhora à Ilha de Itaparica, para o Ilè Agboulá.”[6]
Conforme relato de Sinval da Costa Lima, Mãe Senhora “era uma mulher muito rigorosa com as coisas da seita, ela não abria mão de nada que não fosse determinado, ela não fazia nada sem "ir ao pé de Xangô", isto é sem que ele autorizasse e confirmasse. Ela era uma mulher assim, de maneira que todos a respeitavam e ela se dedicava muito.”[4]
Nídia Maria Santos, filha mais velha de mestre Didi e neta de Mãe Senhora, lembra que “durante as festas do Axé, quando era a festa de Oxum, ela ficava 16 dias na casa de Oxum. As pessoas mais chegadas ficavam também lá com ela: eu, Ditinha, Filhazinha, Vanjur. Tinha ano que ela mandava cozinhar na casa de Xangô e tinha ano que ela mandava construir uma palhoça, ao lado da casa de Oxum, e aí cozinhava, lavava, fazia toda a obrigação lá em baixo. Tinha época que ela ficava mais nervosa e mandava todo mundo pra casa de Xangô e aí ficava cobrando: "Meu almoço, cadê essas meninas?" Ela almoçava às 10 horas da manhã. Quando passava desse horário, ela dizia: "Querem me matar de fome?". Quando era festa de Oxalá, ela também ficava hospedada 16 dias na casa de Oxalá. Depois ela retornava para casa de Xangô e lá ela ficava para outras festas. Na festa de Oxum, ela fazia o bori dela também na casa de Oxum. O presente de Iemanjá que ela fazia era muito simples. Ia ela, Georgete, Didi Tololá, Ditinha, ela não deixava ir muita gente não.”[4]
Segundo Moacyr Barreto Nobre, a festa de Oxum de Mãe Senhora “era uma maravilha. Primeiro, ela se mudava por 16 dias para a casa de Oxum. Todas as tardes ela subia para acender Xangô e depois descia, e todas as quartas-feiras ela subia e passava o dia com Xangô, à tardinha ela descia. Eram 16 dias de obrigação para Oxum. Ela vibrava e dançava muito. A Oxum dela era leve, linda. Eu não sei o que ela dançava mais bonito, se era a cantiga corrida, se era ijexá. Não sei, é até suspeito eu dizer.”[4]
Carmen Oliveira da Silva, Mãe Carmen, filha de Mãe Menininha do Gantois e ialorixá do Ilê Iyá Omin Axé Iyá Massê (ou terreiro do Gantois), conta que Mãe Senhora “era bem meiguinha, aquele jeito de Oxum, aquele carinho, mas na hora necessária tinha pulso forte. Ela e minha mãe eram do mesmo estilo, ambas filhas de Oxum. Ela era baixinha, meio forte, aquele jeito mãezona, um jeito gostoso de baiana, que até a gente não vê tanto mais - assim meio gordinha, meio redondinha, fofinha -, andar macio, pisando mais para um lado, aquele jeito manhoso de andar.” Mãe Carmen ainda conta que Mãe Menininha “e mãe Senhora se tratavam de irmãs. No Gantois, ela era tão respeitada quanto mamãe. Era tão nobre que as reverências que a gente fazia pra mamãe a gente faria pra ela, sempre e em qualquer lugar que estivesse. O Candomblé, de um modo geral, ganhou muito com mãe Senhora, porque mãe Senhora foi uma deusa, uma pessoa que dignificou o Candomblé, que se impôs; era imponente e meiga, sabia conduzir suas filhas e suas irmãs-de-santo com carinho e com respeito, e com autoridade. A passagem dela por aqui foi rápida, mas deixou uma marca muito forte. Então, todos os candomblés têm de agradecer a Deus, a Olorun, pela vinda de mãe Senhora à terra. Era uma pessoa muito digna, de muito caráter, vivia o Candomblé como uma coisa séria, nunca comercializou o Candomblé; ela serviu aos orixás com muito zelo, morreu na casa do candomblé. Dedicou toda a vida dela aos orixás, criou seus filhos e serviu aos orixás.”[4]
Nancy Carybé conta que Mãe Senhora “tinha uma coisa que me impressionava muito que era o de olhar para a pessoa e já saber das coisas que se passavam com ela, o que ia em sua cabeça. Ela dizia certas coisas que depois, quando consultava os búzios, confirmava tudo. Não só de santo, mas do que se passava com a gente. Eu admirava muito ela pelo instinto, porque você a consultava como se fosse para um psicanalista, ela tinha um instinto fantástico assim para lhe compreender e aconselhar; era uma coisa incrível, tudo que ela dizia e aconselhava e você seguia aquela orientação, dava certo.”[4] Nancy também lembra que Carybé “foi sumamente fiel a este candomblé. Claro que ele frequentava outras casas também, mas o que ele gostava mesmo era o Opô Afonjá. Era sua segunda casa. E ele acreditava em todos os preceitos do candomblé e seguia. Ele não foi iniciado. Ele foi suspendido obá, como eles dizem lá. Senhora o nomeou Obá de Xangô. Foi uma cerimônia bonita que estavam, também, Caymmi, Jorge, e Tibúrcio Barreiros. Eles eram quatro. Carybé foi fiel até o fim. Ele acabou morrendo no lugar onde ele gostava, no dia de Oxóssi, quando foi participar da reunião que havia cada primeira quarta-feira do mês. Carybé tinha muito amor por aquele candomblé e lutou muito para conseguir da Prefeitura que a sua propriedade passasse para o nome do terreiro e pela escola que funciona lá, também.”[4]
Emanoel Araújo confirma em depoimento que Carybé também foi muito fiel a Mãe Senhora e ao Afonjá:“Foi assim com muitos de nós, mas não com Carybé. Este foi a pessoa que foi até o final. Mesmo com Dona Ondina ele não saiu. Foi a pessoa mais fiel que eu conheci até hoje no Opô Afonjá. Ele acreditava, era um crente, e ele estava ali, presente. Contribuía, fazia as coisas, estava sempre envolvido com aquilo tudo de uma maneira extraordinária. Lembro-me que, da última vez que vi Carybé, ele estava regando as plantas da casa de Xangô ... Acho que ninguém na Bahia - nenhum preto, nenhum filho-de-santo, ninguém - foi tão extraordinariamente ligado àquilo tudo como foi Carybé...”[4]
Nídia Maria Santos ainda recorda que Mãe Senhora “não andava normalmente com roupas de obrigação e contas. Essas roupas ela só usava no Axé. Ela não dava entrevista, não gostava muito de repórter. Só quem conseguia entrevistá-la era Jorge AmadoAntônio OlintoCarybéCamafeu de Oxóssi, que eram muito amigos dela.”[4]
Segundo o antropólogo Vivaldo da Costa Lima, Mãe Senhora iniciou cerca de oitenta pessoas, sendo que apenas oito eram homens.[5]. Na época de Mãe Senhora, nas casas tradicionais, evitava-se iniciar muitos homens. Segundo Mãe Stella, Mãe Senhora “iniciou inúmeros Olórisa e completou muitas "Obrigações" de Irmãos-de-Santo. A última Filha-de-Santo iniciada por Mãe Senhora foi Viví de Sàngó, Oba Tawo, que foi Iyálorisa na cidade do Rio de Janeiro.”[6].
3. Últimos Dias
No final de 1967, Mãe Agripina, Obá Deyi, faleceu. No São Gonçalo do Retiro, Mãe Senhora se ocupava do axexê da irmã-de-santo, filha de Xangô Aganju, durante sete dias. Na quinta-feira 19 de Janeiro, Luiz Domingos, Obá Otun-Téla do Ilê Axé Opô Afonjá, visitou Mãe Senhora no terreiro: - Olhe, meu escurinho, no sábado eu quero comer peixe trazido por você. Na sexta-feira, dia 20, enquanto fazia as obrigações, ela passou mal, deixando os filhos preocupados. No sábado, manhã do dia 21 de Janeiro, Luiz mandou as tainhas bem frescas, que preparavam para ela no almoço. À tarde, Jorge Amado, Obá Àrólu do Ilê Axé Opô Afonjá, apareceu, trazendo o médico Menandro Novais. A recomendação foi repouso:
- Repouso! Quem tem uma aflição, um punhal no peito, não consegue repousar. Ademais não posso descuidar das obrigações de Xangô – disse Mãe Senhora.
Mãe Senhora foi dormir e, na madrugada de domingo, 22 de Janeiro, faleceu.
Mãe Stella conta que Mãe Senhora faleceu “...no Terreiro. Fui chamada em casa por loiô, motorista amigo, pela manhã. Na véspera, passara por uma situação difícil de explicar: um pressentimento de perda, carência. Em plena festa de caruru, em família, no bairro de Nazaré, tive uma incontrolável crise de choro, com uma sensação de peito apertado. Vi loiô, cedo, na porta de casa, e tive um sentimento de certeza da morte de minha Mãe Senhora. O homem foi avisando de que minha mãe estava doente, muito doente e blá, blá, blá... Muito tenso, chegava a estar lustroso. Vítima de um súbito derrame cerebral partia para o Òrun uma grande dama do Candomblé da Bahia.”[6]
Jorge Amado descreve como recebeu a notícia e todos os acontecimentos:
Na madrugada o telefone me desperta, a voz em lágrimas de Stela de Oxóssi, minha irmã-de-santo, quase não pode falar:
- Meu irmão, nossa mãe morreu...
O enterro da iyalorixá saiu da Igreja de Nossa Senhora dos Negros, no Largo do Pelourinho, praça ilustre e sofrida, chão de pedras regadas pelo sangue dos escravos ali sujeitos ao tronco e ao pelourinho. O corpo da mãe-de-santo ficou exposto na tarde de um domingo de sol e de tristeza. A notícia ia sendo propagada de boca em boca, pois a morte sucedera após os jornais. O impacto retirava gente das praias, das diversões, do descanso dominical. De todas as encruzilhadas surgiam pessoas atônitas e apressadas; no átrio da igreja toda azul se misturavam homens e mulheres das mais diversas condições sociais no mesmo espanto doloroso.
A notícia ia devorando o domingo da cidade, a calma e a trêfega alegria. Nas ondas do rádio, brutal comunicado substituía a música habitual: "Faleceu dona Maria Bibiana do Espírito Santo, mãe Senhora, mãe-de-santo do Axé Opô Afonjá, a mais famosa da Bahia". Para muitos parecia impossível acreditar na notícia. Tão forte ainda, aparentemente tão sadia, com sua presença, sua força de comando, sua intimidade mágica com os orixás, ainda na véspera Senhora cantara para Xangô e dirigia as obrigações do candomblé.
No átrio da igreja, amigos trocam cumprimentos e interjeições de incredulidade. Surgem hipóteses:
- Só se foi ebó... Feitiço, coisa-feita...
Uma pessoa do axé, grave e informada, esclarece:
- Foi doença de médico... Xangô já falou e disse...
Lágrimas em muitos olhos, filhas-de-santo desamparadas, os órfãos de mãe Senhora contam-se às dezenas, sua morte atinge a cidade inteira. Pela ladeira, o tráfego aumenta a cada instante, sobe e desce gente em busca da igreja.
Nessa mesma Igreja do Rosário dos Negros foi velado o corpo de mãe Aninha, fundadora do Axé do Opô Afonjá, mãe-de-santo de Senhora. Senhora fez santo aos nove anos de idade e foi Aninha quem lhe raspou a cabeça e a consagrou a Oxum. Quando Aninha morreu, em 1938, deixara Senhora preparada para sucedê-la na direção do grande candomblé. Mas outras filhas-de-santo também desejavam o posto e uma guerra-de-santo se desencadeou durante anos e anos até que a confirmação de Senhora fosse assunto pacífico e que sua personalidade se impusesse numa presença respeitada por todos. Jamais uma iyalorixá foi tão poderosa e reinou com poder tão absoluto no mundo complexo e mágico do candomblé da Bahia quanto mãe Senhora. Altas honrarias lhe foram concedidas, e seu poder atingia distâncias e alturas de espantar. Na fímbria da cidade da Bahia, ela se levantava sobre a vida e a morte, sobre a alegria e a tristeza, sobre o ódio e o amor.
Sua sucessão trará outra guerra-de-santo? Quem vai tomar o posto no trono de mistérios, quem a sucederá na guarda do segredo? Os cochichos começam no átrio da igreja. Lá dentro o corpo de iyalorixá recolhe lágrimas e pranto, palavras de saudade e de inconformado desespero. De quando em vez um soluço se eleva. Os altares estão povoados de orixás e as águas das fontes e dos rios de Oxum rolam pela praça, descem as ladeiras, precipitam-se no Pelourinho.
- Quem irá para o seu lugar? Quem?
- Quem vai dizer é Xangô, quando o jogo for feito...
Mãe Senhora morreu de manhãzinha, na véspera cumprira obrigação de santo até tarde, noite adentro. A morte a alcançou na hora do primeiro sol e seu corpo ocupou, imenso, a casa de Oxalá. A notícia desceu para a cidade: obás, ogãs, filhos e filhas-de-santo dirigiram-se para os caminhos de São Gonçalo, onde se ergue o terreiro. A cidade foi tomada de surpresa e comoção, um impacto violento. Na vida dessa cidade da Bahia, que não se parece com nenhuma outra, a iyalorixá Senhora era uma figura das mais importantes, guardiã de tradições e de rituais que resistiram a todas as perseguições, que superaram a desgraça da escravidão, que trouxeram os bens da dança e do canto até os dias de hoje. No complexo cultural baiano (e brasileiro, pois a Bahia é a matriz inicial e fundamental), o povo tem o primeiro lugar, o papel definitivo.
Quem presidiu as obrigações do axexê, das cerimônias fúnebres, foi outra famosa mãe-de-santo: a iyalorixá Menininha do Gantois, irmã-de-santo da falecida e sua grande amiga. Veio de seu terreiro do Gantois, de onde quase nunca sai, para as pesadas tarefas de egum. Nenhuma outra mãe-de-santo poderia fazê-lo devido à qualidade da falecida e à sua importância. Numa sutil hierarquia que não é imposta por nenhum decreto, Senhora está praticamente acima das demais, só Menininha era sua igual no conhecimento e na experiência.
Das três grandes iyalorixás dos últimos tempos, agora resta apenas mãe Menininha do Gantois. A primeira a falecer foi tia Massi, do Engenho Velho, veneranda figura centenária. Cumprira os cento e três anos quando morreu. Dançou para seus orixás até os últimos dias. Agora, numa cerimônia de acesso permitido apenas a alguns iniciados, Menininha cumpre as primeiras obrigações do axexê de Senhora, sua irmã-de-santo, antes que o corpo seja levado para a igreja católica. Mais uma vez, se interpenetram cultos e rituais, de culturas, de religiões, de cores, nossa originalidade. Importante mãe-de-santo, Senhora era igualmente importante membro de confrarias católicas.
Da igreja superlotada sai o enterro às cinco horas da tarde. O acompanhamento é grande e grandioso: gente das seitas afro-brasileiras, muitos intelectuais amigos de Senhora, alguns com postos importantes no axé, como o tapeceiro Genaro de Carvalho, a face cortada de tristeza. O poeta Hélio Simões vai a seu lado.
O carro funerário, os automóveis e os ônibus dirigem-se ao Cemitério das Quintas, onde, em terras de sua confraria católica, Senhora tem direito a jazigo perpétuo.
O cemitério fica no alto de uma colina, mas o carro funerário, os automóveis e os ônibus não sobem a ladeira, como fazem habitualmente, em qualquer outro enterro. Desta vez, a morta e os acompanhantes desembarcam ao sopé da ladeira. Obás e ogãs, alguns dobrados ao peso da idade, velhos tios de cansada história, tomam do caixão e três vezes o suspendem, três vezes o baixam no início do ritual do enterro nagô.
A voz do pai-de-santo Nezinho se eleva sobre a rua no canto fúnebre em língua ioruba. O enterro segue: três passos em frente, dois atrás, passos de dança ao som do cântico sagrado, o caixão suspenso nos ombros dos obás. As janelas estão cheias, vem gente correndo para ver o espetáculo único. Enterro igual a esse não existe. Mãe Senhora preside sua última festa - transportada por seus obás. A dança enche a rua, dançam todos ao som das cantigas de despedida. Os obás e os ogãs, de costas, entram com o caixão no cemitério.
Ao lado do jazigo, em meio às flores e ao pranto, as derradeiras cantigas, quase como uma frase de amor, uma conversa de mãe e filhos, canto mais terno e doloroso. "Somos os últimos a ver essas coisas", diz o poeta Hélio Simões. Os atabaques estão silenciosos, todos se vestem de branco, que é a cor de luto, morreu a iyalorixá mais famosa da Bahia. Era uma pessoa sábia, sábia da sabedoria de uma vida inteira, ilustre da grandeza do povo. Foi enterrada no ritmo do canto, em passo de dança, bens do povo que ela ajudou a defender e a conservar.”[4]
Mãe Carmen lembra que “era por volta de umas sete horas da manhã, ou até mais cedo, Jorge Amado bateu na porta, lá no Gantois, e disse que estava ali porque mãe Senhora tinha morrido. Foi um corre-corre danado dentro de casa, ninguém sabia mais o que fazer, o que pegar; junta roupa, todo mundo chorando, um desassossego, realmente, que causou a notícia, e a Bahia toda, também, recebeu assim. E mamãe foi lá pra o Opô Afonjá, e de lá ela só saiu depois da entrega dos sete dias. Passou a semana toda lá. Até eu fui dançar o axexê de mãe Senhora, eu que nunca saí par dançar em outra casa. Mamãe não nos impôs, mas a gente sabia que ela queria que a gente fosse, nem que fosse uma vez, dançar para ela. Era um testemunho do respeito, da amizade, da consideração com ela, e o merecimento também dela. Eu tenho certeza que naquela constelação de mães-de-santo que está lá de junto de Olorun, mãe Senhora está lá e minha mãe também. Eram mulheres dignas, que souberam cumprir a missão que Olorun lhes deu. O nome delas ficou na terra como exemplo de respeito, e não é só hoje não. No tempo delas já era assim, já eram respeitadas na terra. Não tinha brincadeiras com o nome delas não. Elas eram respeitadas e sem imposição.”[4]
Nancy Carybé conta que quando Mãe Senhora morreu “... Carybé e eu estávamos no México, em casa de Walter Wei, que era cônsul ou adido de imprensa, era um intelectual. Havia um almoço em sua casa e lá estava, também, García Marquez, que ainda não era muito conhecido. Num certo momento, Walter Wei, comentou que estava com uma revista Manchete, que falava da morte de uma mãe-de-santo importante da Bahia. Eu disse: Mas, quem foi? Ele trouxe a revista e nós levamos o maior susto com a reportagem que trazia toda a história de mãe Senhora. Nós tomamos um choque tremendo. García Marquez quis saber porque nós ficáramos tão chocados. Nós explicamos que a conhecíamos e que frequentávamos o candomblé. Ele ficou curioso e intrigado pelo fato de termos este envolvimento com o candomblé e, quando ele esteve aqui, nós o levamos a um candomblé. Ao voltarmos a Bahia, participamos, então, da cerimônia de um ano da morte de Senhora." [4]
Mestre Didi descreve o ritual do Axexê de Mãe Senhora: “O ritual da nação de Ketu começa com o Padê, cantado para dar aviso e satisfação aos ancestrais do culto. Em seguida, todos cantam e dançam, em homenagem à falecida, ao redor de uma cuia colocada no centro do barracão. Para encerrar, seus descendentes formam uma roda em volta da cuia - representação do morto - numa dança ritual guiada pelas sacerdotisas. Na sexta noite foi despachado o carrego, arrumado pelos ojés do culto Egungun, do Ilê Agboulá de Ponta de Areia, Itaparica, de onde Mãe Senhora era Iyá-Ebé, o posto mais alto já alcançado por uma mulher dentro daquele culto. No sétimo dia, às 4 horas da tarde, foram encerradas todas as obrigações, com os agradecimentos de Ondina Valéria Pimentel, Iyakêkêrê do Axé Opô Afonjá e do Conselho Religioso, à Tia Menininha e a todas as pessoas que participaram das obrigações do funeral de Mãe Senhora. Só Mestre Didi, Asipá, Assobá n'ilê Axé Opô Afonjá, Alapini n'ilê Egun, não participou dos funerais de Mãe Senhora. No dia 22 de janeiro de 1967, quase na mesma hora em que Mãe Senhora entregava sua alma a Deus na Bahia, seu filho Didi reencontrava os descendentes de sua família, no reinado de Ketu, em Daomé, atual República de Benin, na África.”[3]
Sival da Costa Lima descreve que quando Mãe Senhora faleceu “... Didi não estava aqui, ele estava na África com Verger, então, quando eu tomei conhecimento, tomei as providências. Didi me telefonou e pediu que eu tomasse conta de tudo. Reuni os rapazes, os irmãos, e providenciamos o enterro dela. Senhora faleceu e foi uma tristeza geral.”[4]

Realizações[editar | editar código-fonte]

Segue abaixo uma introdução das principais realizações de Mãe Senhora:
1. Ampliação do Corpo de Obás de Xangô
Ao assumir o posto de ialorixá, Mãe Senhora ampliou o corpo dos Obás de Xangô, criando os sub-cargos de Otun e Osi. Então cada Obá passou a ter seus auxiliares, um Otun e um Osi. A formação do corpo dos Obás passou então de 12 para 36 componentes.
2. Mãe Preta do Brasil pela Federação umbandista do Rio de Janeiro
Segundo Muniz Sodré, Obá Aresá do Ilê Axé Opô Afonjá, em Maio de 1965, quando Mãe Senhora “chegou ao Rio de Janeiro para receber o título de "mãe preta" do ano, eu acabava de chegar da Bahia, para mourejar na imprensa carioca. A serviço da revista Fatos & Fotos, acompanhei-a até o Maracanã, que naquela época só enchia em dias de decisão de campeonato de futebol. Pois bem, na noite de 13 de maio - data de comemoração da Lei Áurea - as cadeiras e arquibancadas do estádio ficaram superlotadas: o povo-de-santo queria ver de perto a Oxum Muiwà, Mãe Senhora. É interessante rememorar o evento, por suspeitarmos de que hoje, na virada do milênio, talvez já não fosse possível realizar algo semelhante nas mesmas proporções. Pelo menos, no estádio do Maracanã, açambarcado pelos evangélicos - cujos representantes se espalham por câmaras municipais, estaduais e federais. De certo modo, os anos sessenta no Brasil, apesar do clima militar, eram bem mais receptivos para com as diferenças reais do que a atualidade. Havia divergências (por parte dos umbandistas, conforme se depreende do texto publicado na revista), mas a tolerância ainda reinava. Interessante também é o tratamento dado ao acontecimento pela revista. Lembro-me de ter entregado um texto de várias páginas, que terminaram reduzidas a oito linhas pelo editor. E mesmo assim não faltaram os clichês do imaginário oficial no que se refere aos cultos afro-brasileiros. O ato simbólico-religioso foi co notado como "espetáculo folclórico", as imagens sobrepuseram-se à explicação do significado cultural do evento ao público-leitor.”[4]
3. Visita de Jean Paul Sartre e Simone de Beauvoir
Jorge Amado e Zélia Gattai apresentaram Jean Paul Sartre e Simone de Beauvoir a Mãe Senhora. No livro “Casa do Rio Vermelho”, Zélia conta que “levávamos muitos visitantes, amigos nossos que vinham à Bahia, alguns muito ilustres, para conhecê-la. A gente avisava antes: Vamos levar uma pessoa muito importante, formidável. E ela dizia: "Hum, mais importante do que tu não tem", ela dizia para Jorge. Numa destas vezes levamos Sartre e Simone de Beauvoir. Ela dizia: - Como é o nome dele? Jorge dizia Jean Paul Sartre. E ela: - É muito complicado. E Jorge explicou que Paul é Paulo... Ela, então, sentenciou: - Então pronto, Sr. Paulo. Ai, era seu Paulo para cá, seu Paulo para lá, mas sem dar muita bola, sabe? Ela não ficava tímida diante de uma personalidade tão grande. E dona Simone? Para dona Simone e seu Paulo ela jogou os búzios e deu que D. Simone tinha a mesma Oxum que eu. E ela disse, concluindo: - Explique isso a ela que daqui em diante ela vai ter que lhe obedecer, tu vai ser a mãe pequena dela, o que ela fizer tem que lhe pedir conselhos. Eles ficaram muito impressionados com ela. Sempre que a gente se encontrava, eles perguntavam por ela.”[7]
Nancy Carybé complementa que “Quando Jorge e Zélia levaram Sartre para conhecê-la, ela nos recebeu muito bem. O que não se devia era levar sem anunciar, ela não gostava. Sartre ficou muito impressionado com ela e comentou, logo que a viu: “Esta é uma rainha da África. Ela é mesmo uma rainha!”[4]
4. Amizade com Edison Carneiro
Segundo Cid Teixeira, historiador, conta que “Havia aqui na Bahia um homem, chamado Professor Souza Carneiro, pai de Edison Carneiro, pai de Nelson Carneiro, um ilustre professor da Escola Politécnica e ligadíssimo à Casa de São Gonçalo. Os filhos dele, mais especificamente um dos filhos, estava vinculado à esquerda. Não somente Edison Carneiro, como Jorge AmadoMilton Sales de BritoAydano Couto FerrazJoão Cordeiro e outros mais que já não me lembro agora, que estavam, jovens, abertos aos movimentos literários e culturais próprios da época e homens de esquerda. Quando desencadeou-se aqui na Bahia uma perseguição, um trabalho de repressão muito forte ao pensamento comunista ou cripto-comunista, não sei bem se eles todos tão ortodoxamente comunistas - em todo caso, gente nova de esquerda - Souza Carneiro, teve a competência e a liderança de evitar que baixasse sobre o filho e os amigos do filho, jovens tão politizados da época, o braço da repressão, o braço da punição. E estes jovens foram assim homiziados, não sei se a palavra cabe, lá na Roça de São Gonçalo. Isto significou uma integração - mesmo os mais empedernidos ateus, os mais divorciados de qualquer relação com o orun, ou com o sobrenatural de qualquer natureza, passaram a olhar aquilo com respeito humano, de religioso, e a aprofundar bem mais as suas informações a este respeito. Estes jovens foram acolhidos por D. Senhora e disso resultou um benefício recíproco - para eles que passaram a ver o mundo sob outras óticas e para o Candomblé de um modo geral e especificamente para o Axé do Opô Afonjá, um trânsito muito mais fluido, muito mais amigo com todos os segmentos da comunidade. E isto foi basicamente devido à forte personalidade de D. Senhora, que era, realmente, e não estou exagerando, uma personalidade majestática. Poucas pessoas já vi e conheci com tanta encarnação do poder e da liderança quanto ela.”[4]
5. Carta do Alafin de Oió, Nigéria – Iyanassô
Pierre Verger foi portador de uma carta escrita pelo Alafin de Oió para Mãe Senhora em 14 de Agosto de 1952, no qual ele dava a ela o título honorífico de “Iyanassô” . Pierre Verger explica que nesse momento Mãe Senhora torna-se espiritualmente a fundadora dessa família de terreiros de candomblé da nação Ketu, na Bahia, todos originários da Barroquinha