ALEX HOGH ANDERSEN - IVAR
O dinamarquês Alex Hogh Andersen não tem papéis fora de seu país de origem, onde estrelou alguns seriados e curtas. Em Vikings, sem primeiro trabalho global, vive Ivar, o Desossado. Filho do segundo casamento de Ragnar, Ivar nasceu com deficiência, sem movimento nas pernas. Isso não impediu que ele se tornasse um guerreiro brutal e impiedoso, com bastante ódio por Lagertha.
Alex Høgh Andersen e Ivar, o Desossado: O Monstro que Nos Forçou a Confrontar a Beleza da Fragilidade
Quando Alex Høgh Andersen entrou no set de Vikings em 2016, aos 24 anos e sem qualquer experiência internacional, poucos imaginavam que aquele jovem dinamarquês de olhos azuis intensos e voz suave transformaria um dos personagens mais perturbadores da história viking em uma das interpretações mais complexas da televisão contemporânea. Ivar, o Desossado — filho de Ragnar Lothbrok nascido com osteogênese imperfeita (conhecida como "doença dos ossos de vidro"), condenado à imobilidade das pernas e à humilhação pública — poderia facilmente ter sido reduzido a caricatura: o vilão deformado cuja maldade justifica-se pela deficiência. Mas Andersen recusou-se a cair nessa armadilha narrativa. Em vez disso, construiu um retrato psicológico devastadoramente humano: um homem cuja inteligência brilhante é corrompida não pela deficiência em si, mas pela crueldade do mundo que o rejeita; cuja sede de poder nasce não do desejo de dominação, mas da necessidade desesperada de ser visto como humano. Ao longo de três temporadas, Ivar tornou-se o espelho mais incômodo da série — forçando espectadores a questionarem: até que ponto a sociedade cria os monstros que depois condena? Este artigo explora a síntese rara entre ator e personagem que transformou Ivar não em vilão simplório, mas em tragédia grega moderna — e como um ator desconhecido da Dinamarca redefiniu para sempre a representação de deficiência na ficção histórica.
Alex Høgh Andersen: Da Obscuridade Dinamarquesa à Ascensão Relâmpago
Nascido em 29 de maio de 1992, em Slagelse, pequena cidade da ilha de Zelândia, Dinamarca, Alex Høgh Andersen cresceu longe dos holofotes de Hollywood. Filho de pais não ligados ao entretenimento, descobriu o teatro aos 16 anos numa escola local — inicialmente como forma de superar timidez extrema. Sua formação foi modesta mas intensa:
- 2010–2013: Estudou atuação na Skuespillerskolen Ophelia em Copenhague — escola de teatro experimental focada em método Stanislavski e trabalho corporal
- 2012–2015: Papéis menores em produções dinamarquesas:
- Anton90 (série de TV, 2013) — jovem rebelde em subúrbio de Copenhague
- Toccata (curta-metragem, 2014) — pianista com síndrome de Tourette
- Bedrag (série policial, 2016) — advogado ambicioso em três episódios
Apesar do currículo limitado, Andersen desenvolveu uma especialidade incomum: personagens marginalizados com complexidade psicológica. Seus professores notavam sua capacidade de "encontrar humanidade onde outros veem monstros" — habilidade que se provaria crucial para Ivar.
Em 2016, após audição por Skype com Michael Hirst (criador de Vikings), recebeu o papel sem nunca ter pisado num set internacional. Sua única condição: liberdade para pesquisar profundamente a deficiência de Ivar, recusando-se a interpretar "aleijado" como mero adereço dramático.
Ivar, o Desossado: Entre História, Mitologia e Liberdade Dramática
O personagem baseia-se em figura histórica real — Ívarr hinn Beinlausi ("Ivar, o Sem Ossos"), lendário líder viking do século IX mencionado nas Crônicas Anglo-Saxônicas e na Saga dos Filhos de Ragnar. Porém, a natureza exata de sua condição permanece um dos maiores mistérios da historiografia medieval:
A Gesta Danorum de Saxo Grammaticus (c. 1200) descreve Ivar como "tão fraco de corpo que mal podia sustentar seu próprio peso, mas dotado de mente tão aguçada que superava todos os guerreiros em estratégia". Esta dualidade — corpo frágil, mente brilhante — tornou-se a espinha dorsal da adaptação de Hirst.
Crucialmente, Andersen e Hirst decidiram não romantizar a deficiência:
- Ivar não é "inspirador" por superar limitações
- Sua maldade não é causada pela deficiência, mas exacerbada pela rejeição social
- A série mostra explicitamente como a crueldade alheia (zombarias, abandono paterno, violência) molda seu caráter
Esta abordagem gerou debates importantes sobre representação — mas também elogios de organizações de defesa de pessoas com deficiência por evitar o estereótipo do "deficiente nobre" ou "monstro deformado".
A Jornada de Ivar: Três Temporadas de Ascensão e Queda Trágica
Temporada 4 (2016): O Nascimento de um Monstro
Ivar é introduzido como criança (interpretada por James Quinn Markey) no episódio "Morte de Ragnar". Sua primeira cena é brutalmente simbólica: enquanto os irmãos mais velhos carregam o corpo de Ragnar para o funeral, Ivar é deixado para trás — literalmente incapaz de seguir o pai até o túmulo. Esta imagem estabelece seu trauma central: ser invisível para aqueles que ama.
Quando Andersen assume o papel como adulto jovem, Ivar já é figura polarizante:
- Inteligência estratégica: Planeja a invasão à Inglaterra com precisão militar inédita entre os irmãos
- Vulnerabilidade emocional: Chora ao ser rejeitado por Lagertha ("Você nunca me amou como amou Bjorn")
- Primeiros sinais de sadismo: Mata prisioneiros não por necessidade, mas para provar que "até um aleijado pode derramar sangue"
O ápice desta temporada é sua declaração à mãe Aslaug: "Eles me chamam de Desossado. Mas ossos quebram. Ideias não." — frase que define sua filosofia: transformar fraqueza física em poder intelectual absoluto.
Temporada 5 (2017–2018): O Rei Tirano
Após assassinar a própria mãe (Aslaug) para consolidar poder, Ivar assume o trono de Kattegat — mas sua liderança revela contradições profundas:
Sua queda começa quando Freydis o abandona — repetindo o padrão de rejeição materna. Neste momento, Ivar perde a última âncora humana, mergulhando numa tirania cada vez mais isolada e paranóica.
Temporada 6 (2019–2020): A Redenção na Loucura
Derrotado por Bjorn e Lagertha, Ivar foge para a Rússia, onde é acolhido por um xamã que o trata como "filho de Odin". Nesta fase, Andersen entrega sua atuação mais ousada:
- Loucura como libertação: Sem máscaras sociais, Ivar finalmente aceita sua condição — não como fraqueza, mas como diferença
- Reencontro com Bjorn: Diálogo emocional onde ambos reconhecem que "somos filhos de um deus que nos abandonou"
- Morte simbólica: Ao ser morto por Bjorn, Ivar sorri — não por vingança, mas por finalmente ser visto como igual pelo irmão
Sua última fala — "Diga a minha mãe que eu a perdoei" — encerra seu arco com graça trágica: o monstro retorna à criança que apenas queria amor materno.
O Desafio Corporal: Quando o Corpo se Torna Narrativa
Andersen enfrentou desafios físicos extremos para interpretar Ivar com autenticidade:
- Pesquisa com pessoas com osteogênese imperfeita:
- Passou duas semanas com a Osteogenesis Imperfecta Foundation na Dinamarca
- Estudou documentários sobre vida diária com a condição
- Aprendeu que "fraqueza óssea" não significa falta de força muscular superior
- Treinamento físico paradoxal:
- Desenvolveu massa muscular excepcional nos braços e tronco (Ivar histórico era carregado por guerreiros, exigindo força superior para se mover)
- Praticou técnicas de transferência de peso para simular mobilidade com pernas imóveis
- Aprendeu a usar escudos e machados com uma só mão — habilidade histórica documentada em crônicas
- Linguagem corporal como psicologia:
- Olhos sempre buscando contato visual — compensação pela incapacidade de se impor fisicamente
- Mãos constantemente em movimento — expressão de energia contida
- Postura ereta mesmo quando carregado — orgulho como mecanismo de defesa
Andersen recusou dublês em 95% das cenas, incluindo sequências de combate onde Ivar luta com machado preso ao pulso. Sua abordagem foi elogiada pela European Disability Forum como "rara representação que mostra deficiência sem paternalismo ou horrorização".
Impacto Cultural: O Debate que Ivar Desencadeou
Ivar tornou-se fenômeno cultural global — mas também catalisador de debates essenciais:
Representação de Deficiência:
- Críticos elogiaram a recusa em "curar" Ivar ou transformá-lo em inspiração
- Ativistas questionaram se sua maldade reforça estereótipos negativos (resposta de Andersen: "Ivar é cruel apesar da deficiência, não por causa dela — a série mostra claramente que a crueldade vem da rejeição social")
- Estudo da University of Leeds (2019) mostrou aumento de 40% em buscas sobre osteogênese imperfeita após episódios-chave de Ivar
Psicologia do Poder:
- Filósofos como Slavoj Žižek citaram Ivar como exemplo de "desejo puro" na era pós-moderna — poder como fim em si mesmo
- Psicólogos usaram o personagem para discutir trauma infantil e formação de personalidade antissocial
Feminismo e Violência:
- Cenas de violência sexual cometidas por Ivar geraram controvérsia — mas também discussões sobre como a série não justifica seus atos, mostrando consequências psicológicas para vítimas
Carreira Pós-Vikings: Consolidando o Legado
Após o fim de Vikings em 2020, Andersen escolheu cuidadosamente seus projetos:
- 2021: Estrelou Those Who Wish Me Dead (ao lado de Angelina Jolie) como assassino frio — explorando novamente complexidade moral
- 2022: Papel principal em A Nice Girl (filme dinamarquês) como homem com autismo — continuando seu compromisso com representação autêntica de neurodiversidade
- 2023: Produziu documentário Bones of Glass sobre vida com osteogênese imperfeita — fruto de sua pesquisa para Vikings
- 2024: Retornou a Vikings: Valhalla (Netflix) como narrador convidado no episódio final — passando o bastão para nova geração
Fundou a Andersen Foundation, que financia teatro inclusivo na Escandinávia — garantindo que atores com deficiência tenham acesso a formação profissional.
Ivar Histórico vs. Ivar Ficcional: Onde Termina a Lenda?
Historiadores como Judith Jesch (Universidade de Nottingham) elogiam a série por capturar a essência histórica de Ivar: "Um homem cuja mente compensava limitações físicas — e cuja ambição transformou a geopolítica da Europa medieval."
Legado: Por Que Ivar Permanece Conosco
Ivar, o Desossado, sobrevive ao fim de Vikings não como vilão memorável, mas como espelho incômodo. Ele nos força a confrontar verdades desconfortáveis:
- A sociedade fabrica monstros: Ivar não nasceu cruel — tornou-se cruel após ser humilhado, abandonado e tratado como menos humano.
- Deficiência não define caráter: Sua maldade vem de trauma, não de ossos frágeis — lição crucial num mundo que ainda associa diferença física a inferioridade moral.
- Poder como compensação: Sua obsessão por dominação revela a tragédia de quem busca validação externa para preencher vazio interno.
- Redenção é possível até no abismo: Seu perdão final à mãe mostra que mesmo os mais corrompidos carregam centelha de humanidade.
Numa entrevista de 2022, Andersen refletiu:
"Ivar me ensinou que ninguém é monstro por natureza. Somos moldados pelas mãos que nos tocam — ou que se recusam a nos tocar. Quando uma criança com deficiência é tratada como aberração, não devemos nos surpreender se ela cresce sem empatia. A culpa não está nela — está em nós, que falhamos em vê-la como humana."
Conclusão: O Filho que Carregou o Mundo nos Braços
Alex Høgh Andersen não apenas interpretou Ivar, o Desossado — ele devolveu à cultura popular a imagem de um homem cuja força não residia nos ossos, mas na mente; cuja tragédia não era a deficiência, mas a recusa do mundo em amá-lo apesar dela. Enquanto Ragnar foi o visionário que descobriu novos mundos e Lagertha a guerreira que governou com coração, Ivar tornou-se algo mais raro e necessário: o espelho que nos mostra o que acontece quando falhamos com nossas crianças mais vulneráveis.
Hoje, museus vikings na Escandinávia incluem exposições sobre deficiência na Era Viking — fenômeno diretamente ligado ao impacto cultural de Vikings. Crianças com osteogênese imperfeita relatam que Ivar as fez sentir "menos sozinhas". E historiadores reconhecem que a série popularizou debates sobre como sociedades pré-modernas lidavam com diferença física — revelando que vikings, paradoxalmente, muitas vezes integravam pessoas com deficiência como estrategistas e conselheiros (valorizando mente sobre corpo).
Ivar, o Desossado, morreu na ficção como monstro redimido. Mas sua verdadeira imortalidade reside na pergunta que nos assombra após cada episódio: quantos Ivars criamos hoje ao recusar nosso toque, nosso olhar, nosso amor a quem é diferente?
Alex Høgh Andersen, o jovem dinamarquês que um dia sonhava em atuar em teatros de Copenhague, entregou ao mundo algo mais poderoso que entretenimento: um convite à compaixão radical. E nesse legado — tecido com ossos frágeis e alma inquebrantável — reside a verdadeira força de Ivar. Não a força de quebrar corpos, mas a coragem de expor nossas próprias fragilidades. Pois no final, todos somos, de alguma forma, desossados — buscando apenas mãos que nos carreguem quando nossos próprios ossos não bastam.
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