O nome mais antigo do elenco, Katheryn Winnick está em Vikings desde o piloto. Antes de ser lançada pelo seriado em 2013, a atriz fazia pequenas participações em séries como CSI, Oz, Law & Order e mais. Seu papel mais duradouro até aquele ponto havia sido como Hannah Burley em sete episódios da sexta temporada de Bones. Depois do sucesso de Vikings, porém, Winnick conseguiu muitos outros papéis. Deu voz à uma personagem de Call of Duty: World War II, foi antagonista do filme Polar, estrelou a adaptação cinematográfica de A Torre Negra, e também estrelou Wu Assassins, da Netflix.
Na série Winnick vive Lagertha. Confiante, forte e carinhosa, foi apresentada como a esposa de Ragnar Lothbrok mas cresceu tanto quanto o marido. Ao longo de seis temporadas se consagrou como escudeira, líder política e também militar, que parte para o combate ao lado de seus soldados.
Katheryn Winnick e Lagertha: A Guerreira que Redefiniu o Heroísmo Feminino na Era Viking
Quando Katheryn Winnick entrou no set de filmagem do piloto de Vikings em 2012, vestindo armadura de couro e empunhando um machado com naturalidade quase ancestral, poucos imaginavam que aquela atriz canadense de 35 anos — até então conhecida por papéis secundários em Bones e Law & Order — estava prestes a criar um dos personagens femininos mais impactantes da televisão contemporânea. Lagertha Lothbrok, a escudeira que se tornou jarl, rainha e lenda viva, transcendeu a ficção para se tornar símbolo global de resiliência feminina, liderança autêntica e complexidade moral. Mais do que uma guerreira com habilidades de combate impressionantes (Winnick é faixa preta em taekwondo e coreografou muitas de suas próprias cenas de luta), Lagertha encarnou uma jornada rara na narrativa televisiva: a de uma mulher que não apenas sobreviveu em um mundo dominado por homens, mas que o transformou à sua imagem — sem jamais perder sua humanidade, vulnerabilidade ou capacidade de amar. Este artigo explora a síntese perfeita entre atriz e personagem que tornou Lagertha não apenas memorável, mas necessária.
Katheryn Winnick: Da Academia de Artes Marciais à Ascensão Silenciosa
Nascida em 21 de dezembro de 1977, em Etobicoke, Ontário, Canadá, Katheryn Winnick cresceu em um lar multicultural — filha de mãe canadense e pai ucraniano, falando ucraniano fluentemente desde a infância. Sua relação com artes marciais começou cedo: aos sete anos, começou a praticar taekwondo; aos treze, tornou-se instrutora certificada; aos vinte e um, fundou sua própria academia de artes marciais em Toronto, tornando-se uma das mais jovens proprietárias de dojo no Canadá.
Esta formação não foi mero detalhe curricular — moldou sua filosofia de vida e abordagem artística:
"Artes marciais me ensinaram disciplina, respeito e a importância do equilíbrio entre força e controle. Quando interpreto uma guerreira, não estou apenas fingindo lutar — estou aplicando décadas de treinamento para tornar cada movimento autêntico. A verdade está nos detalhes: como você segura uma arma, como respira antes do ataque, como se move após uma ferida."
Sua carreira artística começou modestamente no teatro canadense, seguida por papéis episódicos em séries norte-americanas:
- 2000–2006: Participações em CSI: Miami, Oz, Law & Order: Special Victims Unit
- 2008: Hannah Burley em sete episódios da sexta temporada de Bones — seu papel mais duradouro pré-Vikings
- 2010–2012: Apresentadora do programa de viagens Travelers no canal canadense CBC
Apesar do currículo sólido, Winnick permanecia relativamente desconhecida fora do circuito de televisão de procedimento policial. Tudo mudou quando Michael Hirst — roteirista e criador de Vikings — a escalou após uma audição que durou apenas dez minutos. Hirst recordaria posteriormente:
"Katheryn entrou na sala, pegou um machado de brinquedo que estava sobre a mesa e assumiu uma postura de combate tão natural que os produtores ficaram em silêncio. Ela não interpretou uma guerreira — ela era uma guerreira. Contratamos-na na hora."
Lagertha: Entre a Lenda Saxônica e a Reinvenção Televisiva
O personagem de Lagertha tem raízes em uma fonte medieval fascinante: a Gesta Danorum ("Feitos dos Daneses"), crônica em latim escrita pelo historiador dinamarquês Saxo Grammaticus por volta de 1200 d.C. Nela, Lagertha aparece como uma skjaldmær (virgem escudeira) que luta ao lado do lendário Ragnar Lodbrok contra o rei sueco Herraud:
"Lagertha, com cabelos soltos ao vento e escudo brilhante, avançou à frente das tropas como se fosse um homem, matando inimigos com fúria selvagem. Ragnar, impressionado, pediu-a em casamento — mas ela impôs uma condição: que ele a conquistasse em combate singular."
A descrição de Saxo é breve (apenas algumas páginas), mas carregada de simbolismo: uma mulher que recusa passividade, exige respeito através da força e mantém autonomia mesmo no casamento. Hirst expandiu esta semente histórica em uma narrativa de seis temporadas que explorou não apenas a guerreira, mas a mãe, amante, estrategista política e líder espiritual.
A Jornada de Lagertha: Seis Temporadas de Transformação
Temporadas 1–2 (2013–2014): A Escudeira e a Esposa
Lagertha é introduzida como esposa de Ragnar Lothbrok (Travis Fimmel), mãe de Gyda e Bjorn, e guerreira respeitada entre os guerreiros de Kattegat. Sua primeira grande prova chega na Batalha de Paris (temporada 2), onde lidera mulheres vikings em defesa do acampamento — demonstrando que sua força não se limita ao campo de batalha masculino.
O divórcio de Ragnar — motivado por seu caso com a princesa francesa Thora — marca seu primeiro grande teste emocional. Em vez de vitimização, Lagertha responde com dignidade e ambição: casa-se com o jarl Sigvard para ascender socialmente, mantendo sua independência mesmo dentro de uma união política.
Temporadas 3–4 (2015–2016): A Ascensão Política
Após a morte de Sigvard (assassinado por seu próprio filho bastardo), Lagertha assume o título de jarl de Hedeby — tornando-se uma das poucas mulheres governantes na Escandinávia viking retratada na série. Seu governo é marcado por:
- Reformas agrícolas que transformam Hedeby em centro comercial próspero
- Alianças estratégicas com Ragnar, mesmo após o divórcio
- Defesa implacável de seu povo contra invasores francos e rivais internos
O ápice desta fase é a Batalha do Lago Mälaren (temporada 4), onde Lagertha lidera pessoalmente suas tropas contra o exército de Kalf — seu traidor e amante temporário. Após matá-lo em combate singular, assume seu lugar como jarl legítima, consolidando seu status como líder nata.
Temporadas 5–6 (2017–2020): A Rainha e a Profetisa
Com a morte de Ragnar, Lagertha torna-se figura central na saga de seu filho Bjorn Ironside (Alexander Ludwig). Sua jornada ganha dimensões místicas:
- Visões proféticas que a conectam aos deuses nórdicos
- Retiro espiritual após ferimentos de guerra
- Retorno triunfal para salvar Kattegat do cerco de Ivar, o Desossado
Sua morte — nas mãos do próprio neto Hali, possuído por Ivar — é uma das cenas mais comoventes da série: Lagertha aceita o golpe fatal com serenidade, morrendo de joelhos mas de cabeça erguida, sussurrando "Skål" antes de expirar. A cena não glorifica a violência contra mulheres; ao contrário, transforma sua morte em ato de redenção coletiva — seu sangue fertiliza literalmente a terra de Kattegat, permitindo colheitas abundantes após anos de fome.
Autenticidade no Combate: Quando a Atriz se Torna Guerreira
Winnick recusou-se a usar dublês em mais de 90% de suas cenas de luta — decisão que exigiu preparo físico extremo e colaboração estreita com a equipe de coreografia:
- Treinamento diário: Duas horas de artes marciais, esgrima histórica e condicionamento antes de cada dia de filmagem
- Coreografia colaborativa: Winnick sugeriu movimentos baseados em taekwondo adaptados para armas vikings — como o uso de cotovelos e joelhadas em combate corpo a corpo
- Detalhes históricos: Estudou técnicas de combate feminino em culturas guerreiras (amazonas citas, guerreiras dahomeianas) para informar sua atuação
O resultado foi uma linguagem corporal única: Lagertha não luta como um homem tentando imitar força bruta, mas com eficiência letal — usando agilidade, precisão e inteligência tática para superar adversários fisicamente superiores. Esta abordagem influenciou toda a representação de mulheres guerreiras em produções subsequentes, de The Last Kingdom a The Northman.
Impacto Cultural: Mais que uma Personagem, um Movimento
Lagertha rapidamente transcendeu a ficção para se tornar ícone cultural global:
Em 2018, Winnick recebeu o Prêmio Humanitário da Academia Canadense de Cinema e Televisão por seu trabalho com refugiados ucranianos — ligando seu ativismo às raízes étnicas que informaram sua interpretação de Lagertha.
Carreira Pós-Vikings: Expandindo o Legado
Após o fim de Vikings em 2020, Winnick diversificou seu portfólio sem abandonar personagens complexas:
- 2018: Estrelou Wu Assassins (Netflix) como a detetive Christine "CG" Hong — primeira protagonista feminina asiática em série de ação da plataforma (Winnick interpretou personagem de ascendência coreana após extensa pesquisa cultural)
- 2017: Interpretou a caçadora de recompensas Aisha em The Dark Tower, adaptação cinematográfica da obra de Stephen King
- 2018: Vilã principal em Polar, filme da Netflix estrelado por Mads Mikkelsen
- 2022: Produziu e estrelou Vikings: Valhalla (Netflix) como consultora criativa, garantindo representação autêntica de personagens femininas
Paralelamente, fundou a Winnick Foundation, que financia educação STEM para meninas em comunidades rurais — extensão natural de seu compromisso com empoderamento feminino.
A Verdadeira Lagertha: Entre História e Mitologia
É crucial distinguir a personagem televisiva da figura histórica/lendária:
Historiadores como Judith Jesch (Universidade de Nottingham) observam que, embora mulheres guerreiras (shield-maidens) existissem na cultura nórdica, eram exceção, não regra. A genialidade de Hirst foi usar a lenda de Lagertha não como registro histórico, mas como metáfora para a agência feminina em sociedades patriarcais — tema universal que ressoa muito além da Era Viking.
Legado: Por Que Lagertha Permanece
Lagertha sobreviveu ao fim de Vikings não por ser a "melhor guerreira" ou a "mais forte" — mas por sua humanidade inabalável em meio à brutalidade. Enquanto personagens masculinas frequentemente eram definidos por conquistas territoriais ou vingança, Lagertha foi construída através de relações: mãe devotada, amante apaixonada, líder compassiva, amiga leal. Sua força nunca esteve dissociada de sua capacidade de sentir — e foi nessa integração que Winnick encontrou a chave para uma atuação que emocionou milhões.
Numa entrevista de despedida em 2020, Winnick refletiu:
"Lagertha me ensinou que força verdadeira não é ausência de medo, mas a coragem de seguir em frente apesar dele. Ela chorou quando perdeu filhos, duvidou de si mesma ao assumir o poder, amou homens que a traíram — e ainda assim nunca desistiu de seu povo. Isso é heroísmo real. Não perfeição — persistência."
Hoje, estátuas de Lagertha são erguidas em festivais vikings na Noruega e Islândia; crianças na Ucrânia (país natal de Winnick) recebem seu nome em homenagem à resistência; e pesquisadoras de gênero citam sua jornada em estudos sobre liderança feminina. Mais do que um personagem de TV, Lagertha tornou-se arquétipo moderno — prova de que narrativas sobre mulheres podem ser simultaneamente épicas, íntimas e transformadoras.
Katheryn Winnick não apenas interpretou uma guerreira — ela devolveu à cultura popular a imagem de uma mulher completa: capaz de empunhar um machado com destreza mortal e segurar a mão de um filho moribundo com ternura infinita. Numa era de heroínas frequentemente reduzidas a versões femininas de homens musculosos, Lagertha permanece como lembrete poderoso: a verdadeira força feminina não imita a masculina — redefine o que significa ser forte. E nesse legado — tecido com sangue, lágrimas, amor e ferro — reside sua imortalidade.
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