segunda-feira, 6 de abril de 2026

A Voz que Encantou Gerações: A Saga Inesquecível de Angela Maria, a Rainha do Rádio

 

Angela Maria
Angela Maria em 1959.
Informações gerais
Nome completoAbelim Maria da Cunha
Também conhecido(a) comoSapoti
Nascimento13 de maio de 1929
Macaé,[nota 1] RJ
Morte29 de setembro de 2018 (89 anos)
São PauloSP
Nacionalidadebrasileira
Gênero(s)
Lista
Instrumento(s)voz
Período em atividade1948–2018
Gravadora(s)
Lista
Afiliação(ões)
Lista
Página oficialSite Oficial

Angela Marianome artístico de Abelim Maria da Cunha (Macaé13 de maio de 1929[nota 1] – São Paulo29 de setembro de 2018), foi uma cantoracompositora e atriz brasileira, expoente da Era do Rádio, considerada dona de uma das melhores vozes da MPB e eleita a Rainha do Rádio em 1954.[1] Também é uma das cantoras brasileiras que mais venderam discos, cerca de 60 milhões de discos.[2] Angela Maria é conhecida pelos grandes críticos da música nacional e internacional como a maior voz do Brasil.[3][4]

Intérprete de canções como Babalu (Margarita Lecuona), Gente Humilde (Garoto/Chico Buarque/Vinicius de Moraes), Cinderela (Adelino Moreira) e Orgulho (Waldir Rocha/Nelson Wederkind), serviu como fonte de inspiração para artistas como Elis ReginaDjavanMilton NascimentoNey MatogrossoCesária Évora e Gal Costa, além de ter sido, comprovadamente pelo Ibope, por um longo período, a cantora mais popular do Brasil e conquistado a admiração de personalidades como Édith PiafGetúlio VargasJuscelino KubitschekAmália Rodrigues e Louis Armstrong.

Biografia e carreira

A cantora nasceu no ano de 1929, no interior fluminense, no então distrito de Conceição de Macabu,[5] em Macaé.[6][7][nota 1] De família muito humilde, sua mãe, Julita Maria da Cunha, era dona-de-casa e de família protestante, e seu pai, Albertino Coutinho da Cunha, pastor da igreja batista. Por conta disso, desde criança cantava no coral de uma igreja próxima da sua casa e com isso foi aprendendo a amar a música e o universo das melodias. Durante a infância e adolescência, devido a dificuldades financeiras, morou com a família nas cidades de NiteróiSão Gonçalo e Nova Iguaçu, fixando moradia na cidade do Rio de Janeiro, em busca de uma vida melhor, em cidade com mais recursos. Durante sua juventude trabalhou como empacotadora em uma fábrica de lâmpadas, e também como operária tecelã em uma fábrica de tecidos, mas sempre sonhou em ser cantora. Nesta época já compunha suas primeiras canções. A jovem almejava trabalhar nas rádios e alcançar o sucesso, mas seu pai era contra, por ser muito religioso, querendo que a filha se convertesse à religião evangélica e se casasse cedo. Angela não tinha o desejo de viver assim, e foi atrás do seu grande sonho, que era cantar. Inscreveu-se em diversos concursos de rádio, e passou na maioria deles. Contratada para cantar nas rádios, e também participar de novelas radiofônicas, não poderia perder esta grande oportunidade, e nem deixar seu pai saber. A solução foi inventar um curso de costura após o expediente de trabalho, mas na verdade ia cantar e atuar nas rádios, fazendo uma voz mais suave para que a família não a reconhecesse, passando a se apresentar como Angela Maria. Em 1947, aos dezenove anos, trabalhava de dia e à noite tentava por todos os meios conseguir vaga em algum programa de música. Ia de rádio em rádio fazer inscrições para sorteios, até que conseguiu ser premiada e se apresentou aos jurados em uma rádio, passando no teste. Com isso, começou a apresentar-se como cantora no Pescando Estrelas, um programa de calouros. Sua interpretação era considerada belíssima, sempre tirava nota máxima e ganhava todos os concursos. Todos a queriam para cantora e foi cantar no famoso Dancing Avenida e depois na rádio Mayrink Veiga. Em 1951, já com o aval da família, mesmo após inúmeras brigas, gravou o primeiro disco. Vieram assim os sucessos que a consagraram.[8]

Angela Maria com Carmen Miranda e Almirante em 1955. Arquivo Nacional.
Angela Maria, ao receber o prêmio de melhores de 1959. Arquivo Nacional.

Com grande sucesso no Brasil, passou a viajar o mundo com canções belíssimas em sua voz, considerada muito harmônica. Além de cantora, fez cursos de teatro e atuou em cinema, no longa-metragem Portugal... Minha Saudade em 1973, comédia produzida, dirigida e estrelada por Mazzaropi.

Angela Maria consagrou-se como uma das grandes intérpretes do gênero samba-canção (surgido na década de 1930), ao lado de MaysaNora Ney e Dolores Duran.

Gravou dezenas de sucessos como: Não Tenho VocêBabaluCinderelaMoça BonitaVá, mas VolteGarota SolitáriaFalhaste CoraçãoCanto ParaguaioA Noite e a DespedidaGente HumildeLábios de Mel, e outros.

Angela sempre contou em entrevistas ter sofrido na vida pessoal. Nunca conseguiu ter filhos, devido a uma endometriose, que foi diagnosticada ainda na adolescência, o que a deixou muito abalada. Durante sua vida, foi constantemente alvo da mídia, que sempre tocava no assunto maternidade, ou a imprensa inventava boatos sobre sua infertilidade, a deixando magoada, pois ela sempre quis ser mãe. Apesar de ter feito inúmeros tratamentos de fertilização, nunca conseguiu êxito. Foi casada seis vezes,[carece de fontes] mas apenas um casamento foi oficializado, a conturbada união com o empresário carioca Rodolfo Valentino Aleksitch, que terminou em 1965, depois de sete anos.[9] Na época em que se casou, Angela estava no auge da carreira e conseguira acumular um considerável patrimônio financeiro.[10] A cantora revelaria depois que por conta de tantos problemas pessoais e profissionais, desenvolveu depressão, e que já havia tentado o suicídio.[11] Contou que quase perdeu tudo, já que seu patrimônio era administrado por seus assessores, que não pagavam suas contas e a roubavam constantemente. Em 1967, desesperada com sua vida, sem recursos financeiros e brigada com a família, mudou-se sozinha para São Paulo, cidade onde viveu até o fim de sua vida, disposta a recomeçar do zero. Apesar de cantar em pequenos eventos, ainda continuava a ser vítima de assessores e ex-maridos desonestos. Apesar de ter ficado muito tempo sendo explorada, Angela voltou a brilhar no meio artístico e tinha como grandes amigos, Cauby Peixoto e Dalva de Oliveira. Conheceu Daniel D'Ângelo, com quem se casou e conviveu até a morte da cantora. Daniel foi quem mais a ajudou a superar a crise financeira e emocional.[11]

Em 1979, aos cinquenta anos, conheceu Daniel D'Ângelo de dezoito anos. Ele era noivo e apaixonaram-se, o que o fez separar-se da noiva e irem morar juntos, com quatro filhos adotivos: Angela Cristina, Lis Ângela, Rosângela e Alexandre. A união durou 39 anos, até a morte de Angela em 2018.[12] Depois de 33 anos juntos, decidiram oficializar a união. Em 13 de maio de 2012, no dia do seu aniversário de 83 anos, e ele com 51, casaram-se oficialmente, em uma cerimônia íntima realizada no interior do estado do Rio de Janeiro.[13]

Em 1994 foi homenageada pela escola de samba paulistana Rosas de Ouro, que com o enredo Sapoti, foi consagrada campeã do carnaval de São Paulo daquele ano.

Neste mesmo ano o cantor Ney Matogrosso gravou o disco Estava Escrito, em homenagem a Angela Maria. O álbum contém canções do repertório da cantora que ficaram consagradas na sua voz.

Em 1996, foi contratada pela gravadora Sony Music e lançou o CD Amigos, com a participação de vários artistas como Roberto CarlosGal CostaCaetano VelosoAlcioneFafá de Belém entre outros. O trabalho foi um sucesso, celebrado num espetáculo no Metropolitan, atual Claro Hall, no Rio de Janeiro, e um especial na Rede Globo. O disco vendeu mais de quinhentas mil cópias.

Foi uma fase muito feliz da carreira da cantora que, no ano seguinte, apresentou o álbum Pela Saudade que me Invade, com sucessos de Dalva de Oliveira; e um ano depois gravou com Agnaldo Timóteo, o CD Só Sucessos, também na lista dos cem álbuns nacionais mais vendidos. Após a saída da Sony, Angela voltou a gravar em 2003, desta vez pela Lua Discos, o Disco de Ouro, com um viés eclético, abrangendo compositores que vão de Djavan a Dolores Duran.

Em 2011, após 45 anos do surgimento da série Depoimentos para a Posteridade do Museu da Imagem e do Som do Rio de Janeiro, foi convidada, em 23 de agosto, para deixar registrada sua história. Na entrevista contou passagens importantes de sua carreira artística, afirmando ter gravado 114 discos e vendido cerca de 60 milhões de exemplares.

Nas eleições municipais de 2012, candidatou-se a vereadora da cidade de São Paulo pelo PTB, porém não se elegeu.[14]

Em 2015 foi lançada a sua biografia escrita pelo jornalista Rodrigo Faour, que contou com depoimentos preciosos da cantora. No mesmo ano, Angela e seu grande amigo Cauby Peixoto iniciaram uma turnê por várias capitais brasileiras, subindo aos palcos com a apresentação do musical "120 Anos de Música" em comemoração aos sessenta anos de suas carreiras. O último encontro dos dois artistas aconteceu na apresentação do dia 3 de maio de 2016, no Theatro Municipal do Rio de Janeiro.[15] Uma semana depois, Cauby seria internado para tratar de uma pneumonia, mas não resistiu e morreu no dia 15 de maio.

Morte

Angela Maria morreu na cidade de São Paulo, a apenas alguns meses de completar 90 anos, no dia 29 de setembro de 2018, aos 89 anos, em decorrência de uma infecção generalizada, que levou a uma parada cardíaca.[16] Estava internada havia 34 dias em um hospital da Zona Sul de São Paulo. O velório e o sepultamento foram programados para o dia seguinte, no Cemitério de Congonhas, também na Zona Sul paulistana. A TV Globo preparava uma minissérie contando a trajetória de Angela, cuja estreia estava prevista para 2019, mas não se concretizou.[17]

Discografia

AnoÁlbumGravadora
1954A Rainha CantaCopacabana
1955Sucessos de Ontem na Voz de HojeCopacabana
1956Angela Maria ApresentaCopacabana
1957Quando Os Maestros Se Encontram Com Angela MariaCopacabana
1958Quando os Astros se EncontramCopacabana
1958Para Você Ouvir e DançarCopacabana
1959Angela Maria Canta Sucessos de David NasserCopacabana
1959Angela Maria Apresenta Fernando César e Seus AmigosCopacabana
1960Quando a Noite VemContinental
1961Não Tenho VocêContinental
1962IncomparávelRCA Victor
1962Angela Maria Canta Para o MundoRCA Victor
1963Angela Maria Canta Para o Mundo - Vol. 2RCA Victor
1963Presença de Angela MariaRCA Victor
1964Angela a Maior MariaRCA Victor
1965BonecaCopacabana
1966Angela Maria Interpreta BolerosCopacabana
1966A Brasileiríssima Angela MariaCopacabana
1967O Samba Vem Lá de CimaCopacabana
1967Meu Amor é Uma CançãoCopacabana
1968A Grande MentiraCopacabana
1969Angela em Tempo JovemCopacabana
1970Angela de Todos os TemasCopacabana
1971AngelaCopacabana
1972AngelaCopacabana
1975AngelaCopacabana
1977Angela MariaCopacabana
1977Os Mais Famosos TangosCopacabana
1977Os Mais Famosos FadosCopacabana
1978Com Amor e CarinhoOdeon
1979Angela & Timóteo JuntosOdeon
1980Apenas MulherOdeon
1982Estrelas da CançãoOdeon
1982Angela & CaubyOdeon
1983Sempre AngelaOdeon
1985Angela MariaRGE
1987Angela MariaRGE
1996AmigosColumbia
1997Pela Saudade que me Invade (Um Tributo a Dalva de Oliveira)Columbia
1999Angela & Agnaldo Sucesso SempreSony
2003Disco de OuroLua Music
2011Eu VolteiLua Music
2013Angela e Cauby - ReencontroNova Estação
2015Angela à Vontade em Voz & ViolãoNova Estação
2017Angela Maria e as Canções de Roberto & ErasmoBiscoito Fino
AnoÁlbumGravadora
1992Angela & Cauby - Ao VivoRCA
2018Angela Maria & Nelson GonçalvesNova Estação
AnoÁlbumGravadora
1955Sucessos de Angela MariaCopacabana
1955Sucessos de Angela Maria Nº2Copacabana
1956Isto é Angela Maria!RCA Victor
1957Sucessos de Angela Maria Nº3Copacabana
1959Angela MariaCopacabana
1973Série ColagemCopacabana

Filmografia

Ver também

Notas e referências

Notas

  1.  A localidade onde Angela Maria nasceu é a atual cidade de Conceição de Macabu. No ano de seu nascimento (1929), a localidade era ainda um distrito do município de Macaé, pelo decreto estadual n.º 52, de 29 de abril de 1892. Pela lei estadual n.º 1438, de 15 de março de 1952, 23 anos depois do nascimento da cantora, o distrito foi emancipado, desmembrando-se de Macaé e elevado à categoria de município com a mesma denominação de Conceição de Macabu. Fonte: IBGE

Referências

  1. «Angela Maria»Museu da TV. Arquivado do original em 18 de maio de 2015
  2. Redação do Jornal (30 de setembro de 2018). «Morre, aos 89 anos, a cantora Angela Maria». O Globo. Consultado em 11 de janeiro de 2019
  3. Aguiar, Ronaldo Conde (2010). As divas do Rádio Nacional: as vozes eternas da era de ouro. Col: Série de luxo. Rio de Janeiro: Casa da Palavra. OCLC 695282294
  4. Elis Regina (5 de setembro de 1980). «"Angela Maria é para mim a maior cantora que o Brasil já teve e vai continuar tendo por muito tempo."». UOL. Consultado em 11 de janeiro de 2019
  5. «Conceição de Macabu é berço de muitos talentos musicais»www.conceicaodemacabu.rj.gov.br. Consultado em 1 de novembro de 2021
  6. «Biografia de Angela Maria recorda carreira e vida pessoal da cantora»Folha de S.Paulo. 17 de novembro de 2015. Consultado em 11 de março de 2020
  7. «Natural de Macaé, cantora Angela Maria é enterrada»Globoplay. 1 de outubro de 2018. Consultado em 11 de março de 2020
  8. Angela MariaMPB
  9. «Angela Maria tirou tudo de Rodolfo!» (PDF)Memória BNRevista do Rádio. 8 de maio de 1965. p. 6
  10. «Angela pode parar - Boatos mais uma vez envolvendo o nome da estrela» (PDF)Memória BNRevista do Rádio. 5 de dezembro de 1959. p. 10
  11.  «Cantora conta como superou fase difícil». Arquivado do original em 5 de outubro de 2013
  12. Morre em SP, aos 89 anos, a artista Angela Maria
  13. Após 33 anos de namoro, a cantora Angela Maria se casa aos 84 anos de idade
  14. «Angela Maria». UOL Eleições. Cópia arquivada em 12 de janeiro de 2019
  15. Cauby e Angela Maria comemoravam com shows os "120 anos de carreira"
  16. «Angela Maria, rainha do rádio, morre aos 89 anos». G1. 30 de setembro de 2018
  17. «Morre em São Paulo, aos 89 anos, a cantora Angela Maria». UOL Música. 30 de setembro de 2018
  18. Cinemateca BrasileiraRua Sem Sol] Cinemateca
  19. Cinemateca Brasileira, Carnaval Barra Limpa Cinema


A Voz que Encantou Gerações: A Saga Inesquecível de Angela Maria, a Rainha do Rádio

Angela Maria não foi apenas uma cantora; foi um fenômeno cultural, uma força da natureza vocal e um símbolo de resiliência na história da música brasileira. Nascida Abelim Maria da Cunha em 13 de maio de 1929, em Macaé, no interior do Rio de Janeiro, ela se tornou a figura mais emblemática da Era de Ouro do Rádio, conquistando o título de Rainha do Rádio em 1954 e vendendo cerca de 60 milhões de discos ao longo da vida. Reconhecida por críticos nacionais e internacionais como uma das maiores vozes do Brasil, sua arte transcendeu fronteiras, inspirou gerações de artistas e deixou uma marca indelével na MPB. Mais do que uma intérprete, Angela Maria foi uma sobrevivente que transformou dor em melodia e adversidade em legado.

Infância, Raízes e o Despertar Musical

Criada em família humilde e protestante, filha de Julita Maria da Cunha e do pastor batista Albertino Coutinho da Cunha, Angela descobriu a música ainda criança, cantando no coral da igreja local. As dificuldades financeiras levaram a família a se mudar por várias cidades fluminenses até se fixar no Rio de Janeiro, em busca de melhores condições. Na juventude, trabalhou como empacotadora em uma fábrica de lâmpadas e como operária têxtil, mas seu coração já pulsava nos palcos. Compunha em segredo e sonhava com os holofotes das rádios, apesar da forte oposição do pai, que desejava uma vida religiosa e convencional para a filha.
Determinada, Angela mentiu sobre frequentar um curso de costura para, na verdade, concorrer a programas de calouros. Usava um tom de voz mais suave para não ser reconhecida pela família e adotou o nome artístico Angela Maria. Em 1947, aos 18 anos, venceu concursos, estreou no programa Pescando Estrelas e logo se destacou por suas interpretações perfeitas, conquistando rapidamente espaços no Dancing Avenida e na Rádio Mayrink Veiga. O rádio, então o principal veículo de entretenimento do país, abriu as portas para uma estrela que nasceria sob os refletores.

A Era de Ouro do Rádio e a Consagração Nacional

A década de 1950 foi o auge da Era do Rádio, e Angela Maria nasceu para dominá-la. Em 1951, com o aval da família após longos conflitos, gravou seu primeiro disco, iniciando uma cadeia ininterrupta de sucessos. Sua voz, classificada como mezzo-soprano com timbre aveludado, projeção impecável e interpretação dramática, a tornou a cantora mais popular do país, conforme comprovado por pesquisas do Ibope. Em 1954, foi consagrada Rainha do Rádio, título máximo da época.
Artistas internacionais como Édith Piaf e Louis Armstrong, além de personalidades como Getúlio Vargas e Juscelino Kubitschek, admiravam seu talento. Sua presença no cenário cultural era ubíqua, transitando entre rádios, teatros e gravações com naturalidade deslumbrante. Ao lado de Carmen Miranda e Almirante, fotografada em momentos históricos que circulavam a imprensa, Angela se tornou sinônimo de elegância e excelência artística.

O Repertório Imortal e a Mestria do Samba-Canção

Angela Maria se consolidou como uma das maiores intérpretes do samba-canção, gênero que floresceu nos anos 1930 e que exigia sensibilidade, controle vocal e profundidade emocional. Ao lado de Maysa, Nora Ney e Dolores Duran, definiu uma era de romantismo e melancolia sofisticada. Seu repertório era vasto e atemporal: Babalu, Cinderela, Gente Humilde, Orgulho, Não Tenho Você, Moça Bonita, Vá, mas Volte, Falhaste Coração, Canto Paraguaio, A Noite e a Despedida e Lábios de Mel, entre dezenas de outras.
Cada canção era entregue com uma dramaticidade controlada, uma dicção impecável e uma capacidade única de transmitir a dor, o amor e a saudade. Críticos a chamavam de "a maior voz do Brasil", e sua influência é evidente em artistas como Elis Regina, Djavan, Milton Nascimento, Ney Matogrosso, Cesária Évora e Gal Costa. Sua atuação também se estendeu ao cinema, com participação no longa Portugal... Minha Saudade (1973), ao lado de Mazzaropi, demonstrando versatilidade além dos microfones.

Vida Pessoal, Superações e a Força da Resiliência

Por trás dos aplausos, Angela enfrentou batalhas silenciosas. Diagnosticada com endometriose na adolescência, lutou contra a infertilidade ao longo da vida, desejo que nunca se concretizou e que a marcou profundamente. A imprensa frequentemente explorava esse tema, causando-lhe sofrimento. Casou-se seis vezes, mas apenas uma união foi oficializada: a conturbada relação com o empresário Rodolfo Valentino Aleksitch, que durou sete anos e terminou em 1965.
No auge da carreira, acumulou patrimônio, mas foi vítima de má gestão e desfalques por assessores e ex-parceiros, o que a levou a uma grave crise financeira e emocional. Desenvolveu depressão e chegou a tentar o suicídio. Em 1967, isolada e sem recursos, mudou-se para São Paulo para recomeçar do zero. Foi nessa fase que conheceu Daniel D'Ângelo, em 1979. Ele, com 18 anos, era noivo de outra pessoa, mas o amor entre os dois foi avassalador. Daniel deixou tudo para viver com ela, adotaram quatro filhos (Angela Cristina, Lis Ângela, Rosângela e Alexandre) e formaram uma família sólida. Após 33 anos juntos, oficializaram a união em 13 de maio de 2012, no dia do aniversário de 83 anos dela. Daniel foi seu porto seguro, ajudando-a a superar crises e a reconstruir sua vida.

Renascimento Artístico, Homenagens e Últimos Palcos

Angela Maria nunca parou de cantar. Nos anos 1990, viveu um renascimento artístico. Em 1994, foi homenageada pela escola de samba paulistana Rosas de Ouro, que se sagrou campeã do carnaval com o enredo Sapoti, dedicado a ela. No mesmo ano, Ney Matogrosso lançou Estava Escrito, um álbum inteiro de tributo ao seu repertório.
Em 1996, assinou com a Sony Music e lançou Amigos, reunindo vozes como Roberto Carlos, Gal Costa, Caetano Veloso, Alcione e Fafá de Belém. O disco vendeu mais de 500 mil cópias e gerou um show histórico no Metropolitan e um especial na Rede Globo. Seguiram-se Pela Saudade que me Invade (1997), tributo a Dalva de Oliveira, e Só Sucessos (1998), com Agnaldo Timóteo, ambos entre os mais vendidos do país. Em 2003, pela Lua Discos, lançou Disco de Ouro, mostrando versatilidade ao interpretar de Djavan a Dolores Duran.
Em 2011, registrou sua história no Museu da Imagem e do Som do Rio, confirmando 114 discos gravados e 60 milhões de cópias vendidas. Nas eleições de 2012, candidatou-se a vereadora em São Paulo pelo PTB, mas não foi eleita. Em 2015, o jornalista Rodrigo Faour publicou sua biografia oficial, e ela iniciou a turnê 120 Anos de Música com seu grande amigo Cauby Peixoto, celebrando seis décadas de carreira. O último encontro dos dois foi no Theatro Municipal do Rio, em 3 de maio de 2016, uma semana antes do falecimento de Cauby.

Despedida e Legado Eterno

Angela Maria faleceu em 29 de setembro de 2018, aos 89 anos, em São Paulo, vítima de uma infecção generalizada que culminou em parada cardíaca. Estava internada há 34 dias na Zona Sul da cidade. Seu velório e sepultamento ocorreram no Cemitério de Congonhas. A TV Globo chegou a preparar uma minissérie sobre sua vida, prevista para 2019, mas o projeto não se concretizou.
Mesmo assim, seu legado permanece vivo. Angela Maria foi mais do que uma voz; foi um documento vivo da cultura brasileira, uma mulher que enfrentou o preconceito, a dor e a adversidade com elegância e força. Sua música continua a ecoar em rádios, playlists e corações, lembrando-nos de que a arte é o refúgio e a arma dos que se recusam a calar.
A trajetória de Angela Maria é um testemunho da resistência humana e do poder transformador da música. Da pobreza do interior fluminense aos palcos internacionais, das lágrimas silenciosas aos aplausos ensurdecedores, ela soube transformar cada experiência em nota, cada dor em melodia, cada superação em legado. Angela Maria não cantou apenas para o Brasil; cantou para a humanidade. E enquanto houver ouvidos atentos e corações sensíveis, a Rainha do Rádio continuará reinando, eterna, na história da música brasileira.
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