sexta-feira, 10 de abril de 2026

Cássia Eller: A Voz que Revolucionou o Rock Nacional e Conquistou o Coração do Brasil

 

Cássia Eller
Eller no Rock in Rio III em 2001
Nome completoCássia Rejane Eller
Nascimento
Morte
29 de dezembro de 2001 (39 anos)

Rio de Janeiro, RJ
Causa da morteinfarto causado por malformação congênita do coração
CônjugeMaria Eugênia Vieira Martins (c. 1987; m. 2001)
Filho(a)(s)Chico Chico
Ocupação
  • cantora
  • musicista
Período de atividade1981–2001
Carreira musical
Gênero(s)
Extensão vocalcontralto
Instrumento(s)
Gravadora(s)
Afiliações
Lista

Cássia Rejane Eller[1][2] (Rio de Janeiro10 de dezembro de 1962 – Rio de Janeiro, 29 de dezembro de 2001[3]) foi uma cantora e musicista brasileira. Foi uma das maiores representantes do rock brasileiro da década de 1990 e eleita a 18.ª maior voz e a 40.º maior artista da música brasileira pela revista Rolling Stone Brasil.[4] Lançou cinco álbuns de estúdio em vida: Cássia Eller (1990), O Marginal (1992), Cássia Eller (1994), Veneno AntiMonotonia (1997) e Com Você... Meu Mundo Ficaria Completo (1999). Seu sexto álbum de estúdio, Dez de Dezembro (2002) foi lançado postumamente. O álbum mais bem-sucedido de Cássia foi o Acústico MTV (2001), com mais de um milhão de cópias vendidas e um prêmio Grammy Latino de Melhor Álbum de Rock.

Cássia morreu aos 39 anos em 29 de dezembro de 2001, após um ataque cardíaco causado por uma malformação de seu coração.[5]

Biografia

Cássia Rejane Eller nasceu em 10 de dezembro de 1962, no Hospital do Exército de Campo Grande, no Rio de Janeiro.[6] Filha de Nanci Ribeiro, uma dona de casa, e Altair Eller, um sargento paraquedista do Exército descendente de alemães do land de Hesse.[6][7] Seu nome foi sugerido pela avó, devota de Santa Rita de Cássia.[1]

Aos 4 anos Cássia teve febre reumática e precisou tomar Benzetacil durante 22 anos.[8] Aos 6 anos mudou-se com a família para Belo Horizonte.[9] Aos 10 anos, foi para Santarém, no Pará.[9] Aos 12 anos, voltou para o Rio.[9]

O interesse pela música começou aos 14 anos, quando ganhou um violão de presente. Aprendeu a tocar violão e falar inglês com as músicas dos Beatles.[10] Aos 18 anos chegou a Brasília, para onde sua família se mudou.[9] Ali, cantou em coral, fez testes para musicais, trabalhou em duas óperas como corista, cantou frevobluesrock e também tocou surdo em um grupo de samba.[1] Trabalhou em vários bares (como o Bom Demais), cantando e tocando.[11]

Um ano mais tarde, aos 19 anos, querendo sua liberdade pessoal, foi para Belo Horizonte atrás de um lugar para morar e um emprego, onde conseguiu assim que chegou, e passou a trabalhar como servente de pedreiro. "Fiz massa e assentei tijolos", contava.[12] Lá, alugou um pequeno quarto, onde ficou vivendo. Na escola, não chegou a terminar o ensino médio, por causa dos shows que fazia, cada dia num turno diferente, não tinha horário para se dedicar ao estudos.[13] Quando voltou para Brasília, substituiu uma amiga como secretária no Ministério da Agricultura, mas foi demitida no terceiro dia e resolveu apenas cantar.[9] Cássia cantou em um grupo de forró e participou por dois anos do primeiro trio elétrico do Planalto, o Massa Real. Seu sonho era ser cantora de ópera.[9]

Cássia despontou no mundo artístico em 1981, ao participar de um espetáculo de Oswaldo Montenegro.[14]

Carreira

Caracterizada pela voz grave e pelo ecletismo musical, interpretou canções de grandes compositores do rock brasileiro, como CazuzaRenato Russo e Rita Lee, além de artistas da MPB como Marisa MonteCaetano Veloso e Chico Buarque, passando pelo pop de Nando Reisrap de Xis e o incomum de Arrigo Barnabé e Wally Salomão, até sambas de Riachão e rocks internacionais de Janis JoplinJimi HendrixBeatlesJohn Lennon e Nirvana.

As maiores influências musicais de Cássia eram John Lennon, Paul McCartney e Nina Simone.[10]

Teve uma trajetória musical bastante importante, embora curta, com algo em torno de dez álbuns próprios gravados no decorrer de doze anos de carreira. De fato, somente em 1989 sua carreira decolou. Ajudada pelo tio Anderson, que foi seu primeiro empresário, Cássia gravou uma fita demo com a canção "Por Enquanto", de Renato Russo.[9] Este mesmo tio levou a fita à PolyGram, o que resultou na contratação de Cássia pela gravadora. Sua primeira participação em disco foi em 1990, no LP de Wagner Tiso intitulado "Baobab".[carece de fontes]

O primeiro álbum, Cássia Eller, foi lançado pela PolyGram em 1990. Em 1992 ela lança o seu segundo álbum, O Marginal. Em 1994 foi lançado o terceiro álbum da cantora, intitulado Cássia Eller, que contava com o hit "Malandragem", uma canção inédita de Cazuza.[15] O quarto álbum da cantora, Veneno AntiMonotonia, foi lançado em 1997 como um tributo a Cazuza e conta com regravações de canções do cantor.[16]

Em 1992, Cássia dividiu os vocais com Edson Cordeiro na canção "A Rainha da Noite / I Can't Get No (Satisfaction)", junção da ópera Ária da Rainha da Noite de Mozart com a canção da banda Rolling Stones. A canção foi incluída no álbum auto-intitulado de Edson Cordeiro, lançado em 1992.[17]

Por influência do filho, Chicão, que por volta dos 4 anos de idade disse que a mãe gritava demais e que preferia Marisa Monte, Cássia passou a cantar de uma maneira mais calma.[18][19] Foi então que Cássia lançou o álbum Com Você... Meu Mundo Ficaria Completo em 1999, produzido por Nando Reis. Deste álbum saíram os hits "O Segundo Sol" e "Palavras ao Vento".[18]

A mãe de Cássia, Nanci Ribeiro, cantou junto com a filha na faixa "Pedra Gigante" do álbum Com Você... Meu Mundo Ficaria Completo. "Ela era cantora antes de casar com meu pai. Foi quem me ensinou tudo, cantava Dolores DuranMaysa. Fiquei emocionada, e ela, super nervosa. Não sabia nem pôr o fone, mas gravou de primeira", disse Cássia sobre a mãe.[20]

Eller durante a gravação do álbum ao viv Acústico MTV (em 2001).

Em 13 de janeiro de 2001, Cássia se apresentou no Palco Mundo do festival Rock in Rio para um público de cerca de 200 mil pessoas.[21] Cássia atendeu um pedido do filho Chicão para que ela incluísse a canção "Smells Like Teen Spirit" do Nirvana em seu repertório no festival.[22] Chicão tocou percussão na música e ganhou seu primeiro cachê: 20 fl dados pela mãe.[23] Dave Grohl, ex-baterista do Nirvana e vocalista do Foo Fighters elogiou a versão de Cássia.[24] Na mesma noite, Cássia subiu ao palco durante o show do Foo Fighters e deu um abraço em Dave Grohl, que estava comemorando seu aniversário de 32 anos.[25][26]

Em dezembro de 2002 foi lançado o álbum Dez de Dezembro, primeiro álbum póstumo de Cássia, que incluía faixas inéditas como "No Recreio" e "All Star", sendo a última sobre a amizade de Cássia com Nando Reis.[27][28]

Cássia Eller sempre teve uma presença de palco bastante intensa, assumia a preferência por álbuns gravados ao vivo e ela era convidada constantemente para participações especiais e interpretações sob encomenda, singulares, personalizadas.[carece de fontes]

Outra característica importante é o fato de ela ter assumido uma postura de intérprete declarada, tendo composto apenas três das canções que gravou: "Lullaby" (parceria com Márcio Faraco) em seu primeiro disco, Cássia Eller, de 1990 (LP com 60.000 cópias vendidas, sobretudo em razão do sucesso da faixa "Por Enquanto" de Renato Russo); "Eles" (parceria dela com Luiz Pinheiro e Tavinho Fialho), e "O Marginal" (dela com Hermelino Neder, Luiz Pinheiro e Zé Marcos), no segundo disco, O Marginal (1992).[29] Cássia também compôs a canção instrumental "Do Lado do Avesso" (título batizado pelo filho da cantora),[30] que foi lançada em 2012 no CD/DVD póstumo Cássia Eller - Do Lado do Avesso, um registro do show Luz do Solo, gravado em 2001 no antigo ATL Hall no Rio de Janeiro.[31]

A canção "Flor do Sol", composta aos 19 anos em parceria com Simone Saback em Brasília em 1982,[32] foi descoberta 30 anos depois e lançada no iTunes no aniversário de 50 anos de Cássia, em 10 de dezembro de 2012.[33] Os produtores mantiveram o violão e a voz da cantora, anteriormente gravados em cassete, mas adicionaram outros instrumentos, entre eles o filho de Cássia (então com 19 anos) tocando o violão da mãe.[32]

Em 10 de dezembro de 2022, dia em que a cantora completaria 60 anos, foi lançado o álbum Cássia Eller & Victor Biglione in blues, gravado entre o final de 1991 e o início de 1992, o guitarrista Victor Biglione convidou Cássia após ouvir a gravação de Por Enquanto, onde ela canta trecho de I've Got a Feeling dos Beatles com um acento de blues.[34]

Vida pessoal

Cássia era bissexual.[35][36] Cássia e Maria Eugênia Vieira Martins ficaram juntas até o fim da vida da cantora. As duas se conheceram em Brasília em 1987,[37] ficaram amigas e depois se apaixonaram e viveram um relacionamento aberto.[38][5]

Ela teve um único filho, Francisco Ribeiro Eller (nascido em 28 de agosto de 1993),[39] carinhosamente chamado de Chicão, fruto de um relacionamento casual com um amigo, o baixista Tavinho Fialho,[35] que fazia parte de sua banda.[39][40] Em entrevista a revista Marie Claire em outubro de 2001, Cássia disse que se apaixonou por Tavinho.[35] O relacionamento dos dois e a gravidez de Cássia são detalhados no documentário Cássia Eller de 2014.[41] Tavinho era casado e já tinha dois filhos,[42] mas desde o princípio Cássia despreocupou-o das responsabilidades.[35][43] Cássia tinha se separado de Maria Eugênia e engravidando sem querer, então elas retomaram o relacionamento e sua companheira ficou feliz ao saber que ela estava grávida.[43] Tavinho faleceu em um acidente de carro uma semana antes do nascimento do filho.[35] O nome Francisco foi inspirado na canção de mesmo nome de Milton Nascimento, gravada por Cássia no álbum Ioiô de Nelson Faria quando ela estava grávida de oito meses.[44] Renato Russo compôs a canção "1º de Julho" para Cássia quando ela estava grávida.[45] A canção foi lançada originalmente no álbum Cássia Eller de 1994, e também foi incluída no álbum A Tempestade da Legião Urbana, lançado em 1996.[45]

Em entrevista a revista Marie Claire em outubro de 2001, Cássia disse que gostaria de ter um contrato de casamento legalizado com Maria Eugênia, para poder garantir os direitos dela e do filho Francisco, se caso viesse a acontecer algo com ela, Maria Eugênia ficaria sendo a responsável pela criação de Francisco.[35] Entretanto, após a morte de Cássia, o pai da cantora, Altair Eller, entrou com um pedido na justiça pela guarda do neto.[46] O caso era inédito no Brasil e Maria Eugênia recebeu o apoio da mãe e dos irmãos de Cássia.[47] Em janeiro de 2002, pela primeira vez a Justiça brasileira concedeu a uma mulher a guarda provisória do filho de sua companheira.[48] O juiz responsável pelo caso entrevistou Francisco, conferiu seu desempenho escolar, pesou-lhe as preferências afetivas e, à falta de uma legislação brasileira que tratasse especificamente da adoção de crianças por casais homossexuais, optou por confiá-lo a Eugênia.[5] Em 31 de outubro de 2002, em decisão inédita, a Justiça concedeu à Maria Eugênia a tutela definitiva de Francisco. A tutela foi concedida pelo juiz da 2ª Vara de Órfãos e Sucessões, Luiz Felipe Francisco, depois de um acordo entre Eugênia e o pai de Cássia. O avô abriu mão do pedido de tutela depois que Francisco disse que gostaria de ficar com Maria Eugênia, a quem considera mãe.[49] Assim como os pais, Chicão também é músico e adotou o nome artístico Chico Chico.[50]

A cantora era torcedora apaixonada do Clube Atlético Mineiro, tendo sido, inclusive, contatada para recebimento do Galo de Prata, honraria concedida aos torcedores ilustres do Clube. Contudo, com sua morte prematura, o troféu acabou sendo entregue, em 2002, a sua mãe, Nanci Eller, que, à época, disse: "no ano passado a Cássia fez um show em Curitiba, e o Levir Culpi mandou uma camisa do Galo para ela, através de seu filho. Todos os instrumentos dela têm o escudo do Atlético. Ela sempre colocava o escudo nas coisas que ganhava. Inclusive há um escudo na porta do estúdio que a Cássia tinha em sua residência".[51]

Últimos meses

2001 foi um ano bastante produtivo para Cássia Eller. Em 13 de janeiro de 2001, apresentou-se no Rock in Rio III, num show em que baiãosamba e clássicos da MPB foram cantados em ritmo de rock. Neste dia, o organograma de apresentação foi o seguinte: R.E.M.Foo FightersBeckBarão VermelhoFernanda Abreu e Cássia Eller. 190 mil pessoas compareceram a esta apresentação.

Entre maio e dezembro, Cássia Eller fez 95 shows. O que levou a cantora a gravar um DVD, nos moldes de sua preferência - ao vivo: o Acústico MTV, gravado entre 7 e 8 de março, em São Paulo, no qual Cássia contou com o um grupo de alto nível técnico e artístico: Nando Reis (direção musical/autoria, voz e violão em "Relicário" / voz em "De Esquina" de Xis), os músicos da banda: Luiz Brasil (Direção musical / Cifras / Violões e Bandolim), Walter Villaça (Violões e Bandolim), Fernando Nunes (baixolão), Paulo Calasans (Piano Acústico e Órgão Hammond), João Vianna (BateriaSurdoGanzáRalador e Lâmina), Lan Lan (Percussão e Vocal) e Thamyma Brasil (Percussão), os músicos convidados Bernardo Bessler (violino), Iura (Cello), Alberto Continentino (contrabaixo acústico), Cristiano Alves (clarinete e clarone), Dirceu Leite (saxflauta e clarineta), entre muitos outros. Este álbum foi composto por 17 faixas, acrescidas do Making Of, galeria de fotos, discografia e i.clip.[1] O álbum vendeu até hoje mais de um milhão de cópias e se tornou o maior sucesso da carreira de Cássia, sendo que até então, apesar das boas vendagens e da experiência, ela não era considerada uma cantora extremamente popular.[52]

No mesmo ano de 2001, ela se apresentaria no Video Music Brasil, da MTV, ao lado de Rita LeeRoberto de Carvalho e Nando Reis com "Top Top" d'Os Mutantes, presente no seu "Acústico MTV".[carece de fontes]

No fim do ano, ela se apresentaria na Praça do Ó, na Barra da Tijuca, no Rio, durante os festejos do réveillon. Faleceu dois dias antes, em 29 de dezembro. Foi substituída por Luciana Mello. Em vários pontos do Rio de Janeiro, fez-se um minuto de silêncio durante a homenagem da passagem do ano em memória de Cássia Eller. Vários artistas também prestaram homenagem à cantora em seus shows, na virada do ano.[carece de fontes]

Morte

Sala Cássia Eller em Brasília, aberto em 1977 com o nome Sala Funarte. O espaço passou por ampla reforma em 2001, sendo rebatizado no ano seguinte, numa homenagem póstuma à cantora.

Cássia Eller faleceu em 29 de dezembro de 2001, no auge de sua carreira, com apenas 39 anos, na clínica Santa Maria no bairro de Laranjeiras, na zona sul do Rio de Janeiro após sofrer quatro paradas cardíacas, em razão de um infarto do miocárdio repentino.[53] A cantora tinha sido internada às 13h e chegou a ficar no CTI (Centro de Terapia Intensiva). Segundo seu empresário, a cantora estava sentindo-se mal e reclamando de enjoos, devido ao excesso de trabalho. Os sintomas, segundo ele, seriam resultado de estresse provocado por excesso de trabalho. "Ela está trabalhando muito. Em sete meses, fez mais de cem shows", dizia.[3]  Foi levantada a hipótese de overdose de drogas, já que Cássia tinha admitido publicamente fazer uso de cocaína.[54] Entretanto, Cássia revelou em entrevista à revista Marie Claire de outubro de 2001 que estava sóbria há dois anos.[35] A suspeita foi considerada inicialmente como causa da morte, porém foi descartada pelos laudos periciais do Instituto Médico Legal do Rio de Janeiro após necropsia.[53][55] Os laudos comprovaram que Cássia morreu de infarto,[53] causado por uma malformação de seu coração.[5] Os exames toxicológicos não encontraram resíduos de álcool nem drogas no corpo da cantora.[53] Os exames histopatológicos revelaram que Cássia estava com problemas cardíacos, como uma coronarioesclerose leve (início de formação de trombos de gordura) e uma fibrose miocárdica (cicatrizes resultantes de outras lesões preexistentes).[53]

Cássia foi sepultada no Cemitério Parque Jardim da Saudade, no bairro Sulacap, na cidade do Rio de Janeiro.[56][57]

Em 29 de outubro de 2004, o Ministério Público do Rio de Janeiro entrou com um processo contra os médicos que atenderam Cássia na Casa de Saúde Santa Maria, alegando que o tratamento aplicado pelos médicos fez com que ela tivesse menos chances de sobreviver, sendo assim indiciados por homicídio culposo (sem intenção de matar). A denúncia foi feita com base no laudo pericial que indicava que a primeira das quatro paradas cardiorrespiratórias teria sido causada pela aplicação indevida do medicamento Plasil, contraindicado para quem usou drogas ou álcool. Entre as falhas atribuídas aos médicos, o promotor citou o fato de Cássia não ter sido submetida a uma lavagem gástrica para eliminar as substâncias tóxicas, não ter recebido sedativos e ter ingerido substâncias que são contraindicadas para pacientes com parada cardiorrespiratória. A denúncia também considerou que após a primeira parada cardíaca, os médicos deveriam ter feito diálise ou outro procedimento para impedir a progressão do quadro que levou a cantora ao coma e à morte.[58] Em 24 de Novembro de 2004, a juíza da 29ª Vara Criminal do Tribunal de Justiça do Rio, Maria Tereza Donatti, rejeitou a denúncia do Ministério Público. Segundo a juíza, os promotores se basearam na suposição de que Cássia teria ingerido álcool e cocaína antes de morrer, o que não ficou comprovado pelo exame toxicológico, e que a denúncia teria que se basear em dados extraídos do inquérito policial e não poderia ser fundada em meras conjecturas. A juíza afirmou ainda que nem as considerações feitas pelas peritas legistas Tânia Donati Paes Rios e Eliani Spinelli, a pedido do MP, dão suporte à acusação. A primeira informou não ser possível apontar com segurança a razão da primeira parada cardíaca sofrida por Cássia. E a segunda sustentou que Cássia não tinha diversos sintomas típicos de um usuário de estimulante como a cocaína.[59][60]

Legado

Homenagens

Em 2002 foi lançada a biografia "Cássia Eller - Canção na Voz do Fogo", escrita por Beatriz Helena Ramos Amaral.[61]

A biografia "Apenas uma Garotinha - A História de Cássia Eller", escrita pelos jornalistas Eduardo Belo e Ana Cláudia Landi foi publicada em 2005.[62]

Chorão, vocalista da banda Charlie Brown Jr. compôs a canção "O Dom, A Inteligência e a Voz" para Cássia Eller a pedido da cantora.[63] Cássia faleceu antes de gravar a música, que foi lançada como homenagem a ela no álbum de 2009 do Charlie Brown Jr., Camisa 10 Joga Bola Até na Chuva.[64]

Cássia é mencionada na canção "Back In Vânia" de Nando Reis, lançada no álbum Sei de 2012.[65]

"Cássia Eller - O Musical" estreou em 2014 com direção de João Fonseca e Viníciús Arneiro e texto de Patrícia Andrade, e com Tacy de Campos interpretando Cássia.[66] O musical roda o Brasil e continua em cartaz em 2019.[67]

O documentário Cássia Eller dirigido por Paulo Henrique Fontenelle foi lançado em 2015.[68]

Músicas em trilha sonora de novelas

Prêmios e indicações

Lista de prêmios e indicações recebidos por Cássia Eller
AnoPrêmioCategoriaTrabalho indicadoResultadoRef.
1991Prêmio SharpRevelação FemininaEla mesmaVenceu[93]
1993Melhor Cantora de Pop/RockVenceu
1995Melhor Cantora de Pop/RockVenceu
1995MTV Video Music BrasilVideoclipe de Pop"Malandragem"Indicado[94]
1997Prêmio SharpMelhor Disco de Pop/RockCássia Eller Ao VivoVenceu[93]
Melhor Cantora de Pop/RockEla mesmaIndicado[95]
1998Show do AnoVeneno AntimonotoniaVenceu[93]
Melhor Cantora de Pop/RockEla mesmaIndicado[96]
2000Grammy LatinoMelhor Álbum de Rock em Língua PortuguesaCom Você... Meu Mundo Ficaria CompletoIndicado[97]
2000Troféu ImprensaMelhor CantoraEla mesmaVenceu[98]
2001MTV Video Music BrasilVideoclipe de Rock"Mr. Scarecrow" (com Herbert Vianna)Indicado[99]
2001Prêmio APCAMelhor CantoraAcústico MTVVenceu[100]
2002Grammy LatinoMelhor Álbum de Rock em Língua PortuguesaVenceu[101]
2002Prêmio Multishow de Música BrasileiraMelhor CDVenceu[102]
Melhor DVDIndicado[102][103]
Melhor ShowIndicado[103]
2002Prêmio SharpMelhor Cantora de Pop/RockEla mesmaVenceu[93]
2002Troféu ImprensaMelhor Música"Malandragem"Venceu[104]
2003Grammy LatinoMelhor Álbum de Rock em Língua PortuguesaDez de DezembroIndicado[105]
2007Prêmio Multishow de Música BrasileiraMelhor DVDRock in Rio: Cássia Eller Ao VivoIndicado[106]
2023Prêmio da Música BrasileiraMelhor Lançamento em Língua EstrangeiraCássia Eller & Victor Biglione in BluesVenceu[107]

Discografia

Álbuns

Coletâneas

DVDs

Referências

  1.  «"Saiba mais sobre a cantora Cassia Eller"»Época. 11 de julho de 2005. Consultado em 18 de março de 2014Cópia arquivada em 6 de maio de 2015
  2. «Cássia Eller (1960–2001)». IMDb.com
  3.  «Cássia Eller morre aos 39 anos no Rio». Folha de S.Paulo. 29 de dezembro de 2001. Consultado em 21 de dezembro de 2022
  4. «As 100 Maiores Vozes da Música Brasileira». Rolling Stone Brasil. 11 de outubro de 2012. Consultado em 21 de dezembro de 2022
  5.  Pilz, Silvia (Março de 2007). «Na Moita». Revista Piauí
  6.  Caneppele, Ismael (1 de novembro de 2015). A Vida Louca da MPB. [S.l.]: Leya Brasil. p. 257
  7. Landi, Ana Cláudia (1 de janeiro de 2005). Trecho do livro "Apenas uma garotinha", de Ana Claudia Landi e Eduardo Belo. São Paulo: Editora Planeta. 296 páginas. ISBN 9788589885522
  8. «Nancy Ribeiro: "Altair tem 16 filhos extraconjugais. Por que não pega um desses pra criar?"». Istoé Gente. 28 de janeiro de 2002
  9.  «Leia a biografia de Cássia Eller»Folha de S.Paulo. 26 de outubro de 2004
  10.  de Sá, Gabriel (21 de junho de 2015). «Na época dos punks, eu era boa moça, diz Cássia Eller em entrevista rara de 1992». Portal Uai
  11. (13 de fevereiro de 2011). «Cristina Roberto lembra o tempo em que comandou o bar Bom Demais»Correio Braziliense. Consultado em 22 de novembro de 2023
  12. «Conheça a história de Cássia Eller»Diário de Cuiabá. 5 de janeiro de 2002. Consultado em 16 de julho de 2021
  13. «Dados biográficos de Cássia Eller»Folha de S.Paulo. 26 de outubro de 2004
  14. «Oswaldo Montenegro relembra primeira vez que ouviu Cássia Eller cantar: 'Eu quase caí pra trás'». GShow. 4 de maio de 2017
  15. «Sabia que Malandragem não era para Cassia Eller?». cazuza.com.br. 31 de outubro de 2014
  16. Sanches, Pedro Alexandre (11 de junho de 1997). «Cássia Eller se rende à unidade de Cazuza». Folha de S.Paulo
  17. «Edson Cordeiro & Cássia Eller - A Rainha Da Noite / I Cant Get No (Satisfaction) (Clipe Official)». YouTube
  18.  «Com você… meu mundo ficaria completo, com Cássia Eller». Istoé Gente. 4 de agosto de 1999
  19. «Tímida, Rebelde, Inimitável». Rolling Stone Brasil. 10 de dezembro de 2011
  20. Sanches, Pedro Alexandre (17 de julho de 1999). «"Com Você... Meu Mundo Ficaria Completo", sétimo disco da cantora, tem inéditas de Caetano e Gil». Folha de S.Paulo
  21. «Lan Lan lembra de quando filho de Cássia Eller tocou no Rock in Rio». Portal Terra. 10 de setembro de 2010
  22. Ney, Thiago (3 de novembro de 2006). «Cássia Eller estréia série de discos do Rock in Rio». Folha de S.Paulo
  23. Oliveira, Sarah (29 de novembro de 2019). «Minha Canção - Chicão». Rádio EldoradoFM 107,3MHz
  24. «Cassia Eller + Rock In Rio + Nirvana + Dave Grohl». YouTube
  25. «Happy Birthday Dave Grohl (Live Rock in Rio)». YouTube. 7 de julho de 2006
  26. «Cássia Eller tinha recebido convite dos herdeiros do Nirvana». Folha de S.Paulo. 30 de dezembro de 2001
  27. «Ouça "No Recreio", música inédita de Cássia Eller». Folha Online. 6 de dezembro de 2002
  28. Reis, Nando (28 de setembro de 2014). «Arquivo Aberto - O All Star de Cássia (e o meu)»Folha de S.Paulo
  29. «Desenrolando o Novelo». Revista Trip. Julho de 2005: 69
  30. «Cássia Eller - Do Lado Do Avesso (Instrumental) [Show Luz Do Solo]». YouTube. 19 de julho de 2018
  31. «Música inédita de Cássia Eller sai em DVD gravado ao vivo em 2001». Jornal Correio. 1 de janeiro de 2013
  32.  «Antiga gravação de Cássia Eller é lançada quando ela completaria 50 anos». globoplay. 9 de dezembro de 2012
  33. «Música inédita de Cássia Eller é lançada em comemoração aos 50 anos da cantora». Rolling Stone. 10 de dezembro de 2012
  34. «Cássia Eller, que faria 60 anos hoje, 'tinha o blues', como mostra álbum inédito com guitarrista Victor Biglione»G1. Consultado em 18 de dezembro de 2022
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  38. «Companheira de Cássia Eller fala sobre maternidade e vida ao lado de Chicão»Portal Uai Entretenimento. 11 de maio de 2015. Consultado em 2 de outubro de 2025
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Bibliografia

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  • AMARAL, Beatriz H.R. Cássia Eller: Canção na Voz do Fogo. Edição 1. São Paulo: Escrituras, 2002. ISBN 85-7531-048-8

Cássia Eller: A Voz que Revolucionou o Rock Nacional e Conquistou o Coração do Brasil

Cássia Rejane Eller não foi apenas uma cantora. Foi um fenômeno cultural, uma força da natureza vocal e um dos pilares do rock brasileiro na virada do século. Com uma voz grave, rouca e carregada de emoção, ela atravessou fronteiras de gênero, misturou rock, MPB, blues, samba e pop com uma naturalidade desconcertante, e deixou um legado que segue ecoando em palcos, rádios e corações. Eleita a 18ª maior voz e a 40ª maior artista da música brasileira pela Rolling Stone Brasil, Cássia consolidou sua imortalidade artística com o histórico Acústico MTV (2001), álbum que ultrapassou a marca de um milhão de cópias e rendeu um Grammy Latino. Neste guia completo, exploramos a biografia, a carreira, o estilo inconfundível, a vida pessoal, os esclarecimentos sobre sua partida prematura e o impacto duradouro de uma artista que transformou a música e a sociedade brasileira.

🎤 Biografia e Primeiros Passos na Música

Cássia Rejane Eller nasceu em 10 de dezembro de 1962, no Hospital do Exército de Campo Grande, no Rio de Janeiro. Filha de Nanci Ribeiro, dona de casa, e Altair Eller, sargento paraquedista de ascendência alemã, recebeu o nome por inspiração da avó, devota de Santa Rita de Cássia. Ainda na primeira infância, aos quatro anos, contraiu febre reumática, condição que a acompanhou por décadas e exigiu o uso prolongado de medicamentos profiláticos.
A vida nômade da família moldou sua sensibilidade artística. Aos seis anos mudou-se para Belo Horizonte, aos dez para Santarém (Pará) e aos doze retornou ao Rio. O despertar musical veio aos 14 anos, quando ganhou um violão e começou a aprender os acordes ouvindo os Beatles, usando as letras em inglês como método autodidata de língua e técnica.
Aos 18 anos, em busca de independência, mudou-se para Brasília. Na capital federal, cantou em corais, atuou como corista em óperas, participou de grupos de samba, frevo e blues, e tocou em bares icônicos da cena local. Trabalhou como servente de pedreiro em Belo Horizonte por um breve período, viveu de aluguel em quartos modestos e, de volta a Brasília, assumiu brevemente um cargo administrativo antes de decidir que a música seria seu único caminho. Em 1981, sua entrada oficial no meio artístico ocorreu em um espetáculo de Oswaldo Montenegro, onde sua presença de palco já chamava atenção.

💿 A Trajetória Discográfica e os Grandes Sucessos

A carreira de Cássia Eller decolou no final dos anos 1980, quando seu tio e primeiro empresário levou uma fita demo com a música “Por Enquanto”, de Renato Russo, à PolyGram. O resultado foi o contrato que mudaria sua vida.

Álbuns de Estúdio (1990–1999)

  • Cássia Eller (1990): Disco de estreia que já apresentava sua voz marcante e a interpretação visceral de “Por Enquanto”. Vendeu 60 mil cópias e estabeleceu sua assinatura artística.
  • O Marginal (1992): Trabalho mais experimental, com composições autorais e parcerias que refletiam seu lado rebelde e poético.
  • Cássia Eller (1994): Consolidação comercial e crítica. Trouxe “Malandragem”, clássico inédito de Cazuza que se tornou um dos hinos de sua carreira.
  • Veneno AntiMonotonia (1997): Tributo declarado a Cazuza, repleto de regravações emocionadas e arranjos que misturavam rock, blues e MPB.
  • Com Você... Meu Mundo Ficaria Completo (1999): Produção assinada por Nando Reis. Influenciada pelo filho Chicão, que sugeriu uma abordagem mais suave, o disco revelou hits como “O Segundo Sol” e “Palavras ao Vento”. Contou ainda com a participação especial de sua mãe, Nanci, na faixa “Pedra Gigante”.

O Fenômeno Acústico MTV (2001)

Gravado ao vivo em São Paulo, o projeto reuniu músicos de altíssimo nível, direção musical de Nando Reis e arranjos que transcenderam o formato acústico tradicional. Com 17 faixas, making of e galeria interativa, o álbum vendeu mais de um milhão de cópias, conquistou o Grammy Latino de Melhor Álbum de Rock e transformou Cássia em um nome de massa, mantendo a profundidade artística que sempre a caracterizou.

Lançamentos Póstumos

  • Dez de Dezembro (2002): Primeiro álbum póstumo, com faixas inéditas como “No Recreio” e “All Star”, esta última uma homenagem à amizade com Nando Reis.
  • Cássia Eller & Victor Biglione in Blues (2022): Registro gravado entre 1991 e 1992, revelando sua versatilidade no blues e sua admiração por referências internacionais.
  • Flor do Sol (2012): Composição de 1982, descoberta três décadas depois e lançada no iTunes com arranjos modernos, incluindo o violão de seu filho, Chicão.

🎸 Estilo, Voz e Ecletismo Musical

Cássia Eller nunca se limitou a um único gênero. Sua discografia é um mosaico que abrange rock nacional, MPB, samba, blues, pop e até rap. Ela interpretou Cazuza, Renato Russo, Rita Lee, Marisa Monte, Caetano Veloso, Chico Buarque, Arrigo Barnabé, Riachão, Xis e trouxe ao público brasileiro versões memoráveis de Janis Joplin, Jimi Hendrix, The Beatles e Nirvana.
Sua voz grave, áspera e carregada de intenção era seu principal instrumento. Diferente de muitos artistas que buscam a composição autoral, Cássia assumiu com orgulho o papel de intérprete. Gravou apenas três canções de autoria própria ao longo da carreira (“Lullaby”, “Eles” e “O Marginal”), preferindo dar vida a obras alheias com uma leitura única, visceral e teatral.
No palco, sua presença era magnética. Movimentos amplos, olhar fixo, interação direta com o público e uma entrega emocional que beirava o transe. O Rock in Rio de 2001, com cerca de 190 mil pessoas, foi um marco: ela subiu ao Palco Mundo, atendeu ao pedido do filho de incluir “Smells Like Teen Spirit” do Nirvana, e recebeu elogios públicos de Dave Grohl, que celebrou seu aniversário abraçando a cantora nos bastidores.

❤️ Vida Pessoal, Maternidade e um Marco Judicial Histórico

Cássia Eller assumiu publicamente sua bissexualidade e viveu um relacionamento aberto e duradouro com Maria Eugênia Vieira Martins, com quem se relacionou desde 1987. A parceria foi marcada por cumplicidade, respeito e uma estrutura familiar não tradicional para a época.
Em 1993, nasceu Francisco Ribeiro Eller, carinhosamente chamado de Chicão, fruto de um relacionamento casual com o baixista Tavinho Fialho, integrante de sua banda. Tragédia e renascimento se cruzaram: Tavinho faleceu em um acidente de carro uma semana antes do parto. Cássia, já separada temporariamente de Maria Eugênia, reatou o relacionamento, e a companheira acolheu a gravidez com alegria. O nome Francisco foi inspirado na canção de Milton Nascimento, e Renato Russo compôs “1º de Julho” especialmente para a gestação.
A morte de Cássia, em dezembro de 2001, desencadeou um episódio jurídico pioneiro. Seu pai, Altair Eller, entrou com pedido de guarda do neto. Pela primeira vez no Brasil, a Justiça concedeu tutela provisória e, posteriormente, definitiva a uma mulher pelo filho de sua companheira homossexual. O juiz considerou o vínculo afetivo, o desempenho escolar e a vontade da criança, abrindo caminho para discussões sobre família, parentalidade e direitos LGBTQIA+ no país.
Cássia também era uma torcedora declarada do Clube Atlético Mineiro. Seus instrumentos e equipamentos ostentavam o escudo do Galo, e a honraria do Galo de Prata foi entregue postumamente a sua mãe em 2002.

🕊️ A Morte, os Laudos e os Esclarecimentos Oficiais

Em 29 de dezembro de 2001, aos 39 anos, Cássia Eller faleceu na Clínica Santa Maria, no Rio de Janeiro, após quatro paradas cardiorrespiratórias. A causa oficial, confirmada por laudos do Instituto Médico Legal e exames toxicológicos, foi infarto agudo do miocárdio provocado por uma malformação cardíaca congênita. Os exames histopatológicos revelaram coronarioesclerose leve e fibrose miocárdica, sem qualquer vestígio de álcool ou drogas ilícitas.
Apesar de especulações iniciais sobre overdose, a própria Cássia havia declarado em entrevista de outubro de 2001 que mantinha sobriedade há dois anos. O excesso de trabalho (mais de cem shows em sete meses) e o estresse crônico foram apontados como fatores agravantes, mas a raiz do óbito foi estrutural e natural.
Um processo movido pelo Ministério Público em 2004 contra a equipe médica foi rejeitado pela Justiça por falta de provas e base em conjecturas não corroboradas pelos laudos oficiais. O caso foi encerrado, reafirmando a causa natural da morte e encerrando ciclos de desinformação.
Cássia foi sepultada no Cemitério Parque Jardim da Saudade, no Rio de Janeiro. Seu legado, no entanto, segue vivo em cada acorde, em cada voz que se inspira em sua coragem artística e em cada história de amor e resistência que sua trajetória inspira.

🌟 Legado, Reconhecimento Póstumo e Influência na Cultura

Mais de duas décadas após sua partida, Cássia Eller permanece uma referência absoluta. Seu nome batiza salas de espetáculo, projetos educacionais e premiações musicais. O Acústico MTV segue sendo estudado por produtores e músicos como exemplo de como reinventar o formato sem perder a identidade.
Sua influência transcende a música. A luta pela guarda de Chicão pela companheira Maria Eugênia foi um divisor de águas para o reconhecimento de famílias homoafetivas no Brasil. Sua postura autêntica, sem filtros, quebrou estereótipos sobre como uma mulher e uma artista de rock deveriam se portar.
Na era do streaming, suas músicas ganham milhões de novas reproduções anualmente. Jovens descobrem sua versão de “E.C.T.”, se emocionam com “Malandragem”, dançam “O Segundo Sol” e encontram em sua discografia um refúgio para a angústia e a liberdade.

📜 Curiosidades que Marcaram Sua História

  • Compôs apenas três canções autorais gravadas em vida, mas sua interpretação tornou clássicos obras de terceiros.
  • “Do Lado do Avesso”, instrumental batizada pelo filho Chicão, foi lançada postumamente em 2012.
  • O álbum com Victor Biglione só veio à luz em 2022, revelando seu talento no blues quase trinta anos depois da gravação.
  • Chicão Eller segue carreira musical sob o nome artístico Chico Chico, mantendo viva a herança artística da mãe.
  • Cássia tinha preferência por álbuns ao vivo, onde a energia do público e a improvisação completavam sua arte.
  • Sua voz foi usada como referência em cursos de técnica vocal por sua projeção, ressonância e controle de dinâmica.

✅ Conclusão

Cássia Eller não coube em caixas. Foi rock e MPB, blues e samba, rebeldia e ternura, voz grave e alma expansiva. Em apenas doze anos de carreira gravada, deixou um catálogo que segue sendo reinventado, estudado e amado. Sua morte precoce cortou um fio que ainda tecia novos capítulos, mas não apagou a luz que ela acendeu na música brasileira.
Ouvir Cássia Eller é mais do que consumir música: é entrar em contato com uma força vital que ensinou gerações a serem autênticas, a cantarem com a pele, a amarem sem regras e a enfrentarem o mundo com a mesma intensidade com que ela subia ao palco. Seu legado não é passado. É presente. É futuro. É eterno.
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