quinta-feira, 9 de abril de 2026

Clara Nunes: A Guerreira do Samba que Vestiu a Alma do Brasil com Turbante, Fé e Voz Eterna

 

Clara Nunes
Em 1971, apresentando-se no Zicartola
Informações gerais
Nome completoClara Francisca Gonçalves Pinheiro
Também conhecido(a) como
  • A Guerreira
  • Sabiá
  • Mineira
  • Claridade
  • Mestiça Mística
Nascimento12 de agosto de 1942[1]
ParaopebaMG[2][1]Brasil
Morte2 de abril de 1983 (40 anos)
Rio de JaneiroRJ
Nacionalidadebrasileira
Gênero(s)
Ocupação
CônjugePaulo César Pinheiro (c. 1975; m. 1983)
Instrumento(s)vocal
Período em atividade1960–1983
Gravadora(s)EMI

Clara Nunes, nome artístico de Clara Francisca Gonçalves Pinheiro (Paraopeba12 de agosto de 1942[2][1] – Rio de Janeiro2 de abril de 1983), foi uma cantora e compositora brasileira, considerada uma das maiores e melhores intérpretes do país.[3]

Pesquisadora da música popular brasileira, de seus ritmos e de seu folclore, também viajou para muitos países representando a cultura do Brasil. Conhecedora das músicas, danças e das tradições africanas, ela se converteu à umbanda e levou a cultura afro-brasileira para suas canções e vestimentas. Foi uma das cantoras que mais gravaram canções dos compositores da Portela, sua escola de samba de preferência. Também foi a primeira cantora brasileira a vender mais de cem mil discos, derrubando um tabu segundo o qual mulheres não vendiam discos. Durante toda a sua carreira, vendeu quatro milhões e quatrocentos mil discos.

Foi considerada pela revista Rolling Stone como a nona maior voz brasileira e, pela mesma revista, quinquagésima primeira maior artista brasileira de todos os tempos.

Biografia

Mais jovem dos sete filhos (José, Maria, Ana Filomena, Vicentina, Branca e Joaquim) do casal Manuel Pereira de Araújo e Amélia Gonçalves Nunes, nasceu em uma família muito humilde do interior de Minas Gerais, no distrito de Cedro, à época pertencente ao município de Paraopeba, e que depois emancipou-se com o nome de Caetanópolis. Ali viveu até os quinze anos.

Marceneiro na fábrica de tecidos Cedro & Cachoeira, o pai de Clara era conhecido como "Mané Serrador" e também era violeiro e participante das festas de Folia de Reis. Manuel faleceu vítima de atropelamento em 1944, e sua esposa entrou em depressão e faleceu de câncer em 1948. Aos seis anos, Clara, já órfã de pais, foi criada por sua irmã Maria, apelidada de Dindinha, e por seu irmão José, conhecido como Zé Chilau. Nessa época Clara participava de aulas de catecismo na matriz da Cruzada Eucarística, e cantava ladainhas em latim no coro da igreja.

Segundo as suas próprias palavras, cresceu ouvindo Carmem CostaÂngela Maria e, principalmente, Elizeth Cardoso e Dalva de Oliveira, das quais sempre teve muita influência, mantendo, no entanto, estilo próprio. Em 1952, ainda menina, venceu seu primeiro concurso de canto organizado em sua cidade, interpretando "Recuerdos de Ypacaraí". Como prêmio, ganhou um vestido azul. Aos 14 anos, para ajudar no sustento do lar, Clara ingressou como tecelã na fábrica Cedro & Cachoeira, a mesma para a qual seu pai trabalhara.

Em 1957 teve que se mudar às pressas para Belo Horizonte. Foi morar com sua irmã Vicentina e seu irmão Joaquim, que viviam na casa de uma tia paterna, por causa do assassinato de seu primeiro namorado, cometido no mesmo ano por seu irmão, Zé Chilau, que queria defender a honra da irmã, que estava sendo difamada por este rapaz, pois não aceitou o término do relacionamento, e estava sendo alvo de comentários maldosos na sua pequena cidade natal. Após o crime seu irmão ficou muitos anos foragido, reaparecendo quando Clara já era famosa, e então ela pôde ajudá-lo a não ser condenado pela justiça. Na capital mineira, trabalhava como tecelã em uma fábrica de tecidos durante o dia inteiro, e a noite estudava o curso normal de formação de professoras. Aos finais de semana, participava dos ensaios do coral da igreja, no bairro Renascença, onde vivia com os irmãos, primos e tios. Acabou se afastando do catolicismo, e junto de sua amiga de infância Lalita, começou a frequentar centros espíritas de mesa branca, e converteu-se ao kardecismo, onde conseguiu algumas cartas psicografadas dos pais. Naquela época, conheceu o violonista Jadir Ambrósio, conhecido por ter composto o hino do Cruzeiro. Admirado com a voz da adolescente, Jadir levou Clara a vários programas de rádio, como "Degraus da Fama", no qual ela se apresentou com seu nome de batismo, Clara Francisca.

Surge Clara Nunes

No início da década de 1960, conheceu também Aurino Araújo (irmão de Eduardo Araújo), que a levou para conhecer muitos artistas. Aurino também foi seu namorado durante dez anos. Por influência do produtor musical Cid Carvalho, adotou o nome artístico de Clara Nunes, usando o sobrenome da mãe. Quando solteira se chamava Clara Francisca Gonçalves, depois de casada adotou o sobrenome Pinheiro.[2]

Em 1960, já com o nome de Clara Nunes e ainda trabalhando como tecelã, ela venceu a etapa mineira do concurso "A Voz de Ouro ABC", com a música "Serenata do Adeus", composta por Vinicius de Moraes e gravada anteriormente por Elizeth Cardoso. Na final nacional do concurso realizado em São Paulo, obteve o terceiro lugar com a canção "Só Adeus" (de Jair Amorim e Evaldo Gouveia).

A partir daí, começou a cantar na Rádio Inconfidência de Belo Horizonte. Por conta dos compromissos profissionais na área musical e as constantes viagens, teve de deixar o emprego na fábrica de tecidos e também o colégio. Durante três anos seguidos foi considerada a melhor cantora de Minas Gerais. Ela também passou a se apresentar como crooner em clubes e boates da capital mineira e chegou a trabalhar com o então baixista Milton Nascimento — àquela altura conhecido como Bituca.

Naquela época, fez sua primeira apresentação na televisão, no programa de Hebe Camargo em Belo Horizonte. Em 1963, ganhou um programa exclusivo na TV Itacolomi, chamado "Clara Nunes Apresenta" e exibido por um ano e meio. No programa se apresentavam artistas de reconhecimento nacional, entre os quais Altemar Dutra e Ângela Maria.[nota 1]

Viveu em Belo Horizonte até 1965, quando seu namorado Aurino a orientou, informando que ela teria mais chances de ser famosa se morasse em São Paulo ou no Rio. Como ele tinha família no Rio e conhecia tudo na cidade, Clara sentiu-se mais segura, e decidiu mudar-se para o Rio de Janeiro, vindo de carro com o namorado. Ela alugou um quarto e passou a viver no bairro de Copacabana, onde viu o mar pela primeira vez, ficando encantada, o que lhe deu mais inspiração musical.

Os primeiros discos

Já no Rio, passou a apresentar-se em vários programas de televisão, tais como José MessiasChacrinhaAlmoço com as Estrelas e Programa de Jair do Taumaturgo. Antes de aderir ao samba, cantava especialmente boleros. Além de emissoras de rádio e televisão, ela também se apresentava em escolas de samba, clubes e casas noturnas do subúrbio carioca, onde acabou conhecendo terreiros de religião de matriz africana, optando por deixar o kardecismo e converter-se ao candomblé.

Ainda em 1965, ela passou num teste como cantora na gravadora Odeon e registrou pela primeira vez a sua voz em um LP. O disco foi lançado pela Rádio Inconfidência (onde trabalhou quando morava em Belo Horizonte) e contava com a participação de outros artistas, todos da Odeon.

No ano seguinte, foi contratada por esta gravadora, a primeira e a única em toda a sua vida. Naquele mesmo ano, foi lançado o primeiro LP oficial da cantora, "A Voz Adorável de Clara Nunes". Por insistência da gravadora para que ela interpretasse músicas românticas, Clara apresentou neste álbum um repertório de boleros e sambas-canção, mas o LP foi um fracasso comercial. Em 1968, gravou "Você Passa e Eu Acho Graça", seu segundo disco na carreira e o primeiro onde cantaria sambas. A faixa-título (de Ataulfo Alves e Carlos Imperial) foi seu primeiro grande sucesso radiofônico.

No ano seguinte, a Odeon lançou "A Beleza Que Canta", LP no qual a cantora interpretou "Casinha Pequena", uma canção de domínio público. Ainda em 1969, ganhou o primeiro lugar no "I Festival da Canção Jovem de Três Rios" com a música "Pra Que Obedecer" (de Paulinho da Viola e Luís Sérgio Bilheri) e ainda classificou a canção "Encontro" (de Elton Medeiros e Luís Sérgio Bilheri) na terceira colocação. Ficou em oitavo lugar no "IV Festival Internacional da Canção Popular" com a música "Ave Maria do Retirante" (de Alcyvando Luz e Carlos Coqueijo), que foi lançada naquele mesmo ano em disco homônimo.

Afirmação no samba

Em 1970, se apresentou em Luanda, capital angolana, em convite de Ivon Curi. Nesse mesmo ano, rompeu seu noivado, e desmarcou seu casamento, que ocorreria dentro de poucos meses com Aurino Araújo, após dez anos de namoro, ao flagrar uma traição dele em uma boate. No ano seguinte, a cantora gravou seu quarto LP, no qual interpretou "Ê Baiana" (de Fabrício da Silva, Baianinho, Ênio Santos Ribeiro e Miguel Pancrácio), música que obteve considerável sucesso no carnaval de 1971, e "Ilu Ayê"samba-enredo da Portela (de autoria de Norival Reis e Silvestre Davi da Silva). Na capa do álbum, a cantora mineira fez um permanente nos cabelos pintados de vermelho e passou a partir daí a se vestir com turbante e vestes brancas, roupas que remetem-se às religiões afro-brasileiras. Neste mesmo ano de 1971, deixou o candomblé e se ligou definitivamente a umbanda, frequentando um terreiro do bairro de Madureira, no Morro da Serrinha. Esta foi a religião a qual dedicou-se publicamente com muita  e amor, até o fim de sua vida.

Em 1972, firmou-se como cantora de samba com o lançamento do álbum "Clara Clarice Clara". Com arranjos e orquestrações do maestro Lindolfo Gaya e com músicos como o violonista Jorge da Portela e Carlinhos do Cavaco, o disco teve como grandes destaques as canções "Seca do Nordeste" (um samba-enredo da escola de samba Tupi de Brás de Pina), "Morena do Mar" (de Dorival Caymmi), "Vendedor de Caranguejo" (de Gordurinha), "Tributo aos Orixás" (de Mauro Duarte, Noca e Rubem Tavares) e a faixa-título "Clara Clarice Clara" (de Caetano Veloso e Capinam). Ainda naquele ano, Clara Nunes se apresentou no "Festival de Música de Juiz de Fora" e gravou um compacto simples da música "Tristeza, Pé no Chão" (de Armando Fernandes), que vendeu mais de 100 mil cópias.

A Odeon lançou em 1973 o disco "Clara Nunes". Naquele mesmo ano, a cantora estreou com Vinicius de Moraes e Toquinho o show "O poeta, a moça e o violão" no Teatro Castro Alves, em Salvador. Também em 1973, foi convidada pela Radiotelevisão Portuguesa para fazer uma temporada em Lisboa. Depois, percorreu alguns outros países da Europa, como a Suécia, onde gravou um especial ao lado da Orquestra Sinfônica de Estocolmo para a TV local.

Sucesso comercial

Integrou a comissão que representou o Brasil no "Festival do Midem", em Cannes, em 1974. Por lá, a Odeon lançou somente para o público europeu o disco "Brasília", que foi base para o LP "Alvorecer". Este álbum emplacou grandes sucessos como "Conto de Areia" (de Romildo S. Bastos e Toninho Nascimento), "Menino Deus" (de Mauro Duarte e Paulo César Pinheiro) e "Meu Sapato Já Furou" (de Mauro Duarte e Elton Medeiros).[nota 2] O LP bateu recorde de vendagem para cantoras brasileiras, com mais de 300 mil cópias vendidas, um feito nunca antes registrado no Brasil. Ainda em 1974, a cantora atuou (ao lado de Paulo Gracindo), em "Brasileiro Profissão Esperança", espetáculo de Paulo Pontes, referente à vida da cantora e compositora Dolores Duran e do compositor e jornalista Antônio Maria. O show ficou em cartaz no Canecão até 1975 e gerou o disco homônimo.

Duração: 28 segundos.
Trecho de "O Mar Serenou" (1975)

Também em 1975, a Odeon lançaria ainda o LP "Claridade". Com grandes sucessos como "O Mar Serenou" (de Candeia) e "Juízo Final" (de autoria de Nelson Cavaquinho e Élcio Soares), este álbum se tornou o maior sucesso da carreira da cantora, batendo o recorde de vendagem feminina e alavancando o samba-enredo da Portela na avenida, "Macunaíma, Herói da Nossa Gente" (de autoria de Norival Reis e Davi Antônio Correia), com o qual a escola classificou-se em 5º lugar no Grupo 1. Ainda naquele ano de 1975, casou-se com seu noivo, com quem estava junto desde 1971, o poetacompositor e produtor Paulo César Pinheiro. Após a união, percorreu diversos países da Europa em turnê e em lua-de-mel.

Clara Nunes gravou o LP "Canto das Três Raças" em 1976. Além da faixa-título (de Mauro Duarte e Paulo César Pinheiro), grande sucesso na carreira da cantora, o disco contava ainda com "Lama" (de Mauro Duarte), "Tenha Paciência" (de Nelson Cavaquinho e Guilherme de Brito), "Riso e Lágrimas" (de Nelson Cavaquinho, Rubens Brandão e José Ribeiro), "Fuzuê" (de Romildo e Toninho) e "Retrato Falado" (de Eduardo Gudin e Paulo César Pinheiro).

Em 1977, a Odeon lançou o disco "As Forças da Natureza", um álbum mais dedicado ao partido-alto. O LP teve como principais destaques a faixa-título (de João Nogueira e Paulo César Pinheiro), "Coração Leviano" (de Paulinho da Viola) e "Coisa da Antiga" (de Wilson Moreira e Nei Lopes). O disco ainda contou com a participação de Clementina de Jesus na faixa "PCJ-Partido da Clementina de Jesus" (de Candeia) e lançou "À Flor da Pele", primeira composição de Clara (feita em parceria com Maurício Tapajós e Paulo César Pinheiro).

Em 1978, foram lançados os álbuns "Guerreira", no qual interpretou vários ritmos brasileiros além do samba — sua marca registrada —, e "Esperança", com destaque para a faixa "Feira de Mangaio" (de Sivuca e Glorinha Gadelha). Ainda naquele ano, participou do LP "Vida boêmia", de João Nogueira, no qual interpretou "Bela Cigana" (de João Nogueira e Ivor Lancellotti), e esteve — ao lado de Chico BuarqueMaria Bethânia e outros artistas — no show do Riocentro, que marcaria a história política brasileira devido à explosão de uma bomba.

Em 1979, participou do LP "Clementina", de Clementina de Jesus. Naquele mesmo ano, a cantora se submeteu a uma histerectomia, após sofrer seu terceiro aborto espontâneo, por causa dos miomas que possuía no útero, que estavam comprometendo muito a sua saúde. Ela tentou diversos tratamentos, tanto médicos quanto espirituais, para tornar-se mãe, mas não obteve respostas satisfatórias. Por nutrir obsessão pela maternidade, a impossibilidade definitiva de engravidar a fez sofrer muito. Nessa época, doou para um orfanato toda a coleção de bonecas que tinha guardado desde a infância, pois sonhava em ter uma filha para presenteá-la com as bonecas que um dia foram suas. O fato de não ter conseguido gerar um filho, causou fortes abalos emocionais, superados pela entrega absoluta à carreira artística, fazendo-a interpretar com muita inspiração músicas belíssimas e de intensa carga emocional.[4]

Últimos anos de vida

Em 1980, gravou o álbum "Brasil Mestiço", que fez sucesso nas emissoras de rádio de todo o país com "Morena de Angola" (composta por Chico Buarque), "Brasil Mestiço, Santuário da Fé" (de Mauro Duarte e Paulo César Pinheiro), "Peixe com Coco" (de Alberto Lonato, Josias e Maceió do Cavaco), "Última Morada" (de Noca da Portela e Natal) e "Viola de Penedo" (de Luiz Bandeira). Ainda naquele ano, a cantora participou dos LPs "Cabelo de Milho" (de Sivuca) e "Fala Meu Povo" (de Roberto Ribeiro), e viajou para Angola representando o Brasil ao lado de Elba RamalhoDjavanDorival Caymmi e Chico Buarque, entre outros.

Gravou em 1981 o LP "Clara", com grande sucesso para a música "Portela na Avenida" (de Mauro Duarte e Paulo César Pinheiro), com a participação especial da Velha Guarda da Portela nesta faixa, e estreou o show "Clara Mestiça" (dirigido por Bibi Ferreira). Ainda naquele ano, a Odeon lançou uma coletânea intitulada "Sucesso de Ouro".

Em 1982, a Odeon lançaria "Nação", o último álbum de estúdio da cantora. O LP teve como destaques a faixa-título (de João BoscoAldir Blanc e Paulo Emílio), "Menino Velho" (de Romildo e Toninho), "Ijexá" (de Edil Pacheco), "Serrinha" (de Mauro Duarte e Paulo César Pinheiro) — uma homenagem dos compositores à escola de samba Império Serrano e ao Morro da Serrinha, reduto do jongo, situadas em Madureira, subúrbio carioca. Ainda naquele ano, apresentou-se na Alemanha ao lado de Sivuca e Elba Ramalho e participou do LP "Kasshoku", lançado no Japão pela gravadora Toshiba/EMI, gravando um especial para a emissora de TV NHK.

Morte

Em 5 de março de 1983 submeteu-se a uma cirurgia de varizes e teve reação alérgica a um componente da anestesia. Clara sofreu uma parada cardíaca e permaneceu durante 28 dias internada na UTI da Clínica São Vicente, no Rio de Janeiro: a fatalidade.[5] Neste ínterim, circularam uma série de especulações nos meios de comunicação sobre sua internação, entre elas: inseminação artificialaborto, tentativa de suicídio, uso de drogas e violência doméstica, todas falsas.

Na madrugada do sábado de Aleluia de 2 de abril de 1983, a quatro meses de seu 41º aniversário, foi declarada morta em razão de choque anafilático.[6] A sindicância aberta pelo Conselho Regional de Medicina do Rio de Janeiro na época foi arquivada, o que geraria por muitos anos suspeitas sobre as causas da morte da cantora. O corpo foi velado por mais de 50 mil pessoas na quadra da escola de samba Portela. O sepultamento no Cemitério São João Batista foi acompanhado por uma multidão de fãs e amigos. Em sua homenagem, a rua em Oswaldo Cruz onde fica a sede da Portela, sua escola de coração, recebeu seu nome (antiga Rua Arruda Câmara).

Após a morte

Em 1984, com o enredo "Contos de Areia", a Portela faz uma homenagem à Clara Nunes, sendo campeã naquele ano, juntamente com a Estação Primeira de Mangueira.

Em 1986, a Velha Guarda da Portela interpretou "Flor do Interior" (de Manacéa), uma das muitas músicas feitas em homenagem à Clara Nunes, no disco "Doce Recordação" — produzido por Katsunori Tanaka e lançado no Japão. Outro compositor, Aluísio Machado (da Império Serrano), também compôs a música "Clara" em homenagem à cantora. Em 1988, Maria Gonçalves (irmã mais velha de Clara Nunes, que passou a criar a cantora quando esta tinha apenas quatro anos) reuniu várias peças do vestuário, adereços e objetos pessoais da cantora, e criou uma sala que abriga o acervo de sua obra em um espaço físico com cerca de 120 metros, anexado à creche que leva o seu nome em Caetanópolis.

Em 1989, a gravadora EMI-Odeon produziu a coletânea "Clara Nunes, O Canto da Guerreira".[nota 3] Também naquele ano, o selo WEA lançou para o mercado estadunidense o álbum "O Samba: Brazil Classics 2", com vários artistas e incluindo Clara Nunes.

Três anos depois, a EMI-Odeon lançou "Série 2 em 1", compilação em CD de dois LPs"Brasil Mestiço" e "Nação", e a gravadora norte-americana World Pacific lançou "Best of Clara Nunes" no mercado dos Estados Unidos. Em 1993, o selo Som Livre lançou "Clara Nunes - 10 anos" — em lembrança ao décimo aniversário de morte da cantora — e a EMI-Odeon lançou pela "Série 2 em 1" os discos "Adoniran Barbosa" e "Adoniram Barbosa e Convidados", este último também contou com a participação de Clara Nunes. Esta mesma gravadora lançaria em 1994 as coletâneas "O Canto da Guerreira""O Canto da Guerreira Volume 2" e "Meus Momentos". Também naquele ano, a gravadora Saci lançou o álbum "Homenagem a Mauro Duarte", que contou com a voz de Clara Nunes, uma de suas maiores amigas e a sua principal intérprete.

Em 1995, a Odeon lançou "Clara Nunes com Vida", álbum produzido por Paulo César Pinheiro e José Milton, no qual foram acrescidas as vozes de outros artistas — Emílio SantiagoMartinho da Vila, Chico Buarque, Nana CaymmiRoberto RibeiroJoão BoscoElba RamalhoGilberto GilMilton NascimentoAlcioneMarisa Gata MansaPaulinho da Viola, Ângela Maria e João Nogueira - fazendo duetos com Clara Nunes, e "O Talento de Clara Nunes", outra coletânea.

No ano seguinte, a EMI-Odeon reeditou a obra completa de Clara Nunes, que incluíam 16 discos com as capas reproduzidas do original, remasterizados no Estúdio Abbey Road, em Londres, considerado o melhor do mundo. Três anos depois, a cantora Alcione gravou "Claridade", uma álbum com os maiores sucessos da carreira da amiga. Em 2001, foi apresentado no teatro do Centro Cultural Banco do Brasil, no Rio de Janeiro, o musical "Clara Nunes Brasil Mestiço", e no ano seguinte foi lançado o livro "Velhas Histórias, Memórias Futuras" de Eduardo Granja Coutinho, no qual o autor faz várias referências à cantora.

Em comemoração aos seus 60 anos, que seriam completados em 2003, a gravadora DeckDisc lançou "Um Ser de Luz — Saudação à Clara Nunes", álbum produzido por Paulão Sete Cordas e que contou a participação de diversos artistas interpretando parte de seu repertório, como Mônica Salmaso ("Alvorecer"), Élton Medeiros ("Lama"), Rita Ribeiro ("Morena de Angola"), Mart'nália ("Ijexá"), Fafá de Belém ("Sem Compromisso"), Renato Braz ("Menino Deus" e "Nação"), Falamansa ("Feira de Mangaio"), Monarco e Velha Guarda da Portela ("Peixe com Coco"), Cristina Buarque ("Derramando Lágrimas"), Dona Ivone Lara ("Juízo Final"), Nilze Carvalho ("A Deusa dos Orixás"), Teresa Cristina ("As Forças da Natureza"), Pedro Miranda ("Candongueiro"), Alfredo Del Penho ("Coisa da antiga"), Wilson Moreira ("O Mar Serenou"), Helen Calaça ("Basta um Dia") e ainda participações de Seu JorgeWalter Alfaiate e Elza Soares, entre outros.[nota 4]

No ano seguinte, a mesma gravadora lançou "Clara Nunes canta Tom e Chico", coletânea na qual compilou algumas gravações de discos anteriores da cantora, entre elas "Apesar de Você""Umas e Outras""Desencontro""Morena de Angola" e "Novo Amor" (todas de Chico Buarque), "Insensatez" e "A Felicidade" (de Tom Jobim e Vinícius de Moraes), além de "Sabiá" (da dupla Tom e Chico).

Em 2006 foi encontrada mais uma interpretação inédita de Clara Nunes. A composição "Quem Me Dera" (de Maurício Tapajós e Hermínio Bello de Carvalho) foi incluída no álbum póstumo de Maurício Tapajós"Sobras Repletas", que também trouxe uma outra composição, também em sua homenagem, desta vez feita em sua homenagem, "Surdina" (de Maurício Tapajós e Cacaso). Em 2007, o jornalista Vagner Fernandes lançou a biografia "Clara Nunes - Guerreira da Utopia", que trouxe entrevistas com vários compositores e intérpretes, entre os quais Chico Buarque, Paulinho da Viola, Alcione, Hermínio Bello de CarvalhoHélio Delmiro, Milton Nascimento, Monarco e Paulo César Pinheiro, além de familiares e amigos.[4][7][8]

Em agosto de 2006, a Prefeitura de Caetanópolis lançou o 1º Festival Cultural Clara Nunes, com o objetivo de desenvolver a cultura no município e região, e também resgatar a obra da cantora. O Festival Cultural Clara Nunes faz parte dos eventos culturais da cidade e todo ano é realizado no mês de agosto, mês de nascimento de Clara Nunes. Em 4 de agosto de 2007, na abertura do 2º Festival, a Prefeitura Municipal de Caetanópolis inaugurou a Casa de Cultura Clara Nunes, onde havia sido o cinema da cidade e onde a Clara se apresentou pela primeira vez. A Casa de Cultura Clara Nunes, administrada pela Secretaria Municipal de Cultura, é local onde se realizam oficinas de dança, música, pintura e teatro, oferecidas gratuitamente à população.

O Instituto Clara Nunes foi fundado em 19 de maio de 2005 pela irmã de Clara, Maria Gonçalves (a Dindinha), conhecida na cidade como Mariquita, e está instalado no mesmo prédio onde funciona a Creche Clara Nunes e o Artesanato Ponto de Luz, que produz tapetes cuja venda ajuda na manutenção da Creche. O Instituto foi criado para administrar e zelar pelo acervo da cantora. Em agosto de 2012 foi inaugurado o Memorial Clara Nunes, com a exposição do acervo.

No dia 23 de maio de 2018, a Portela, escola de samba de coração de Clara, anunciou o enredo em homenagem à cantora para o carnaval de 2019: "Na Madureira Moderníssima, hei sempre de ouvir cantar um sabiá", assinado pela carnavalesca Rosa Magalhães.[9]

Ditadura militar

Um documento confidencial do Centro de Informações do Exército, datado de 1971, menciona Clara Nunes entre os artistas que supostamente “se uniram à Revolução de 1964 no combate à subversão” ou “estão sempre dispostos a uma efetiva cooperação com o Governo”. O texto, de caráter difamatório, foi elaborado como reação a uma suposta campanha da imprensa contra artistas vistos como simpáticos à ditadura militar.[10] A inclusão de Clara nesse tipo de listagem é considerada incompatível com sua trajetória pública e artística por seu biógrafo, Vagner Fernandes.[11][12]

Fernandes rejeita a ideia de qualquer envolvimento político da cantora com a ditadura, classificando a informação como inverossímil. Clara Nunes jamais se engajou em atividades de apoio ao regime e sempre se manteve distante da política institucional. Quando gravou a canção “Apesar de você”, de Chico Buarque — duramente crítica ao governo militar —, ela o fez, segundo Fernandes, sem perceber seu conteúdo subversivo, o que reforça ainda mais seu alheamento a disputas ideológicas.[11] Há trabalhos que enfatizam que o contexto do período autoritário brasileiro (1964 -1985) tenha influenciado artistas:

Indubitavelmente, entre 1964 a 1985, vários acontecimentos políticos e sociais influenciaram decisivamente na história da nossa música: o inicio da ditadura militar, o fechamento do congresso nacional, como também a perseguição de alguns artistas e intelectuais da época. Esses acontecimentos foram decisivos na produção cultural. Com o início dos anos de chumbo, os artistas com medo de represarias seguiram para uma linha mais nacionalista, melodramática ou religiosa e isso influenciou diretamente na carreira de alguns artistas. Tais fatores impulsionaram a produção de músicas com características teológicas, abrindo uma janela para o mercado musical atual.[13]  

Discografia

Notas

  1. Sobre esta fase, Clara Nunes declararia em entrevista: "Eu contratava quem eu queria, viajava muito. Era uma espécie de ídolo em Minas. Naquela época, a televisão tinha vida local, ajudava a revelar muita gente. Este trabalho me deu muita base para enfrentar o Rio de Janeiro. Não vim no desespero. Pude esperar com calma até gravar meu primeiro LP" — Dicionário da Música Popular Brasileira
  2. Sobre este disco, escreveu na contracapa Adelzon Alves: "Menino Deus ou Alvorecer poderia muito bem ser o nome desse novo disco de Clara Nunes, devido a esses sambas maravilhosos de Mauro Duarte e Paulo César Pinheiro e Ivone Lara e Délcio de Carvalho. Com otimismo dominante na mensagem desses dois grandes sambas, e a sequência de afros e outras coisas bem brasileiras, em especial 'O que é que a baiana tem' de Caymmi, ficamos bastante certos de que esse disco acabará de fixar, definitivamente, esta imagem áudio e visual de cantora essencialmente brasileira, que Clara Nunes vem assumindo, como foi planejado há quatro anos passados, começando pelo 'Misticismo da África ao Brasil'. Ficamos certos disso não só pelo seu sucesso perante o público brasileiro, mas também em Portugal, Suécia e finalmente no Festival do Midem, na França, que é do conhecimento de todos." — Dicionário da Música Popular Brasileira
  3. Na contracapa, há um texto de Paulo César Pinheiro: "Fazer uma coletânea de sucessos da carreira de uma artista como Clara é sempre muito difícil. O pessoal vai sentir falta de muita coisa boa. Mas valeu - e valeu pela panorâmica que se conseguiu dar da obra de uma grande cantora desse país que se esquece tão rápido de seus representantes mais verdadeiros. Valeu porque pôde resgatar gravações de início de carreira com a qualidade sonora bastante melhorada pelos modernos processos de restauração da avançada indústria fonográfica. Valeu, porque se percebe a trajetória de seu caminho musical, desde o primeiro até o último grande sucesso, passando por muitas de suas várias fases de interpretação e mudança de gêneros, sem perder nunca as características fundamentais da alma de sua terra. Valeu por ser mais um disco essencialmente brasileiro, hoje tão raro no 'País do Carnaval'. E valeu porque mais uma vez, e sempre, se pode ouvir - pra nossa satisfação e saudade - o canto da Guerreira." — Dicionário da Música Popular Brasileira
  4. No encarte do disco, escreveu Paulo César Pinheiro: "(…) Pessoas jovens que, provavelmente, nem viram Clara cantar ao vivo, se debruçando com paixão naquilo que ela deixou registrado para sempre. Músicas que mostram um dos caminhos mais brasileiros de nossa Música Popular." — Dicionário da Música Popular Brasileira

Referências

  1.  Zuza Homem de Melo (org.). Enciclopédia da Música Brasileira. São Paulo: Publifolha, 2000
  2.  Ricardo Cravo Albin. «Clara Nunes»Dicionário Cravo Albin da Música Popular Brasileira. Consultado em 10 de abril de 2012
  3. Tamara Claudia Coimbra Pastro. Os tons em trânsito de Clara Nunes: samba, carnaval e religião (1966-1984)Plataforma Sucupira (Dissertação de mestrado). Consultado em 1 de outubro de 2025
  4.  «O espírito guerreiro de Clara Nunes»O Estado de S.Paulo. 3 de outubro de 2007
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Clara Nunes: A Guerreira do Samba que Vestiu a Alma do Brasil com Turbante, Fé e Voz Eterna

Se existe uma voz que traduziu a essência espiritual, cultural e emocional do Brasil, essa voz é a de Clara Nunes. Nascida Clara Francisca Gonçalves Pinheiro em Paraopeba, Minas Gerais, em 1942, e partida prematuramente no Rio de Janeiro em 1983, aos 40 anos, ela não foi apenas uma cantora. Foi uma pesquisadora da alma brasileira, uma mensageira da cultura afro-brasileira, uma pioneira que quebrou tabus e uma intérprete que elevou o samba a patamar de oração.
Convertida à umbanda, vestida de branco como as filhas de santo, Clara levou para os palcos não apenas canções, mas rituais. Foi a primeira cantora brasileira a vender mais de cem mil discos, derrubando o mito de que mulheres não vendiam música. Ao longo de sua carreira, comercializou mais de 4,4 milhões de cópias, deixou um legado de mais de 20 álbuns e se tornou símbolo de resistência, fé e brasilidade. Neste artigo completo e detalhado, percorremos a trajetória, a espiritualidade, as lutas e a eternidade da maior guerreira do samba.

Infância em Minas: Da Fábrica de Tecidos ao Coro da Igreja

Clara Nunes nasceu em 12 de agosto de 1942, no distrito de Cedro, então pertencente a Paraopeba (hoje Caetanópolis), interior de Minas Gerais. Era a caçula de sete filhos do casal Manuel Pereira de Araújo, violeiro e marcador de Folia de Reis conhecido como "Mané Serrador", e Amélia Gonçalves Nunes. A família vivia com extrema simplicidade, e a música já era parte do cotidiano.
Aos dois anos, perdeu o pai, atropelado em 1944. Aos seis, perdeu a mãe, falecida de câncer em 1948. Órfã, foi criada pela irmã Maria, a Dindinha, e pelo irmão José, o Zé Chilau. Na infância, cantava ladainhas em latim no coro da igreja da Cruzada Eucarística, aprendendo as primeiras noções de harmonia e disciplina vocal.
Segundo suas próprias palavras, cresceu ouvindo Carmem Costa, Ângela Maria e, principalmente, Elizeth Cardoso e Dalva de Oliveira — referências que moldariam seu estilo, sem nunca apagá-lo. Aos dez anos, venceu seu primeiro concurso de canto com "Recuerdos de Ypacaraí", ganhando um vestido azul como prêmio. Aos 14, para ajudar no sustento, ingressou como tecelã na fábrica Cedro & Cachoeira, a mesma onde o pai trabalhara.
Em 1957, um episódio traumático marcou sua vida: o assassinato de seu primeiro namorado, cometido por seu irmão Zé Chilau em defesa da honra da irmã, difamada após o término do relacionamento. O crime forçou Clara a mudar-se às pressas para Belo Horizonte, onde passou a morar com os irmãos. Na capital mineira, trabalhou como tecelã durante o dia e estudou o curso normal à noite. Nos finais de semana, cantava no coral da igreja no bairro Renascença.
Foi nessa época que começou a se afastar do catolicismo e, junto da amiga Lalita, passou a frequentar centros espíritas, convertendo-se ao kardecismo. Lá, recebeu cartas psicografadas dos pais, um consolo espiritual que a marcaria para sempre. Conheceu então o violonista Jadir Ambrósio, que, impressionado com sua voz, a levou a programas de rádio como Degraus da Fama, onde se apresentou como Clara Francisca.

O Nascimento de Clara Nunes: Do Concurso Nacional à Rádio Inconfidência

No início dos anos 1960, Clara conheceu Aurino Araújo, irmão de Eduardo Araújo, que se tornaria seu namorado por dez anos e seu principal incentivador. Por influência do produtor Cid Carvalho, adotou o nome artístico Clara Nunes, usando o sobrenome da mãe como homenagem.
Em 1960, venceu a etapa mineira do concurso A Voz de Ouro ABC com "Serenata do Adeus", de Vinicius de Moraes. Na final nacional em São Paulo, ficou em terceiro lugar com "Só Adeus". A partir daí, passou a cantar na Rádio Inconfidência de Belo Horizonte e, devido aos compromissos artísticos, abandonou o trabalho na fábrica e os estudos. Por três anos consecutivos, foi eleita a melhor cantora de Minas Gerais.
Apresentou-se como crooner em clubes e boates da capital, onde chegou a trabalhar com um jovem baixista chamado Milton Nascimento, então conhecido como Bituca. Fez sua primeira aparição na televisão no programa de Hebe Camargo em Belo Horizonte e, em 1963, ganhou programa próprio na TV Itacolomi: Clara Nunes Apresenta, que ficou no ar por um ano e meio e contou com participações de Altemar Dutra e Ângela Maria.
Em 1965, orientada por Aurino, mudou-se para o Rio de Janeiro. Alugou um quarto em Copacabana e viu o mar pela primeira vez — experiência que a encantou e inspirou musicalmente.

Primeiros Discos e a Transição para o Samba

No Rio, Clara passou a se apresentar em programas como José Messias, Chacrinha e Almoço com as Estrelas. Inicialmente, cantava boleros e sambas-canção, seguindo orientação da gravadora. Em 1965, aprovada em teste na Odeon, registrou sua voz pela primeira vez em um LP coletivo lançado pela Rádio Inconfidência.
Em 1966, foi contratada pela Odeon — a única gravadora de toda sua carreira — e lançou seu primeiro álbum oficial: A Voz Adorável de Clara Nunes. O repertório, focado em boleros e românticos por insistência da gravadora, foi um fracasso comercial. Clara, no entanto, já sentia que seu caminho era outro.
Em 1968, gravou Você Passa e Eu Acho Graça, seu segundo disco e o primeiro com sambas. A faixa-título, de Ataulfo Alves e Carlos Imperial, tornou-se seu primeiro grande sucesso radiofônico. Em 1969, lançou A Beleza Que Canta, com destaque para "Casinha Pequena", e venceu o I Festival da Canção Jovem de Três Rios com "Pra Que Obedecer", de Paulinho da Viola.

A Afirmação no Samba e a Conversão à Umbanda

O ano de 1970 marcou uma virada. Clara se apresentou em Luanda, Angola, a convite de Ivon Curi. No mesmo ano, rompeu seu noivado de dez anos com Aurino Araújo ao flagrá-lo traindo-a em uma boate. A dor pessoal abriu espaço para uma transformação espiritual e artística.
Em 1971, gravou seu quarto LP, com destaque para "Ê Baiana" e "Ilu Ayê", samba-enredo da Portela. Na capa, apareceu com cabelos pintados de vermelho e permanentes, vestindo turbante e roupas brancas — uma declaração visual de sua conexão com as religiões afro-brasileiras. Naquele ano, deixou o candomblé e se ligou definitivamente à umbanda, frequentando um terreiro no Morro da Serrinha, em Madureira. Foi nessa fé que encontrou conforto, propósito e inspiração para o resto da vida.
Em 1972, firmou-se como cantora de samba com Clara Clarice Clara, álbum com arranjos de Lindolfo Gaya e participações de Jorge da Portela e Carlinhos do Cavaco. Destaques: "Seca do Nordeste", "Morena do Mar" (Dorival Caymmi), "Tributo aos Orixás" e a faixa-título de Caetano Veloso e Capinam. No mesmo ano, gravou "Tristeza, Pé no Chão", compacto que vendeu mais de 100 mil cópias — um recorde para uma cantora na época.

Sucesso Comercial e Consagração Nacional

Em 1973, a Odeon lançou o álbum Clara Nunes. A cantora estreou com Vinicius de Moraes e Toquinho o show O Poeta, a Moça e o Violão, em Salvador. Foi convidada pela Radiotelevisão Portuguesa para temporada em Lisboa e percorreu a Europa, gravando especial com a Orquestra Sinfônica de Estocolmo.
Em 1974, integrou a comissão brasileira no Festival do MIDEM, em Cannes. A Odeon lançou Brasília para o mercado europeu, base para o LP Alvorecer, que emplacou sucessos como "Conto de Areia", "Menino Deus" e "Meu Sapato Já Furou". O disco vendeu mais de 300 mil cópias, recorde absoluto para uma cantora brasileira até então.
Em 1975, lançou Claridade, seu maior sucesso comercial. Com "O Mar Serenou" (Candeia) e "Juízo Final" (Nelson Cavaquinho), o álbum alavancou o samba-enredo da Portela "Macunaíma, Herói da Nossa Gente". No mesmo ano, casou-se com o poeta e compositor Paulo César Pinheiro, seu companheiro desde 1971, e partiu em turnê europeia em lua de mel.

Maturidade Artística e Lutas Pessoais

Entre 1976 e 1982, Clara viveu sua fase mais madura e criativa:
  • Canto das Três Raças (1976): Com a faixa-título (Mauro Duarte e Paulo César Pinheiro), "Lama", "Tenha Paciência" e "Retrato Falado".
  • As Forças da Natureza (1977): Álbum dedicado ao partido-alto, com "Coração Leviano" (Paulinho da Viola) e "À Flor da Pele", sua primeira composição (com Maurício Tapajós e Paulo César Pinheiro).
  • Guerreira (1978) e Esperança (1978): Exploração de ritmos brasileiros além do samba, com destaque para "Feira de Mangaio" (Sivuca e Glorinha Gadelha).
  • Brasil Mestiço (1980): Sucesso com "Morena de Angola" (Chico Buarque) e "Viola de Penedo".
  • Clara (1981): Com "Portela na Avenida", participação da Velha Guarda da Portela e estreia do show Clara Mestiça, dirigido por Bibi Ferreira.
  • Nação (1982): Último álbum de estúdio, com a faixa-título (João Bosco, Aldir Blanc e Paulo Emílio) e "Serrinha", homenagem ao Morro da Serrinha.
Paralelamente à carreira, Clara enfrentou dores profundas. Em 1979, submeteu-se a uma histerectomia após sofrer seu terceiro aborto espontâneo, devido a miomas uterinos. A impossibilidade de ser mãe a marcou profundamente. Doou sua coleção de bonecas de infância a um orfanato e canalizou sua dor para a arte, interpretando com intensidade emocional única.

A Morte Prematura e o Luto Nacional

Em 5 de março de 1983, Clara submeteu-se a uma cirurgia de varizes na Clínica São Vicente, no Rio de Janeiro. Teve reação alérgica a um componente da anestesia, sofreu parada cardíaca e permaneceu 28 dias na UTI.
Na madrugada de sábado de Aleluia, 2 de abril de 1983, a quatro meses de completar 41 anos, foi declarada morta por choque anafilático. A sindicância do Conselho Regional de Medicina foi arquivada, gerando especulações que nunca se confirmaram.
O corpo foi velado por mais de 50 mil pessoas na quadra da Portela, sua escola de samba de coração. O sepultamento no Cemitério São João Batista reuniu multidão de fãs, amigos e artistas. Em sua homenagem, a rua onde fica a sede da Portela, em Oswaldo Cruz, passou a se chamar Rua Clara Nunes.

Legado, Homenagens e a Eternidade da Guerreira

Clara Nunes não morreu. Ela se multiplicou. Sua obra continua viva, sendo redescoberta por novas gerações. Entre as homenagens mais marcantes:
  • 🎭 Portela campeã em 1984 com o enredo "Contos de Areia", em sua homenagem
  • 📚 Biografia "Clara Nunes - Guerreira da Utopia" (2007), de Vagner Fernandes
  • 🏛️ Casa de Cultura Clara Nunes e Memorial Clara Nunes, em Caetanópolis (MG)
  • 🎶 Álbum "Um Ser de Luz — Saudação à Clara Nunes" (2003), com participações de Chico Buarque, Gilberto Gil, Elza Soares e outros
  • 🎬 Musical "Clara Nunes Brasil Mestiço" (2001), no Centro Cultural Banco do Brasil
  • 🥁 Homenagem da Portela no Carnaval de 2019, com enredo assinado por Rosa Magalhães
  • 🇵🇹 Comendadora póstuma da Ordem do Infante D. Henrique (Portugal, 1997)
Em 2013, a Rolling Stone Brasil a elegeu a nona maior voz brasileira e a 51ª maior artista de todos os tempos. Sua influência ecoa em cada cantora que ousa cantar samba com alma, em cada compositor que busca raízes, em cada brasileiro que veste branco em homenagem aos orixás.

Perguntas Frequentes (FAQ)

Por que Clara Nunes é chamada de "Guerreira"?
O apelido reflete sua luta pela valorização da cultura afro-brasileira, sua resistência pessoal diante de perdas e sua coragem em romper tabus na indústria musical.
Qual foi seu maior sucesso comercial?
O álbum Claridade (1975), com "O Mar Serenou" e "Juízo Final", foi o mais vendido de sua carreira, batendo recorde feminino na época.
Clara Nunes era religiosa?
Sim. Convertida à umbanda em 1971, frequentava terreiros em Madureira e incorporava elementos espirituais em suas roupas, gestos e interpretações.
Ela teve filhos?
Não. Clara sofreu três abortos espontâneos e, em 1979, passou por histerectomia devido a miomas. A maternidade foi uma dor que ela transformou em arte.
Qual sua relação com a Portela?
Clara era torcedora apaixonada da Portela, gravou diversos sambas-enredo da escola e foi uma das maiores divulgadoras de seus compositores.
Por que ela vestia branco e turbante?
As vestes brancas e o turbante são símbolos de pureza e conexão com os orixás na umbanda e no candomblé. Clara usava essas roupas como declaração de fé e identidade cultural.

Conclusão

Clara Nunes não foi apenas uma cantora. Foi uma mensageira da alma brasileira. Sua voz, quente e profunda, não apenas entoava melodias: ela orava, denunciava, celebrava e acolhia. Ao vestir o branco, ao cantar os orixás, ao levar o samba para além das fronteiras, ela mostrou que a cultura afro-brasileira não é folclore — é fundamento.
Mais de quatro décadas após sua partida, ouvir Clara ainda é um ato de reconhecimento. Cada disco, cada frase, cada silêncio entre notas revela uma artista que não se conformava com o superficial, que exigia verdade de si mesma e que acreditava, acima de tudo, no poder sagrado da música.
Clara Nunes não é passado. É presente. É raiz. É a guerreira que continua a nos lembrar que cantar é rezar, que samba é resistência e que o Brasil só se entende quando escuta suas próprias vozes.
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