domingo, 19 de abril de 2026

DONA IVONE LARA: A RAINHA DO SAMBA QUE TRANSFORMOU DOR EM CANÇÃO E HUMANIZOU A SAÚDE MENTAL

 

Dona Ivone Lara
Dona Ivone se apresenta em São Paulo, 2008, na Virada Cultural
Nome completoYvonne Lara da Costa
Pseudônimo(s)Dona Ivone Lara
Outros nomes
  • A Primeira Dama do Samba
  • A Rainha do Samba
Nascimento
Morte
16 de abril de 2018 (97 anos)

Nacionalidadebrasileira
Etniaafro-brasileira
CônjugeOscar Costa (c. 1947; m. 1975)[1]
Prêmios
Carreira musical
Período musical1946-2018
Gênero(s)
Instrumento(s)
Gravadora(s)
Afiliações
Lista

Yvonne Lara da Costa OMC, mais conhecida como Dona Ivone Lara (Rio de Janeiro13 de abril de 1921[nota 1] – Rio de Janeiro, 16 de abril de 2018), foi uma cantora e compositora brasileira. Conhecida como Rainha do Samba e Grande Dama do Samba ela foi a primeira mulher a assinar um samba-enredo e a fazer parte da ala de compositores de uma escola, o Império Serrano.[2][3][4]

Formada em Enfermagem e Serviço Social, consagrou-se como cantora e compositora, desempenhando importante papel como enfermeira na reforma psiquiátrica no Brasil, ao lado da médica Nise da Silveira, dedicando-se a essa atividade durante mais de trinta anos, antes de se aposentar e dedicar-se exclusivamente à carreira artística.[5][6]

Em homenagem à Dona Ivone Lara, o dia 13 de abril foi instituído como Dia Nacional da Mulher Sambista.[7]

Biografia

Dona Ivone Lara nasceu em 13 de abril de 1921,[nota 1] na rua Voluntários da Pátria, em Botafogo, Zona Sul do Rio de Janeiro. Foi a primeira filha da união entre a costureira Emerentina Bento da Silva e João da Silva Lara.[1] Paralelamente ao trabalho, ambos tinham intensa vida musical: ele era violonista de sete cordas e desfilava no Bloco dos Africanos; ela era ótima cantora e emprestava sua voz de soprano a ranchos carnavalescos tradicionais do Rio de Janeiro, como o Flor do Abacate e o Ameno Resedá – nos quais seu João também se apresentava. Formada em enfermagem e serviço social, foi uma profissional na área de saúde durante mais de trinta anos até se aposentar em 1977.

Com a morte do pai, com menos de três anos de idade, e da mãe aos dezesseis,[1] foi criada pelos tios, e com eles aprendeu a tocar cavaquinho e a ouvir samba, ao lado do primo Mestre Fuleiro; teve aulas de canto com Lucília Guimarães e recebeu elogios do marido desta, o maestro Villa-Lobos.

Casou-se em 4 de dezembro de 1947 com Oscar Costa, filho de Alfredo Costa, presidente da escola de samba Prazer da Serrinha, com quem teve dois filhos, Alfredo e Odir. Foram casados durante 28 anos, até a morte de Oscar.[1] Foi no Prazer da Serrinha onde conheceu alguns compositores que viriam a ser seus parceiros em algumas composições, como Mano Décio da Viola e Silas de Oliveira. Em 2008 ela perde seu filho Odir, vítima de complicações decorrentes da diabetes.

Carreira como profissional de Saúde

Aos dezessete anos, Ivone entrou para a faculdade de enfermagem da atual Universidade Federal do Estado do Rio de Janeiro (UNIRIO), onde se graduou enfermeira. Aos 21 anos, prestou concurso público para o Ministério da Saúde e aos 25 foi contratada pelo Instituto de Psiquiatria do Engenho de Dentro. Lá, especializou-se em terapia ocupacional com a médica psiquiatra Nise da Silveira, área em que desempenhou um papel fundamental na reforma psiquiátrica no Brasil a partir da década de 1970. Durante mais de três décadas ela atuou na Colônia Juliano Moreira, com pacientes de doenças mentais.[6][4]

Ivone Lara se formou em Serviço Social, sendo uma das primeiras assistentes sociais do Brasil e uma das primeiras mulheres negras a se formarem em um curso superior no país. Seu trabalho nessa área foi tão importante que em 2016, a professora da Faculdade de Serviço Social da Universidade do Estado do Rio de Janeiro (UERJ), Graziela Scheffer, publicou o artigo acadêmico "Serviço Social e Dona Ivone Lara: o lado negro e laico da nossa história profissional".[8]

Em uma época em que pacientes de doenças mentais eram institucionalizados e abandonados pela família, Ivone se deslocava para os municípios do Rio e de estados vizinhos, localizando parentes dos internos para apresentar uma visão diferente da maioria dos diagnósticos médicos, que desacreditavam da condição mental dessas pessoas. Tudo isso fazia parte de uma rotina terapêutica e de uma visão completamente nova que humanizava o tratamento da saúde mental. Além disso, Ivone trouxe a terapia musical para seus pacientes no Instituto de Psiquiatria do Engenho de Dentro. Usando seus contatos, conseguia patrocínio para os instrumentos e a criação de uma oficina de música,[9] que passou a apoiar festas e eventos de socialização entre os pacientes, seus familiares e os funcionários do hospital. Essa oficina mais tarde deu origem ao bloco de carnaval "Loucura Suburbana", que existe até hoje.[10][5] Em 1977, Ivone se aposentou da carreira em enfermagem e assistência social para se dedicar integralmente à sua carreira musical.[11][12]

Carreira como cantora e compositora

Ivone Lara compôs sua primeira música, Tiê, aos 12 anos, sobre um pássaro tiê-sangue que havia ganhado de seus primos, Hélio e Antônio dos Santos. Antônio, que era conhecido como Mestre Fuleiro, recebia os créditos pela maioria das primeiras composições de Ivone Lara, quando na época essa atribuição era tradicionalmente desempenhada por homens.[13]

Compôs o samba Nasci para Sofrer, que se tornou o hino da escola de samba Prazer da Serrinha, fundada na década de 40 e extinta em 1952. Com a fundação da escola de samba Império Serrano em 1947, passou a desfilar na ala das baianas. Em um ardil premeditado entre os dois, de inicio Fuleiro apresentou na ala dos compositores da Império Serrano os sambas compostos por Dona Ivone como se fossem de autoria dele, e somente alguns tempos depois, quando as canções tiveram ampla aceitação, foi que ele revelou como sendo de sua prima a autoria de tais composições. Ivone Lara foi anunciada como integrante da ala de compositores do Império Serrano somente em 1963, após 11 anos contribuindo com a escola. A historiadora Rachel Valença atribui que este reconhecimento demorou para ocorrer pois Ivone Lara não assinava suas próprias composições devido ao machismo que sofria entre os compositores de samba, frequentemente dando os créditos a Mestre Fuleiro.[14]

Em 1965, passou a assinar sambas enredo com seu próprio nome como principal autora, com Os Cinco Bailes da História do Rio.[11] Assim sendo, Dona Ivone teve a primazia de se tornar na primeira mulher a assinar um samba-enredo.[15]

Dona Ivone desfilando pelo Império em 1990.

Em 1970, após se apresentar em programas como Amigo da Madrugada, apresentado por Adelzon Alves, Ivone Lara gravou seu primeiro disco, "Sambão '70", produzido por Alves e Osvaldo Sargentelli.[16]

Em 1975, seu filho Odir sofreu um acidente de carro, e por causa disso seu marido Oscar Costa teve um infarto fulminante e morreu. Apesar de seu marido nunca ter nada contra sua carreira, ele não gostava das rodas de samba.[carece de fontes]

Em 1986, compôs um jingle para a campanha de Wellington Moreira Franco nas eleições para o governo do Rio de Janeiro naquele ano.[17] O sucesso da canção foi apontado como um dos fatores responsáveis pela vitória de Moreira Franco sobre o antropólogo Darcy Ribeiro.[18]

Dona Ivone também teve trabalhos como atriz, com participação em filmes, e foi a Tia Nastácia em especiais do programa Sítio do Pica-Pau Amarelo. Em 2008, interpretou a canção Mas Quem Disse Que Eu Te Esqueço no projeto Samba Social Clube. A faixa foi incluída, no ano seguinte, em uma coletânea com as melhores performances do projeto.

Duração: 7 minutos e 57 segundos.
Entrevistas e apresentações de Dona Ivone Lara, Lúcio Alves, Monarco e a Velha Guarda da Portela, 1977. Arquivo Nacional.

Grafia do nome

Nascida Yvonne, adotou a grafia Ivone Lara para facilitar a popularização de seu nome como sambista.[11] Sargentelli e Alves adicionaram o prefixo "Dona" a seu nome artístico, contra a sua vontade.[13]

O álbum Samba minha verdade, samba minha raiz, de 1978, traz escrito "Dona Ivone Lara" em sua capa.[19] Todavia, Sorriso Negro, de 1981, traz na capa a escrita original de seu nome.[11] Diversos álbuns posteriores voltam a trazer a grafia "Ivone", como Nasci pra Sonhar e Cantar, de 2001,[20] e a coletânea SambaBook – Dona Ivone Lara, de 2015.[21]

Nas plataformas de streaming, seu nome está escrito Dona Ivone Lara.[22][23]

Morte

Dona Ivone morreu no dia 16 de abril de 2018 aos 97 anos,[nota 1] em consequência de um quadro de insuficiência cardiorrespiratória após permanecer internada por três dias no Centro de Tratamento e Terapia Intensiva (CTI) da Coordenação de Emergência Regional (CER), no Leblon, Rio de Janeiro.[2][3] O velório aconteceu na Quadra do Império Serrano, sua escola do coração, em Madureira, na Zona Norte da cidade. O enterro de Dona Ivone aconteceu no Cemitério de Inhaúma, no Rio de Janeiro.

Legado e homenagens

Entre os intérpretes que gravaram suas composições destacam-se Clara NunesRoberto RibeiroMaria BethâniaGal CostaCaetano VelosoGilberto GilPaula TollerPaulinho da ViolaBeth CarvalhoMariene de CastroRoberta SáMarisa Monte e Dorina. Uma de suas composições mais conhecidas, em parceria com Délcio Carvalho, foi Sonho Meu, sucesso na voz de Maria Bethânia e Gal Costa em 1978, cujo álbum ultrapassou um milhão de cópias vendidas.[1]

Dona Ivone Lara é homenageada pelo Império Serrano em 2012.

Em 2012, foi homenageada pelo Império Serrano, no grupo de acesso, com o enredo Dona Ivone Lara: O enredo do meu samba. Em 2010 foi a homenageada na 21.ª edição do Prêmio da Música Brasileira. Em dezembro de 2014 foi a homenageada na 19.ª edição do Trem do Samba.[24] Um mês antes, Dona Ivone havia participado do primeiro dia de gravações do Sambabook, em homenagem à sua carreira da gravadora Musickeria. Cantores como Maria BethâniaElba RamalhoCrioloZeca PagodinhoMartinho da VilaArlindo CruzAdriana CalcanhotoZélia Duncan e Reinaldo, O Príncipe do Pagode fizeram versões de canções de Dona Ivone, enquanto ela própria gravou com Diogo Nogueira uma canção inédita, composta com seu neto, André.[25] Em 2015, entrou para a lista das "Dez Grandes Mulheres que Marcaram a História do Rio".[26]

Foi interpretada por Roberta Rodrigues em 2016, para o filme Nise: O Coração da Loucura.[27] Em 2025, foi anunciado que um filme baseado na vida de Dona Ivone Lara estava sendo preparado, com roteiro de Elísio Lopes Jr. e dirigido por Mayara Aguiar.[28]

Discografia

  • 1970 - Sambão 70
  • 1972 - Quem samba fica?
  • 1974 - Samba minha verdade, minha raiz
  • 1979 - Sorriso de criança
  • 1980 - Serra dos meus sonhos dourados
  • 1981 - Sorriso negro
  • 1982 - Alegria minha gente
  • 1985 - Ivone Lara
  • 1986 - Arte do encontro (com Jovelina Pérola Negra)
  • 1998 - Bodas de ouro
  • 1999 - Um natal de samba (com Délcio Carvalho)
  • 2001 - Nasci para sonhar e cantar
  • 2004 - Sempre a cantar (com Toque de Prima)
  • 2009 - Canto de Rainha (DVD)
  • 2010 - Bodas de Coral (com Délcio de Carvalho)
  • 2010 - Nas escritas da vida (com Bruno Castro)
  • 2012 - Baú da Dona Ivone
  • 2015 - Sambabook Dona Ivone Lara (DVD)
  • 2015 - Sambabook Dona Ivone Lara (2 CDs)

Filmografia

Notas

  1.  A data oficial de nascimento que consta nos documentos de Ivone Lara é 13 de abril de 1921, como no seu registro eleitoral no TSE. Algumas fontes, como UOL Música, mencionam que Ivone morreu logo depois de completar 97 anos, assim seu ano de nascimento seria 1921. Outras fontes, como Portal G1, afirmam que ela morreu aos 96 anos, sendo portanto de 1922. Na biografia Dona Ivone Lara: a Primeira Dama do Samba[1] (página 18), o jornalista Lucas Nobile escreve que a mãe de Ivone Lara "aumentou a idade da filha em um ano", declarando o ano de nascimento 1921, para a emissão do documento de identidade, permitindo assim que a filha fosse matriculada na tradicional Escola Municipal Orsina da Fonseca em 1932. Naquele ano, Ivone ainda não tinha a idade mínima de ingresso, que era de onze anos.

Referências

  1.  Nobile, Lucas (2015). Dona Ivone Lara: A Primeira Dama do Samba. Col: Sambabook 1 ed. Rio de Janeiro: Sonora Editora. p. 230. ISBN 978-85-66567-16-8
  2.  «Sambista Ivone Lara morre aos 97 anos no Rio de Janeiro»Portal UOL. 16 de Abril de 2018. Consultado em 17 de Abril de 2018
  3.  «Morre no Rio cantora Dona Ivone Lara»Portal G1. 16 de Abril de 2018. Consultado em 17 de Abril de 2018
  4.  Ferreira dos Santos, Joaquim (19 de abril de 2018). «Dona Ivone Lara Cantora do Sonho e da Liberdade». Revista Época. Consultado em 15 de julho de 2020
  5.  «Morre D. Ivone Lara, enfermeira e ícone do samba brasileiro». Conselho Federal de Enfermagem COFEN. 17 de abril de 2018. Consultado em 15 de julho de 2020
  6.  «Dona Ivone Lara: enfermeira, a Rainha do Samba participou da luta antimanicomial». História Ciências Saúde Manguinhos. Abril de 2018. Consultado em 15 de julho de 2020
  7. «Em homenagem à Dona Ivone Lara, dia 13 de abril é instituído como Dia Nacional da Mulher Sambista». Gov.br. Abril de 2024. Consultado em 7 de abril de 2024
  8. Scheffer, Graziela (1 de dezembro de 2016). «Serviço Social e Dona Ivone Lara: o lado negro e laico da nossa história profissional». CREES. Consultado em 15 de julho de 2020
  9. «Dona Ivone Lara: sambista, enfermeira e "feminista sem saber"»Revista Opera. 21 de abril de 2021. Consultado em 9 de outubro de 2025
  10. Teixeira, Pollyana (17 de abril de 2018). «Dona Ivone Lara dedicou maior parte de sua vida à saúde pública». Saúde MG. Consultado em 15 de julho de 2020
  11.  «A militância por trás do 'Sorriso negro' de Dona Ivone Lara»O Globo. 13 de abril de 2021. Consultado em 9 de outubro de 2025
  12. Paiva, Vítor. «A nobreza e a elegância de uma rainha na vida e na obra de Dona Ivone Lara». Hypeness. Consultado em 15 de julho de 2020
  13.  «O sorriso negro de Ivone Lara no Sesc Vila Mariana»Sesc São Paulo. 12 de abril de 2024. Consultado em 9 de outubro de 2025
  14. «Antes de virar 'dama do samba', Dona Ivone Lara teve que superar machismo do meio». CBN. 17 de abril de 2018. Consultado em 9 de outubro de 2025
  15. «Sorriso de criança aos 75 Anos»Suplemento "Tribina Bis", do jornal Tribuna da Imprensa, disponível na Hemeroteca da Biblioteca Nacional. Rio de Janeiro. 3 de março de 1997. p. 5. Consultado em 5 de junho de 2024
  16. «Dona Ivone Lara»Dicionário Cravo Albin da Música Popular Brasileira. Consultado em 9 de outubro de 2025
  17. «Prisão de Moreira Franco teve ajuda de advogado de voo e de taxista na rua»Folha de S.Paulo. 22 de março de 2019. Consultado em 9 de outubro de 2025
  18. Freixo, Adriano. «Segurança Pública no Rio de Janeiro: um pouco de história (não tão) antiga»Orbis Boletim do LEPEB-UFF2 (5). Consultado em 9 de outubro de 2025
  19. Mauro Ferreira (30 de julho de 2020). «Discos para descobrir em casa – 'Samba minha verdade, samba minha raiz', Dona Ivone Lara, 1978»G1. Consultado em 16 de outubro de 2025
  20. «Nasci pra Sonhar e Cantar». Discos do Brasil. Consultado em 16 de outubro de 2025
  21. «Sambabook Dona Ivone Lara»Rolling Stone Brasil. 16 de junho de 2015. Consultado em 16 de outubro de 2025
  22. «Dona Ivone Lara - Tema»YouTube. Consultado em 16 de outubro de 2025
  23. «Dona Ivone Lara»Spotify. Consultado em 16 de outubro de 2025
  24. «Trem do Samba homenageia Dona Ivone Lara com shows e rodas». Portal G1. 6 de dezembro de 2014. Cópia arquivada em 18 de abril de 2018
  25. «Clima de festa marca gravação do "Sambabook" de Dona Ivone Lara». UOL Música. 2 de dezembro de 2014. Cópia arquivada em 18 de abril de 2018
  26. «Confira lista de grandes mulheres que marcaram a história do Rio; veja 10»Rio 450 anos. 8 de março de 2015
  27. Vinícius Volcof. «Nise – O Coração da Loucura (2015): amor como vocação». Cinema com Rapadura. Consultado em 9 de outubro de 2025
  28. «Vida de Dona Ivone Lara será contada em filme». O Globo. 6 de janeiro de 2025. Consultado em 16 de outubro de 2025
  29. «Doces recordações»Ocupação. Itaú Cultural. Consultado 

DONA IVONE LARA: A RAINHA DO SAMBA QUE TRANSFORMOU DOR EM CANÇÃO E HUMANIZOU A SAÚDE MENTAL
Há vozes que não apenas cantam, mas curam. Há composições que não apenas embalam, mas libertam. Dona Ivone Lara foi tudo isso e muito mais. Nascida Yvonne Lara da Costa no Rio de Janeiro, em 13 de abril de 1921, ela atravessou quase um século de história brasileira deixando um legado que transcende o samba: foi enfermeira, assistente social, pioneira na reforma psiquiátrica, compositora genial e, acima de tudo, uma mulher que soube transformar dor em beleza, silêncio em melodia e exclusão em protagonismo. Conhecida como Rainha do Samba e Grande Dama do Samba, foi a primeira mulher a assinar um samba-enredo e a integrar oficialmente a ala de compositores de uma escola de samba, o Império Serrano. Sua trajetória é um testemunho de que a arte e a humanidade podem caminhar juntas, e que a resistência, quando cantada, vira revolução.
Raízes Musicais e Infância Marcada pela Perda Dona Ivone veio ao mundo na rua Voluntários da Pátria, em Botafogo, Zona Sul do Rio de Janeiro. Filha da costureira Emerentina Bento da Silva e de João da Silva Lara, cresceu em um ambiente onde a música era linguagem cotidiana. Seu pai era violonista de sete cordas e desfilava no Bloco dos Africanos; sua mãe, soprano de voz afinada, emprestava seu talento a ranchos carnavalescos tradicionais como o Flor do Abacate e o Ameno Resedá, onde o casal se apresentava junto. Foi nesse caldo cultural que a pequena Yvonne aprendeu, antes mesmo de falar, que o samba era mais do que ritmo: era identidade, era memória, era resistência.
A vida, porém, cobrou seu preço cedo. Com menos de três anos, perdeu o pai. Aos dezesseis, perdeu a mãe. Criada pelos tios, encontrou neles não apenas acolhimento, mas continuidade musical: foi com o primo Mestre Fuleiro que aprendeu a tocar cavaquinho e a ouvir samba com ouvidos de quem entende. Teve aulas de canto com Lucília Guimarães, esposa do maestro Villa-Lobos, e recebeu elogios do próprio maestro, um reconhecimento que, na época, valia mais que qualquer troféu.
Formação Acadêmica e a Revolução Silenciosa na Saúde Mental Enquanto muitos viam na música um destino, Ivone via nela um complemento. Aos dezessete anos, ingressou na faculdade de enfermagem da atual Universidade Federal do Estado do Rio de Janeiro (UNIRIO), formando-se enfermeira. Aos 21, prestou concurso para o Ministério da Saúde; aos 25, foi contratada pelo Instituto de Psiquiatria do Engenho de Dentro. Lá, especializou-se em terapia ocupacional ao lado da médica psiquiatra Nise da Silveira, tornando-se peça fundamental na reforma psiquiátrica brasileira a partir da década de 1970.
Por mais de trinta anos, atuou na Colônia Juliano Moreira, cuidando de pacientes com doenças mentais em uma época em que o abandono era regra e o preconceito, lei. Ivone fazia o que poucos ousavam: saía a campo, percorria municípios do Rio e estados vizinhos, localizava familiares de internos para apresentar uma visão humana sobre diagnósticos que, até então, condenavam pessoas ao esquecimento. Sua abordagem era terapêutica, sim, mas também política: humanizar o tratamento era um ato de resistência.
Foi nesse contexto que trouxe a música para dentro do hospital. Usando seus contatos, conseguiu patrocínio para instrumentos e criou uma oficina de música que se tornou espaço de socialização entre pacientes, familiares e funcionários. Dessa oficina nasceu o bloco de carnaval "Loucura Suburbana", que existe até hoje, prova viva de que a arte pode ser ponte onde o muro parecia intransponível. Formou-se também em Serviço Social, tornando-se uma das primeiras assistentes sociais do Brasil e uma das primeiras mulheres negras a concluir um curso superior no país. Em 1977, aposentou-se da carreira na saúde para dedicar-se integralmente à música, mas jamais apagou a marca que deixou na história da reforma psiquiátrica.
O Samba como Destino: Da Primeiras Composições ao Reconhecimento Tardio A primeira música de Ivone Lara nasceu aos doze anos: "Tiê", inspirada em um pássaro tiê-sangue que ganhara dos primos Hélio e Antônio dos Santos. Antônio, o Mestre Fuleiro, acabou recebendo os créditos por muitas de suas composições iniciais, numa época em que a autoria feminina no samba era sistematicamente apagada. Foi ele quem, num ardil premeditado, apresentou na ala de compositores do Império Serrano sambas de Ivone como se fossem seus. Só quando as canções conquistaram o público é que revelou a verdadeira autoria.
Mesmo assim, o reconhecimento oficial demorou. Ivone só foi anunciada como integrante da ala de compositores do Império Serrano em 1963, após onze anos contribuindo com a escola. A historiadora Rachel Valença atribui essa demora ao machismo estrutural do meio: Ivone não assinava suas próprias composições porque, entre os compositores de samba, a palavra de uma mulher ainda não tinha o mesmo peso. Em 1965, porém, quebrou de vez essa barreira: passou a assinar sambas-enredo com seu próprio nome, começando por "Os Cinco Bailes da História do Rio". Tornou-se, assim, a primeira mulher a assinar um samba-enredo na história do carnaval carioca.
Consolidação Artística e Reconhecimento Nacional Em 1970, após se apresentar em programas como "Amigo da Madrugada", de Adelzon Alves, gravou seu primeiro disco, "Sambão '70", produzido por Alves e Osvaldo Sargentelli. Foi o início de uma discografia que atravessaria décadas, marcada por parcerias com grandes nomes como Délcio Carvalho, com quem compôs "Sonho Meu", sucesso absoluto na voz de Maria Bethânia e Gal Costa em 1978, em um álbum que ultrapassou a marca de um milhão de cópias.
Sua carreira não se limitou ao samba. Compôs jingles, atuou como atriz em filmes e especiais de televisão, interpretando inclusive a Tia Nastácia em adaptações do "Sítio do Pica-Pau Amarelo". Em 2008, participou do projeto "Samba Social Clube", registrando a faixa "Mas Quem Disse Que Eu Te Esqueço", incluída no ano seguinte em uma coletânea com as melhores performances do projeto.
Vida Pessoal: Amor, Perdas e Fé Em 4 de dezembro de 1947, casou-se com Oscar Costa, filho de Alfredo Costa, presidente da escola de samba Prazer da Serrinha. Tiveram dois filhos, Alfredo e Odir, e permaneceram casados por 28 anos, até a morte de Oscar. Foi no Prazer da Serrinha que Ivone conheceu parceiros que marcariam sua trajetória, como Mano Décio da Viola e Silas de Oliveira. Em 1975, uma tragédia abalou sua vida: seu filho Odir sofreu um acidente de carro, e Oscar, abalado, faleceu vítima de um infarto fulminante. Apesar de apoiar a carreira da esposa, Oscar não gostava das rodas de samba, um detalhe que Ivone sempre mencionou com respeito e saudade.
Em 2008, perdeu o filho Odir, vítima de complicações decorrentes da diabetes. Cada perda foi transformada em canção, cada dor em verso. Sua fé, especialmente a devoção a Nossa Senhora Aparecida, foi um alicerce que a sustentou nos momentos mais difíceis.
O Nome "Dona": Uma Marca Contra a Vontade Nascida Yvonne, adotou a grafia "Ivone Lara" para facilitar a popularização de seu nome artístico. O prefixo "Dona", que se tornaria inseparável de sua identidade, foi adicionado por Sargentelli e Alves contra sua vontade. Alguns álbuns, como "Samba Minha Verdade, Samba Minha Raiz" (1978), trazem "Dona Ivone Lara" na capa; outros, como "Sorriso Negro" (1981), mantêm a grafia original. Nas plataformas de streaming, prevalece a forma consagrada: Dona Ivone Lara.
Morte e Legado Eterno Dona Ivone Lara partiu em 16 de abril de 2018, aos 97 anos, vítima de insuficiência cardiorrespiratória, após três dias internada no Centro de Tratamento e Terapia Intensiva da Coordenação de Emergência Regional, no Leblon, Rio de Janeiro. Seu velório aconteceu na quadra do Império Serrano, sua escola do coração, em Madureira. O enterro foi no Cemitério de Inhaúma, mas sua música, essa, nunca foi enterrada.
Seu legado é imenso. Entre os intérpretes que gravaram suas composições estão Clara Nunes, Roberto Ribeiro, Maria Bethânia, Gal Costa, Caetano Veloso, Gilberto Gil, Paula Toller, Paulinho da Viola, Beth Carvalho, Mariene de Castro, Roberta Sá, Marisa Monte e Dorina. Em 2012, foi homenageada pelo Império Serrano, no grupo de acesso, com o enredo "Dona Ivone Lara: O enredo do meu samba". Em 2010, foi a homenageada na 21ª edição do Prêmio da Música Brasileira. Em dezembro de 2014, recebeu homenagem na 19ª edição do Trem do Samba. Em 2015, entrou para a lista das "Dez Grandes Mulheres que Marcaram a História do Rio".
Em 2016, foi interpretada por Roberta Rodrigues no filme "Nise: O Coração da Loucura", que retrata a atuação de Nise da Silveira na reforma psiquiátrica. Em 2025, foi anunciado que um filme baseado em sua vida está sendo preparado, com roteiro de Elísio Lopes Jr. e direção de Mayara Aguiar.
Dia Nacional da Mulher Sambista: Uma Homenagem que é Direito Em reconhecimento à sua trajetória pioneira, o dia 13 de abril, data de seu nascimento, foi instituído como Dia Nacional da Mulher Sambista. Mais do que uma homenagem, é um ato de justiça histórica: lembrar que o samba, construído majoritariamente por mãos masculinas, só se tornou plural quando mulheres como Dona Ivone ousaram ocupar espaços que lhes foram negados.
Conclusão: A Voz que Nunca Se Cala Dona Ivone Lara não foi apenas uma cantora. Foi uma revolucionária silenciosa que usou o cavaquinho como bisturi e a voz como bálsamo. Foi enfermeira que cuidou de corpos e almas, compositora que transformou dor em beleza, mulher negra que abriu portas onde havia muros. Sua história nos ensina que a arte não é luxo, mas necessidade; que a memória não é passado, mas presente; e que a resistência, quando cantada, vira legado.
Enquanto houver samba, haverá Dona Ivone. Enquanto houver mulheres lutando por espaço, haverá sua voz ecoando como farol. Enquanto houver dor que precise de cura, haverá sua melodia como abraço. Rainha do Samba, sim. Mas, acima de tudo, rainha da humanidade.
IOEIA
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