domingo, 19 de abril de 2026

DONA ONETE: A DIVA DO CARIMBÓ CHAMEGADO QUE FLORESCU TARDE E CONQUISTOU O MUNDO

 

Dona Onete
OMC
Nome completoIonete da Silveira Gama
Conhecido(a) porDona Onete
Nascimento
18 de junho de 1939 (86 anos)

Etniaafro-brasileira
Ocupação
  • Cantora
  • compositora
  • sindicalista
  • poetisa
Período de atividade2012–presente
Carreira musical
Gênero(s)
Instrumento(s)Vocais

Ionete da Silveira Gama OMC (Cachoeira do Arari18 de junho de 1939), conhecida pelo nome artístico de Dona Onete, é uma cantora, compositora, sindicalista, professora e poetisa brasileira.[1]

Nascida no interior do estado do Pará, morou em Belém, onde passou sua infância, e depois em Igarapé-Miri. Foi Secretária de Cultura e Professora de História e Estudos Paraenses. Ela fundou e também organizou grupos de danças folclóricas e agremiações carnavalescas.[1] Dona Onete é considerada a "Diva do carimbó chamegado".[2]

Biografia

Morou no bairro da Pedreira, em Belém, dos quatro aos dez anos, até a morte de sua mãe por pneumonia, quando passou a morar com sua avó, mãe de seu padrastro, no muncípio de Igarapé-Miri[3]

Desde os quatro anos de idade, se destacava ao participar de manifestações culturais populares do seu estado como as "Pastorinhas", encenações natalinas que versavam sobre Jesus Cristo, e rodas de carimbó, siriá e banguê. Além disso, também se apresentava em shows de rua e no Bar Suburbana, no bairro de Fátima, em Belém[4]

Já na fase adulta, Dona Onete lecionou durante 25 anos a disciplina de História e Estudos Paraenses, fundou grupos de dança e música regional como o Grupo Folclórico Canarana, em 1989, que fazia apresentações de carimbó, benguê e lundu pelo estado do Pará, dançando suas composições autorais. Também atuou como Secretária de Cultura, entre 1993 e 1995, onde criou a Casa Ribeirinha, para resgatar manifestações culturais das populações tradicionais, e fortaleceu o lado artístico dos festivais do município relacionados com o extrativismo, como o Festival do camarão e do açaí, incluindo apresentações musicais, de grupos escolares e folclóricos. [5][6]

Dona Onete também fez sua vida na militância, se destacando como sindicalista, sendo uma das fundadoras do Sindicato dos Trabalhadores e das Trabalhadoras em Educação Pública do Pará (Sintepp), integrante do Partido dos Trabalhadores e esteve na inauguração da Central Única dos Trabalhadores (CUT) em São Bernardo do Campo, em 1983. [6][3] Participou de mobilizações por melhoras no ensino e nas condições de trabalho dos professores e pelo cultivo sustentável do açaí. [6]

Depois de aposentada, já aos 62 anos de idade, Dona Onete cantava em casa sozinha, enquanto um grupo de Carimbó ensaiava do outro lado da rua. Ao ouvirem-na cantando, foram a sua casa e se decepcionaram por conta de sua idade avançada. Dois dias depois do ocorrido um outro grupo viera perguntar à cantora se gostaria de ser uma das vocalistas da equipe. Dessa forma, participou de importantes grupos folclóricos como o Raízes do Cafezal. [7]

Já no começo do anos 2000 passou a participar do grupo pop com raízes regionais Coletivo Radio Cipó, de Belém, passando de convidada ocasional para a porta-voz do movimento musical da região. [8]

Recebeu a oportunidade de interpretar no cinema uma cantora de carimbó no filme Eu Receberia as Piores Notícias dos Seus Lindos Lábios, estrelado por Camila Pitanga.

Carreira

Em 2012, aos 73 anos, utilizando parte de 300 músicas que já havia escrito, Dona Onete grava e lança seu primeiro CD, Feitiço Caboclo, produzido pelo músico Marco André, o que fez com que produtoras estrangeiras começaram a se interessar pela cantora, em países como PortugalFrança e Inglaterra, onde fez shows. [5]

No ano seguinte, em 2013, Dona Onete lança no Hall Ismael Nery, no andar térreo do Centur, em Belém, sua biografia denominada "Menina Onete - Travessias & Travessuras" escrita e editada pelo antropólogo Antônio Maria de Souza Santos e pela pedagoga Josivana de Castro Rodrigues com o objetivo de resgatar sua infância e histórias de vida. [4]

No ano de 2016, Dona Onete lança seu segundo álbum com músicas inéditas, Banzeiro, com previsão de lançamento de seu primeiro DVD ao vivo ao fim deste ano. Também em 2016, Dona Onete fez sua primeira turnê nos Estados Unidos, totalizando cinco shows e o ultimo deles em Nova Iorque com presença de David Byrne e Caetano Veloso[9]

No mesmo ano, a cantora participa dos Jogos Olímpicos de 2016, no Rio de Janeiro, como uma das atrações musicais. [10]

Viu músicas como "Jamburana" e "Feitiço Caboclo" integrarem a trilha sonora de novelas de sucesso na Rede Globo, destacando-se especialmente, já no ano de 2017, sua música "Boto Namorador" na novela das 9 da A Força do Querer. Além disso, se apresentou em várias ocasiões em programas da emissora e outras TVs do Brasil e exterior, como especiais para rádios europeias (incluindo dois shows na BBC de Londres). [9]

Em julho de 2017 Dona Onete foi capa da maior revista de world music no mundo, a Songlines, e fez sua quarta turnê na Europa passando por grandes festivais como Rudolstadt Festival na Alemanha, Zwarte Cross na Holanda, WorldWide Festival em Sète, na França (do DJ e produtor Gilles Peterson). Nos meses de junho/julho foi a única artista brasileira a integrar o World Music Charts Europe Top 20 com a faixa "Banzeiro".

No mesmo ano foi indicada ao Prêmio da Música Brasileira, como Melhor Cantora Regional, e nomeada para a Ordem do Mérito Cultural.[11]

Em 2018 é lançado o documentário Dona Onete - Flor da Lua, do diretor Vladimir Cunha, um filme que mostra o primeiro registro da carreira musical da cantora, entrevistas produzidas especialmente para o DVD e trechos de show no Teatro Margarida Schivasappa. [12]

Dona Onete e Mestre Damasceno no Festival Pará, no Museu do Pontal, 2023. Foto de Guto Nunes.

Em 2019, Onete lança seu disco Rebujo, eleito um dos 25 melhores álbuns brasileiros do primeiro semestre do ano de sei lançamento pela Associação Paulista de Críticos de Arte.[13] No mesmo ano, para celebrar a cultura paraense, a cantora participa do festival Rock in Rio juntamente com outros conterrâneos como Fafá de BelémGaby Amarantos, Lucas Estrela, Jaloo e Manoel Cordeiro[14]

Em 2021, participa da faixa "Última Lágrima", ao lado da Elza Soares e Alcione, no álbum Purakê (2021) da cantora paraense Gaby Amarantos, sua segunda colaboração com a conterrânea, sendo a primeira a faixa "Mestiça", do álbum Treme (2012). [15]

Em 2023, Dona Onete foi homenageada com a exposição Ocupação Dona Onete, em cartaz no Itaú Cultural, na capital paulista, que contou com 120 itens, entre fotos, vídeos, músicas, manuscritos e depoimentos. [16][17]

Em setembro de 2023, Dona Onete foi homenageada no Festival Pará, no Museu do Pontal, que é considerado o maior e mais significativo museu de arte popular do país, localizado no Rio de Janeiro. O Festival também contou com a participação de outros artistas paraenses, como Mestre Damasceno (Salvaterra - Marajó), mestre da cultura popular marajoara; o artesão ceramista Ronaldo Guedes (Soure - Marajó), do Ateliê Arte Mangue Marajó; a percussionista marajoara Milene Pinheiro (Soure - Marajó) e o guitarrista e percussionista Félix Robatto (Belém). O Festival Pará também recebeu a Ocupação Dona Onete e os Contos de Dona Onete, que tem como autora a paraense Josivana Rodrigues, neta da artista homenageada.[18][19][20][21]

Vida Pessoal

Casou-se com 19 anos com seu primeiro marido, um homem ciumento que a impedia de viver de suas músicas, obrigando-a a escrevê-las escondida. [8]

Após começar a atuar como professora e conquistar um salário para se manter sozinha, decidiu se separar, casando-se novamente mais tarde com seu segundo marido, que acabou falecendo em 2011. [22]

Tem dois filhos, cinco netos e cinco bisnetos. [3]

Em 2022, ficou por mais de um mês internada em uma Unidade de Terapia Intensiva (UTI) de um hospital em Belém, em decorrência de uma pneumonia. [3]

Discografia

  • Feitiço Caboclo (2012)[23]
  • Banzeiro (2016)[24]
  • Flor da Lua [Live] (2018)[25]
  • Rebujo (2019)
  • Bagaceira (2024)
DONA ONETE: A DIVA DO CARIMBÓ CHAMEGADO QUE FLORESCU TARDE E CONQUISTOU O MUNDO
Ionete da Silveira Gama, nascida em 18 de junho de 1939 em Cachoeira do Arari, no interior do Pará, é muito mais do que um nome artístico. Conhecida mundialmente como Dona Onete, ela é a voz ancestral da Amazônia, a professora que virou poeta, a sindicalista que lutou por direitos e, acima de tudo, a incontestável "Diva do carimbó chamegado". Sua trajetória desafia a lógica convencional da indústria cultural: só gravou seu primeiro álbum aos 73 anos, mas, com a força de quem carregou séculos de tradição nos ombros, levou o ritmo paraense aos palcos da Europa, dos Estados Unidos e às maiores vitrines do planeta. Em reconhecimento à sua contribuição inestimável à cultura nacional, foi agraciada com a Ordem do Mérito Cultural, selo que coroou uma vida dedicada à arte, à educação e à resistência.
Raízes Amazônicas e o Berço Cultural Cresceu entre o lodo dos rios e o compasso dos tambores. Dos quatro aos dez anos, viveu no bairro da Pedreira, em Belém, até que a pneumonia levasse sua mãe. Foi então encaminhada para Igarapé-Miri, onde a avó materna e o padrasto lhe ofereceram abrigo e, mais importante, um berço cultural. Desde menina, já se destacava nas Pastorinhas, encenações natalinas que narravam a história de Cristo, e nas rodas de carimbó, siriá e banguê. O Bar Suburbana, no bairro de Fátima, em Belém, foi um dos primeiros palcos onde sua voz, ainda tímida, começava a encontrar ressonância. A música não era passatempo; era idioma materno, herança transmitida entre gerações de ribeirinhos e festeiros.
A Educadora, a Gestora e a Sindicalista A vida adulta a levou a salas de aula e a assembleias. Por 25 anos, lecionou História e Estudos Paraenses, formando gerações conscientes de sua própria identidade e do valor da memória regional. Mas Dona Onete não se limitou à lousa. Em 1989, fundou o Grupo Folclórico Canarana, levando carimbó, benguê e lundu por todo o estado, sempre com composições autorais que celebravam a alma amazônica. Entre 1993 e 1995, como Secretária de Cultura de Igarapé-Miri, idealizou a Casa Ribeirinha, um projeto de resgate das tradições das populações tradicionais, e fortaleceu festivais ligados ao extrativismo, como os do camarão e do açaí, transformando a cultura em política pública e motor de desenvolvimento local.
Paralelamente, sua militância a colocou na linha de frente da defesa dos trabalhadores. Foi uma das fundadoras do Sindicato dos Trabalhadores e das Trabalhadoras em Educação Pública do Pará (Sintepp), integrou o Partido dos Trabalhadores e marcou presença na fundação da Central Única dos Trabalhadores (CUT) em São Bernardo do Campo, em 1983. Lutou por melhores condições para professores e pelo cultivo sustentável do açaí, provando que arte, educação e justiça social caminham juntas.
O Despertar Tardio da Voz A aposentadoria, que para muitos é sinônimo de descanso, foi para ela o início da sinfonia. Aos 62 anos, cantava sozinha em casa enquanto um grupo de carimbó ensaiava na rua vizinha. Atraídos pela voz, foram até ela, mas recuaram ao descobrir sua idade, preconceito que a indústria musical ainda nutria contra artistas maduros. Dias depois, outro grupo bateu à sua porta. Dessa vez, o convite foi aceito. Assim, Dona Onete se juntou ao Raízes do Cafezal e, no início dos anos 2000, tornou-se a porta-voz do Coletivo Radio Cipó, levando a música regional para novas platéias e consolidando-se como referência do movimento cultural de Belém. Sua versatilidade também a levou ao cinema, onde interpretou uma cantora de carimbó no premiado "Eu Receberia as Piores Notícias dos Seus Lindos Lábios", ao lado de Camila Pitanga.
Consagração Nacional e Internacional O ano de 2012 marcou o ponto de virada. Aos 73 anos, lançou "Feitiço Caboclo", seu primeiro álbum, com produção de Marco André e um catálogo de mais de 300 composições acumuladas ao longo da vida. O disco abriu portas internacionais: Portugal, França e Inglaterra a receberam como uma embaixadora da floresta. Em 2013, sua história foi eternizada no livro "Menina Onete - Travessias & Travessuras", lançado no Hall Ismael Nery, em Belém.
Em 2016, veio "Banzeiro", ano em que fez sua primeira turnê nos Estados Unidos, encerrando em Nova York com a presença de David Byrne e Caetano Veloso. No mesmo ano, brilhou nos Jogos Olímpicos do Rio e viu suas músicas, como "Jamburana" e "Feitiço Caboclo", ecoarem em novelas da Globo. "Boto Namorador" ganhou as ondas em "A Força do Querer". A imprensa mundial a notou: em julho de 2017, foi capa da "Songlines", principal revista de world music do planeta, e excursionou pela Europa, passando por Rudolstadt, Zwarte Cross e o WorldWide Festival. "Banzeiro" entrou para o Top 20 do World Music Charts Europe. Foi indicada ao Prêmio da Música Brasileira como Melhor Cantora Regional e nomeada para a Ordem do Mérito Cultural.
Em 2018, o documentário "Dona Onete - Flor da Lua", do diretor Vladimir Cunha, registrou sua jornada com entrevistas inéditas e trechos de shows. Em 2019, lançou "Rebujo", eleito pela Associação Paulista de Críticos de Arte entre os 25 melhores álbuns do ano, e dividiu o palco do Rock in Rio com Fafá de Belém, Gaby Amarantos, Lucas Estrela, Jaloo e Manoel Cordeiro, levando a cultura paraense para um dos maiores festivais do mundo. Em 2021, uniu vozes com Elza Soares e Alcione na faixa "Última Lágrima", no álbum "Purakê", de Gaby Amarantos, renovando uma parceria que já havia rendido a música "Mestiça", em 2012.
Em 2023, o Itaú Cultural a homenageou com a "Ocupação Dona Onete", exibindo 120 itens de sua trajetória, entre fotos, vídeos, manuscritos e depoimentos. No mesmo ano, o Museu do Pontal, no Rio de Janeiro, a celebrou no Festival Pará, ao lado de mestres como Damasceno, Ronaldo Guedes, Milene Pinheiro e Félix Robatto, enquanto seus contos ganhavam livro pela neta Josivana Rodrigues, garantindo que a memória familiar se tornasse patrimônio literário.
Vida Pessoal: Amor, Perdas e Resiliência Por trás dos holofotes, uma mulher que enfrentou a vida com estoicismo. Casou-se aos 19 anos com um homem ciumento que a proibia de viver a música, obrigando-a a compor em segredo. Ao conquistar independência financeira como professora, rompeu o casamento e seguiu seu caminho. Mais tarde, uniu-se a um segundo marido, companheiro que a apoiou até seu falecimento, em 2011. É mãe de dois filhos, avó de cinco e bisavó de cinco. Em 2022, enfrentou uma pneumonia grave que a manteve por mais de um mês na UTI em Belém, mas, fiel à sua natureza, levantou-se novamente, provando que a força que a fez cantar aos 73 anos ainda pulsava forte.
Legado: A Voz que Não Tem Prazo de Validade Dona Onete não é apenas uma cantora tardia. É um monumento vivo da resistência cultural amazônica. Sua voz carrega o barro do rio, o suor da professora, a força da sindicalista e a doçura da avó. Ela prova que o talento não tem data de validade, que a tradição não é relíquia do passado, mas semente do futuro, e que a mulher paraense, muitas vezes invisibilizada, é a própria força motriz da cultura brasileira. Quando ela canta, o carimbó não dança apenas nos pés; ele pulsa no peito, convoca a memória e reafirma que a Amazônia não é apenas geografia, é identidade, é ritmo, é vida.
Enquanto houver rios a correr, tambores a ecoar e vozes dispostas a contar suas próprias histórias, a Diva do Carimbó Chamegado seguirá reinando, não pela fama, mas pela verdade. E sua música, como o carimbó que nasceu do encontro entre o indígena e o africano, continuará a ser o batimento cardíaco de um Brasil que sabe dançar mesmo quando o chão treme.
IOEIA
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