Em 1798 participou da Conjuração Baiana, sendo detido quando da repressão que se seguiu a esse movimento rebelde, envolvendo-se posteriormente na Revolução Pernambucana, em 1817. Em 1821 foi deputado pela Província da Bahia às Cortes Constitucionais em Lisboa, identificando-se com a ala mais radical da deputação ao personificar um nativismo exaltado, o que enfureceu os deputados portugueses.
Diante dessa reação Cipriano Barata preferiu retornar ao Brasil, mas como não lhe deixaram desembarcar em Salvador, estabeleceu-se no Recife. O fim da censura, em 1821, não havia impedido que a Corte se valesse da imprensa para tentar manter a colônia sob seu domínio, e assim, para cada jornal que nascia na oposição, surgiam muitos outros combatendo a independência. Na capital pernambucana ele estreou na imprensa através da Gazeta de Pernambuco, defendendo publicamente a separação de Portugal e denunciando desde as pretensões absolutistas de D. Pedro à ameaça de nova colonização do Brasil, além do perigo que pairava sobre a Assembléia Nacional Constituinte. Pouco depois fundou o próprio veículo de comunicação, o jornal Sentinela da Liberdade na Guarita de Pernambuco, cujo primeiro exemplar foi entregue aos leitores no dia 9 de abril de 1823. O jornal saía às quartas-feiras, mostrando em linguagem vigorosa e criativa o que merecia ser criticado no governo imperial.
Eleito deputado pela Bahia negou-se a participar da Assembléia Constituinte, percebendo-a “cercada de mais de sete mil baionetas, tropas formadas de grande número de nossos inimigos portugueses”, razão pela qual não poderia “discutir uma constituição liberal e sustentar os sagrados direitos dos meus constituintes entre os estrondos de artilharia, e com espadas na garganta”. Essas afirmações foram proferidas em 7 de novembro de 1823, poucos dias antes do fechamento e dissolução da Assembléia pelas tropas enviadas por D. Pedro I. Materializado este fato, Cipriano Barata deu voz ao sentimento da Província referindo-se à: “(…) desconfiança não pequena em que se acham todos os habitantes desta província pelo extraordinário acontecimento que teve lugar nesta Corte, em o dia 12 de novembro do referido ano; receando, com grande inquietação, o restabelecimento do antigo e sempre detestável despotismo, a que estão dispostos a resistir corajosamente”.
As críticas valeram-lhe a detenção (assim como a João Mendes Viana, redator do Escudo da Liberdade do Brasil), por ordem do Imperador, sob a acusação de ser inimigo do governo do Rio de Janeiro. Isso aconteceu no dia 17 do mesmo mês de novembro, feito que valeu a seu autor, Francisco Pais Barreto, o título de barão do Recife. Por essa razão Cipriano Barata se viu impossibilitado de participar diretamente da Confederação do Equador, em 1824, mas mesmo trancafiado no calabouço continuou a editar o seu jornal, cujo nome foi modificado para “Sentinela da Liberdade na Guarita de Pernambuco Atacada e Presa na Fortaleza do Brum por Ordem da Força Armada e Reunida”.
Essa ousadia foi punida com a sua transferência para a Fortaleza de Santa Cruz, no Rio de Janeiro. Continuando a denunciar as mazelas do regime, acabaria passando por diversas fortalezas, e a cada vez que isso acontecia, causava ao mesmo tempo a mudança do título da publicação. Na medida em que o transferiam de prisão, soltava um novo jornal, criando dessa forma o jornalismo do cárcere. Por isso, o Sentinela da Liberdade, que por tantas vezes teve suas edições interrompidas, recebeu vários complementos em seu nome, de acordo com o lugar em que Barata esteve preso: Sentinela da Liberdade na Guarita de Pernambuco, Sentinela da Liberdade na Guarda do Quartel General, Sentinela da Liberdade na Guarita de Villegaignon.
Finalmente libertado em 1830, regressou para a Bahia, onde publicou a “Sentinela da Liberdade na Guarita do Quartel-General de Pirajá”. Usando-o como veículo de divulgação das suas idéias, o que fazia sem receio, voltou a ser preso por diversas vezes, sem jamais abandonar o seu ideário. Em 1836 abandonou o jornalismo e a política, fixando-se em Natal, no Rio Grande do Norte, como professor de língua francesa, aonde veio a falecer dois anos mais tarde, aos setenta e seis anos de idade.
O Sentinela da Liberdade inspirou a criação, no país, de dezenas de outros jornais com esse mesmo nome. Barata foi um dos pioneiros da liberdade de imprensa e, em 1823, escreveu: “Toda e qualquer sociedade onde houver imprensa livre está em liberdade; que esse povo vive feliz e deve ter alegria, segurança e fortuna; se, pelo fato contrário, aquela sociedade ou povo que tiver imprensa cortada pela censura prévia, presa e sem liberdade, seja debaixo de que pretexto for, é povo escravo que pouco a pouco há de ser desgraçado até se reduzir ao mais brutal cativeiro”.
O historiador Marco Morel, pesquisador da Uerj e especialista em história da imprensa no Brasil, organizou e editou o livro “Sentinela da Liberdade e outros escritos (1821-1835)”, lançado pela Editora da Universidade de São Paulo. Sobre Cipriano Barata, ele diz que “foi um dos pioneiros da imprensa no Brasil e encarnava um amplo projeto alternativo de sociedade que não foi o predominante”, e sobre sua obra o autor esclarece que nela “Há algumas preciosidades, como a corajosa dissertação sobre torturas nas prisões militares no governo de D.Pedro I, bem como um manifesto lúcido e contundente contra a criação da primeira condecoração honorífica brasileira, a Ordem do Cruzeiro do Sul, prenúncio, em 1822, de uma nação desigual”.
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