Pouco tempo depois obteve por concurso o lugar de oficial da Biblioteca Nacional, trabalhando nessa função de 1879 a 1883. Nesse meio tempo, participando de concurso para preenchimento da vaga de professor de História do Brasil no Colégio Pedro II (1880), conseguiu a melhor classificação entre os demais candidatos ao defender a tese O descobrimento do Brasil e o seu desenvolvimento no século 16, sendo por isso contratado (23 de julho de 1883) pelo estabelecimento de ensino e permanecendo nele até o ano de 1899, ano em que o colocaram em disponibilidade por extinção da cadeira.
Sobre essa passagem, sabe-se que quando Epitácio Pessoa, então ministro da Justiça, determinou anexar o ensino de história do Brasil ao de história universal, Capistrano recusou-se a lecionar a nova disciplina, preferindo manter-se em disponibilidade para se dedicar à pesquisa.
Eleito em 1887 como membro do Instituto Histórico e Geográfico Brasileiro, Capistrano de Abreu tornou-se reconhecido como o patrono da historiografia brasileira, sendo responsável pela renovação dos métodos de investigação e interpretação historiográfica no Brasil. No início de seus estudos ele pretendia descobrir “as leis fatais que regem a sociedade brasileira”, mas a leitura de pensadores alemães o convenceu de que somente a pesquisa cuidadosa e imparcial das fontes poderia conferir um caráter objetivo às suas interpretações.
O historiador morreu no Rio de Janeiro em 13 de agosto de 1927, deixando como seus trabalhos mais importantes os livros Capítulos de História Colonial, 1500-1800, Ensaios e Estudos, O Brasil no século 16, Caminhos antigos e o povoamento do Brasil, O descobrimento do Brasil pelos portugueses, e Rã-txa hu-ni-ku-í, a língua dos caxinauás, um estudo excelente sobre a linguagem, a vida econômica, os costumes e folclores dos índios caxinauás.
A Pontifícia Universidade Católica (www.dbd.puc-rio.br/brasil500anos) guarda em seu arquivo “Brasil 500 anos – Obras raras relacionadas do descobrimento do Brasil”, o seguinte texto sobre Capistrano de Abreu, publicado pelo “Annuário do Brasil, 1929”:
João Capistrano de Abreu nasceu na província do Ceará em 1853. Como muitos de seus contemporâneos do “Norte” do Império, ainda jovem dirigiu-se ao Recife, mas não conseguiria ingressar na tradicional Faculdade de Direito. Em 1875 chegaria à Corte imperial, onde por meio de um feixe de relações pessoais conseguiria engajar-se na atividade jornalística. Foi, sobretudo, como redator da Gazeta de Notícias que Capistrano de Abreu pode se dedicar ao exercício da crítica e à produção de textos de história da literatura, participando das polêmicas que distinguiam o ambiente intelectual do Rio de Janeiro. Nomeado por concurso para os quadros da Biblioteca Nacional, passou a exercer de modo mais sistemático e constante a pesquisa histórica, começando a dar forma e conteúdo à idéia que acalentava desde sua terra natal de escrever a história do Brasil “a grandes traços e largas malhas”.
Em 1883, troca a Biblioteca Nacional pelo Imperial Colégio de Pedro II, por meio de concurso que se tornaria famoso, assistido pelo próprio imperador Dom Pedro II. Sua tese intitulada “Descobrimento do Brasil. Seu desenvolvimento no século XVI” concluía terem sido os espanhóis os primeiros a chegar ao território brasileiro, mas que “sociologicamente falando, os descobridores do Brasil foram os portugueses. Neles inicia-se a nossa história; por eles se continua por séculos; a eles se devem principalmente os esforços que produziram uma nação moderna e civilizada em território antes povoado e percorrido por broncas tribos nômades”.
Por seis anos Capistrano lecionaria no estabelecimento modelar, demitindo-se da função que exercia por não estar de acordo com a reforma que anexava a história do Brasil à história universal. Desde então, dedicar-se-ia quase que exclusivamente à pesquisa e à escrita da história do Brasil. Publicados em 1907, os Capítulos de História Colonial consagrariam-no definitivamente como um dos principais historiadores brasileiros.
Isto porque, conforme destaca Ricardo Benzaquen de Araújo, Capistrano é o historiador que talvez tenha melhor encarnado entre nós o ideal da busca “moderna” da verdade, assim como por ter sempre demonstrado um enorme interesse em relação aos trabalhos de sociólogos franceses e ingleses, como Taine, Comte, Buckle e Spencer, interesse que mais tarde irá se estender a autores ligados à antropologia e à geografia, principalmente de origem alemã, condição para a interpretação reveladora de um sentido que também deveria definir, a seu juízo, o fazer historiográfico.
Em O descobrimento do Brasil – edição da Sociedade Capistrano de Abreu, de 1929 – aparecem reunidos dois trabalhos sobre o mesmo assunto, escritos em épocas distintas: a tese de concurso para o Colégio Pedro II, redigida em 1883; e “O Descobrimento do Brasil – Povoamento do Solo – Evolução Social”, texto de abertura do primeiro volume do Livro do Centenário , 1500-1900, publicado dezessete anos depois.
A leitura de ambos os textos possibilita muito mais do que simplesmente conhecer como o historiador cearense resolveu a maior parte dos denominados “pontos controversos” do Descobrimento do Brasil, por meio do exercício do “método crítico”. O cotejo entre ambos possibilita, entre outras coisas, a compreensão das duas dimensões constitutivas do fazer historiográfico relacionado ao que se costuma denominar de concepção moderna de História – aquele método e a narrativa que encerra um sentido -, intensamente experimentada por Capistrano de Abreu.
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