A doze léguas dali ele formou o terceiro colégio regular do Brasil (25.01.1554), dia em que a Igreja celebra a conversão de São Paulo, e por isso o lugar foi consagrado ao apóstolo desse nome. Por ocasião da revolta dos índios tamoios (Confederação dos Tamoios), foi refém deles (1564), na praia de Iperoig (hoje Ubatuba, SP), enquanto o padre Manuel da Nóbrega discutia as condições de paz com os portugueses. Retornando a Piratininga foi nomeado reitor do Colégio de São Vicente, e elevado em 1578 à dignidade de provincial (superior) do Brasil. Chamado pelos gentios de payé-guaçu (amarra-mãos), e de santo pelos portugueses, o sacerdote apresentava-se desarmado diante de índios menos amigos, e obtinha triunfos extraordinários.
Transferido para o atual estado do Rio de Janeiro, participou ativamente da fundação da cidade e foi de importante atuação na expulsão dos invasores franceses calvinistas que ali pretendiam instalar uma colônia.. Fundou a Santa Casa da Misericórdia no Rio de Janeiro (1582). Desenvolveu sua atividade missionária também na Bahia, em Pernambuco e finalmente mudou-se para o Espírito Santo (1587), onde passou a se dedicar à organização de várias aldeias indígenas, até que morreu em Reritiba, hoje Anchieta.
De profícua produção intelectual e artística, foi autor de uma Gramática da língua geral dos índios do Brasil e deixou boa produção poética onde usava enfaticamente a música, embora, infelizmente, essas não tenham sido registradas nos autos que relatam sua vida missionária. Por seu trabalho religioso e artístico pioneiro, foi escolhido como Patrono da Cadeira n. 1 da Academia Brasileira de Música.
A segunda foi a “Arte de gramática da língua mais usada na costa do Brasil”, contendo os fundamentos da língua tupi, publicada em Coimbra, 1595, é o livro iniciador dos estudos lingüísticos na América portuguesa e a primeira gramática de uma língua indígena”. Entre as suas contribuições culturais se incluem as poesias em verso medieval, sobretudo o poema De Beata Virgine Dei Matre Maria, melhor conhecido como Poema à Virgem, com 4.172 versos, além de outros trabalhos interessantes para a História do Brasil, como a Vida dos Religiosos da Companhia Brasileira de Jesus e uma Dissertação sobre a História Natural do Brasil.
Foi ele também autor de uma espécie de ‘certidão de nascimento’ do Rio de Janeiro, quando redigiu sua carta de 9 de julho de 1565 ao Padre Diogo Mirão, dando conta dos acontecimentos ocorridos ali “no último dia de fevereiro ou no primeiro dia de março” do ano.
Nela se encontram os seguintes trechos: “…logo no dia seguinte, que foi o último de fevereiro ou primeiro de março, começaram a roçar em terra com grande fervor e cortar madeira para cerca, sem querer saber nem dos tamoios nem dos franceses.“. A sua vasta obra literária só foi totalmente publicada no Brasil na segunda metade do século 20.
Anchieta era conhecido por sua grande disposição para caminhadas, o que o levava a percorrer, duas vezes por mês, a trilha litorânea entre Reritiba e a ilha de Vitória, com pequenas paradas para pregação e repouso, nas localidades de Guarapari, Setiba, Ponta da Fruta e Barra do Jucu. Atualmente, esse trecho de 105 quilômetros vem sendo coberto a pé por turistas e peregrinos, à semelhança do que é feito no Caminho de Santiago, na Espanha.
Embora a campanha para a sua beatificação tenha sido iniciada na Capitania da Bahia em 1617, só foi beatificado em Junho de 1980 pelo Papa João Paulo II. Ao que se compreende, a perseguição do marquês de Pombal aos jesuítas havia impedido, até então, o trâmite do processo iniciado no século XVII.
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