segunda-feira, 11 de junho de 2018

Antônio Maria Araújo de Morais


ANTONIO MARIAAntônio Maria Araújo de Morais nasceu no dia 17 de março de 1921, em Recife, Pernambuco, passando sua infância entre o engenho do avô e o velho sobrado na cidade. Foi aluno do Colégio Marista e estudante de piano e língua francesa, mas tornou-se boêmio no final da adolescência, passando a buscar os prazeres noturnos em bares da cidade. Descendente de uma família de usineiros, estagiou como técnico de irrigação de cana-de-açúcar na usina da família, cujos bens foram divididos e vendidos posteriormente, por motivo de falência. Sobre isso, Antônio Maria esclarecia: “Um dia amanhecemos pobres, nossos automóveis foram ser carros de praça, o veraneio da praia ficou para quando Deus desse bom tempo”.
Admitido na Rádio Clube de Pernambuco em 1934, como locutor e apresentador de programas musicais, em pouco tempo tornou-se tão conhecido como alguns profissionais ilustres da época. Anos depois (1940), no Rio de Janeiro, foi contratado como locutor esportivo na Rádio Ipanema, mas acabou dispensado devido ao seu estilo peculiar de irradiar os jogos. Desempregado, freqüentou durante algum tempo os bares cariocas e neles improvisava sambas com seu amigo Fernando Lobo, mas o prolongamento dessa situação o forçou a retornar ao Recife, onde passou a trabalhar em jornais e a produzir músicas para publicidade, além da locução esportiva.
Em 1944, Antônio Maria casou-se com Mariinha Gonçalves Ferreira, irmã do seu amigo Hugo Peixa, e foi morar em Fortaleza, trabalhando na Rádio Clube do Ceará durante quase um ano. Mas logo retornou ao Rio de Janeiro para exercer o cargo de diretor de produção da Rádio Tupi, além de publicar crônicas no periódico O Jornal, a assinar as colunas “A noite é Grande”; no Diário Carioca, “Pernoite”, na Revista Manchete, e também nos jornais O Globo e Última Hora. Por trabalhar no horário noturno, muitos diziam que ele era um repórter das noites cariocas. Admitido em 20 de janeiro de 1951 como diretor de produção na TV Tupi, primeira televisão brasileira, ali exerceu inúmeras atividades: atuando na locução esportiva, nos jingles, nos roteiros dos espetáculos, no humorismo e na crônica.
Antônio Maria costumava cantarolar as músicas e fazer as letras na medida em que criava as melodias. O seu primeiro frevo, intitulado Frevo nº 1 do Recife, trabalho integrante de uma série de cinco frevos, foi composto em 1951. Neste mesmo ano ele criava o samba Querer bem, em parceria com Fernando Lobo, mas o seu grande sucesso como compositor viria somente a partir de 1952, ano em que a cantora Nora Ney iria lançar o samba-canção Ninguém me ama, como também o samba-acalanto Menino grande, que Antônio Maria produzira em parceria com Fernando Lobo. Em 1955, o compositor adquiria novas e importantes parcerias, a exemplo de Manezinho Araújo, Vinícius de Morais, Evaldo Gouveia, Moacir Silva, Paulo Soledade, Zacarias, Zé da Zilda, Pernambuco, Reinaldo Dias Leme, João Roberto Kelly e Luís Bonfá.
Na década de 1950 Antônio Maria compôs com Vinícius de Morais os sambas “Quando tu passas por mim” e “Dobrado de amor a São Paulo” (gravados por Aracy de Almeida) e “Bate, coração”. Com Zé da Zilda, “Não fiz nada”, “Meu contrabaixo” e “Não vá embora”. Ismael Neto, também importante parceiro para Antônio Maria, com ele compôs “Valsa de uma cidade”, o choro lento “Carioca”, e o samba-canção “Sei perder a canção da volta”. Em 1959 eles comporiam “Manhã de carnaval” e “Orfeu do carnaval”, duas músicas que integraram a trilha sonora do filme Orfeu do carnaval. Com Moacir Silva foram produzidas as músicas “Vem hoje”, “Ninguém sabe de nós”, “Fique comigo” e “Quando ela se foi”. Com Luís Bonfá, Antônio Maria faria “Cajueiro doce”, “Faça o que quiser” e “Canção da mulher amada”.
Antônio Maria compôs com Fernando Lobo as músicas “Preconceito”, “Vou pra Paris” e “A noite é grande”. Com Pernambuco viriam “Concerto no céu”, “Dorme”, “Suas mãos”, “Desse amor melhor”, “Mais que a minha vida”, “Amor de janela”, “O amor e a rosa” e “Coisas do amor”. Quanto a “Cajueiro doce”, foi criada em parceria com Manezinho Araújo. Mas ele compôs muitas outras músicas: “Frevo número dois do Recife”, “Frevo número três do Recife”, “Domingo”, “Fulana de Tal”, “Menino grande”, “Minha amada dormiu”, “Portão antigo”, “Recife”, “Canção da volta”, “Podem falar” e “Madrugada 3 e 5” (em parceria com Reinaldo Dias Leme), “Dez noites”, “Parceria”, “O Rio amanhecendo”, “Sei perder” e “Ai! Que medo”.
Entre os seus intérpretes mais importantes incluem-se Dolores Duran, Ângela Maria, Nora Ney, Aracy de Almeida, Emilinha Borba, Elizeth Cardoso, Jamelão, Agostinho dos Santos, Dircinha Batista, Silvia Teles, Dóris Monteiro, e os pernambucanos Claudionor Germano e Luiz Bandeira.
Como uma peça pregada pelo destino, Antônio Maria – um ferrenho combatente do Golpe Militar de 1964 – faleceu no dia 15 de outubro desse mesmo ano, vítima de um enfarte. Desde a sua morte, porém, o célebre compositor vem sendo reconhecido e homenageado. Em 1970, por exemplo, houve um espetáculo no Rio de Janeiro com Maria Betânia e Raul Cortês, apenas com as suas obras. Algumas biografias suas foram escritas e, em 1997, a cantora Marisa, Gata Mansa, gravou o CD Encontro com Antônio Maria, que reuniu catorze de suas músicas, entre as quais O amor e a rosa, Manhã de carnaval, Samba de Orfeu e A canção dos seus olhos.
O parceiro e amigo Vinícius de Moraes, entre outras coisas, escreveria o prefácio do livro O Jornal de Antônio Maria, cuja edição foi censurada e sustada pelos militares: “Às vezes eu fico pensando. Não sei se você gostaria de estar vivo agora, meu Maria, depois de 1964. Tudo piorou muito, o Governo, o caráter, a música, perdeu-se aquela criatividade boa e gratuita da década de 50. Em resumo, Maria, não se perdeu a música; perdeu-se a sua dignidade”.

Fonte: Semira Adler Vainsencher, pesquisadora da Fundação Joaquim Nabuco.  –  semiraadler@gmail.com

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