As informações sobre vida de Camões são confusas e repletas de dados duvidosos. Segundo diz o seu contemporâneo Manuel Correia, numa das edições comentadas de “Os Lusíadas”, Camões nasceu em Lisboa por volta de 1524. Seus primeiros biógrafos colocam-no como membro de uma família nobre, e o próprio poeta, em algumas composições, arroga-se a condição de nobre, embora pobre.
Mesmo assim teve educação esmerada, e a cultura revelada em suas obras atesta que teria estudado letras e artes, o que viria facilitar seu acesso à corte e aos prazeres nela existentes. Foi quando se apaixonou pela filha de um rico e poderoso fidalgo, o que acabou provocando seu desterro para a África, onde perdeu o olho direito numa expedição contra os mouros.
Retornando a Lisboa voltou à vida de aventuras e novos amores, até que ao procurar defender um amigo que o acompanhava, feriu o encarregado dos arreios do Paço, sendo preso, condenado e perdoado pela justiça um ano depois, mas com a condição de que se exilasse. Partindo para a Índia em março de 1553, Camões viveu até 1558 um período atribulado em sua permanência no Oriente, quando assumiu o cargo de “Provedor de Defuntos e Ausentes”, em Macau, mas que abandonou pouco depois e partiu para a China, em busca de bons negócios.
Lá foi acusado de desviar bens confiados à sua guarda e por isso se viu forçado a regressar às pressas, mas o navio em que viajava naufragou, ele conseguiu salvar-se com os originais de Os Lusíadas, mas não escapou das acusações que lhe faziam e nem da prisão em Goa.
De 1561 a 1564 o poeta contou com a proteção do vice-rei, Dom Fernando Coutinho, mas em 1567, quando já havia terminado a composição de Os Lusíadas, ele viajou para Moçambique, onde permaneceu morando porque lhe faltavam recursos para sair de lá. Descoberto em 1568 por alguns amigos que o encontraram vivendo de esmolas, voltou no ano seguinte a Portugal, cuidando, então, de imprimir de sua maior obra literária.
Em 1571, finalmente foi expedido o alvará para a publicação, e no ano seguinte o livro estava nas ruas, o que lhe garantiu uma pensão de 15.000 escudos anuais, renovada em 1575 e 1578. Mas esse auxílio dado pelo rei Dom Sebastião, pago irregularmente, não resolveu seus problemas, e por isso aos poucos ele foi ficando triste e só, até cair na mais completa miséria.
Os biógrafos do poeta afiançam que nessa fase de sua vida o escravo trazido da Índia por Camões lhe foi de extrema importância, pois saía às ruas e pedia esmolas durante a noite, para sustentar o amo. E assim Camões chegou a tanta pobreza, que quando morreu, em 1580, não tinha ao menos um lençol com que pudesse ser amortalhado. Enterrado em campa rasa, teve sua sepultura e despojos destruídos por um terremoto em 1775.
Autor de inúmeras poesias que marcaram época, Camões tem em “Os Lusíadas” sua obra de maior expressão. Outras, porém, também são bem conhecidas pelos apreciadores de agora, incluindo-se entra elas “Alma minha gentil que te partiste” cujos versos são:
Alma minha gentil, que te partiste / Tão cedo desta vida, descontente,/ Repousa lá no Céu eternamente / E viva eu cá na terra sempre triste.
Se lá no assento etéreo, onde subistes,/ Memória desta vida se consente,/ Não te esqueças daquele amor ardente / Que já nos olhos meus tão puro vistes.
E se vires que pode merecer-te / Alguma cousa a dor que me ficou / Da mágoa, sem remédio, de perder-te,
Roga a Deus, que teus anos encurtou, / Que tão cedo de cá me leve a ver-te, / Quão cedo de meus olhos te levou.
Ou então, “O cisne, quando sente ser chegada”:]
O cisne, quando sente ser chegada / A hora que põe termo a sua vida, / Música com voz alta e mui subida / Levanta pela praia inabitada.
Deseja ter a vida prolongada / Chorando do viver a despedida; / Com grande saudade da partida, / Celebra o triste fim desta jornada.
Assim, Senhora minha, quando via / O triste fim que davam meus amores, / Estando posto já no extremo fio,
Com mais suave canto e harmonia / Descantei pelos vossos desfavores / La vuestra falsa fé y el amor mio.
E ainda “Amor é fogo que arde sem se ver”:
Amor é fogo que arde sem se ver; / É ferida que dói e não se sente; / É um contentamento descontente; / É dor que desatina sem doer;
É um não querer mais que bem querer; / É solitário andar por entre a gente; / É nunca contentar-se de contente; / É cuidar que se ganha em se perder;
É querer estar preso por vontade; / É servir a quem vence, o vencedor; / É ter com quem nos mata lealdade.
Mas como causar pode seu favor / Nos corações humanos amizade, / Se tão contrário a si é o mesmo Amor?
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